Viés de sobrevivência: o teste que esquece quem saiu da bolsa
Desde 2000, 973 papéis deixaram a B3 e só 20 por falência. Testar só com a lista de hoje não infla sempre o resultado: muda o número para o lado que a lista esconde, nas ações, nos FIIs e nos Estados Unidos.

Em 1 minuto
- Viés de sobrevivência é testar só com quem existe hoje e esquecer quem saiu da bolsa.
- Na B3, quem sai costuma sair comprado: das 973 saídas desde 2000, 520 foram por OPA, resgate ou incorporação, e só 20 por falência.
- Por isso o erro vai para os dois lados: infla umas regras e esconde o ganho de outras.
Ao fim desta aula você vai saber
- Perguntar o que um teste fez com as empresas que saíram
- Distinguir OPA, incorporação, troca de código e falência
- Entender por que "a maioria das ações perde do CDI" e o que isso diz sobre escolher
A tese: quem sai da bolsa não é quem perdeu
"Testei a estratégia com as ações do Ibovespa, de 2010 para cá." A frase parece cuidadosa e tem um erro escondido: as ações do Ibovespa de hoje não são as que existiam em 2010. Esse erro tem nome, viés de sobrevivência: testar só com as empresas que sobreviveram até hoje, esquecendo as que fecharam o capital, foram compradas ou quebraram.
A intuição diz que quem saiu era perdedor, então o erro só deixaria o teste otimista. Na B3, os números dizem outra coisa.
A ideia: O viés de sobrevivência não infla sempre. Ele muda o resultado para o lado que a lista de hoje esconde, e só a base completa diz qual é.
O mecanismo: três forças que tiram empresas da lista
1. A compra com prêmio. Numa OPA (oferta pública de aquisição), alguém compra as ações de todos os acionistas, quase sempre por um preço acima do da tela. A empresa some do pregão no auge de uma valorização. Um teste que não a enxerga perde exatamente o melhor momento dela.
2. A incorporação. A empresa é absorvida por outra e as ações viram ações da compradora. O acionista não perdeu nada: trocou de papel. Para a planilha, porém, o código antigo simplesmente "morreu".
3. A queda lenta de quem fica. Empresa ruim raramente sai da bolsa de uma vez. Ela continua listada por anos, afundando devagar. Na lista de hoje, ela está lá; a vencedora que foi comprada, não. É assim que a lista de hoje pode ter mais perdedoras do que o passado tinha.
Para onde foram as 973 que saíram
A base histórica do Quantor tem cada papel que negociou na B3 desde 2000 e o motivo de cada saída, lido nos documentos da CVM e da B3.
Antes de continuar: Desde 2000, 973 papéis deixaram de negociar na B3. Quantos saíram por falência, recuperação judicial ou liquidação?
a) Uns 400: a maioria das saídas é quebra · b) Uns 200 · c) Uns 80 · d) Só 20
Resposta: Só 20. Só 20, cerca de 2% das saídas. 321 saíram por OPA ou resgate e 199 por incorporação: mais da metade saiu com alguém pagando pelas ações.
| Motivo da saída | Papéis |
|---|---|
| OPA ou resgate | 321 |
| Incorporação | 199 |
| Falência, recuperação judicial ou liquidação | 20 |
| Motivo não identificado | 88 |
| Outros motivos registrados | 345 |
Um exemplo recente: em 2024, a Cielo (CIEL3) fechou o capital por OPA e resgate, e a base registra R$ 5,83 por ação como o valor recebido na saída. Um teste feito hoje "com as ações listadas" não sabe que a Cielo existiu.
O que acontece com o teste
Nos testes do Quantor, a mesma regra roda duas vezes: uma com a base completa, em que quem saiu conta pelo valor que o acionista recebeu, outra só com as ações ainda listadas. A diferença é o viés.
Comece pelo mais simples, comprar e segurar cada ação. Das 437 ações que foram líquidas desde 2006, 179 saíram da bolsa.
+3,7% ao ano as 179 que saíram da bolsa, segurando, mesmo com 9 que foram a zero · −1,3% ao ano as 258 que continuam listadas · +0,7% ao ano a média das 437, contra +10,5% do CDI no mesmo período
As que ficaram renderam menos que as que saíram. Um teste só com as sobreviventes, neste caso, seria pessimista.
Nas carteiras, o erro aparece para os dois lados. A carteira das 10 ações de maior dividend yield, com a trava do Ibovespa (vai para o CDI quando o índice fecha o mês abaixo da média de 5 meses), dava +17,0% ao ano com a lista de hoje e +14,5% com a base completa: o viés inflava os dividendos, porque a lista de hoje guarda as pagadoras que chegaram até aqui e esquece as que ficaram no caminho. A carteira de Médias 20 × 50, testada antes com as 362 ações listadas hoje, caiu de +20,8% para +14,8% ao ano na base completa. A regra era a mesma; a lista é que era outra.
Nos FIIs, o viés se disfarça
Dos 605 fundos imobiliários da base, 202 já deixaram de existir. O dado público organizado mostra só a sobra em dinheiro quando um fundo sai. Se o fundo foi incorporado, o cotista recebeu cotas do fundo novo, mas a planilha registra só o troco, como se ele tivesse sido liquidado por quase nada.
Lemos à mão os documentos das 77 saídas de fundos líquidos: 34 incorporações (BCFF11 → BTHF11, IRDM11 → IRIM11, entre outras), 13 liquidações em dinheiro e 27 casos do mesmo fundo só trocando de código, como TRXL11 → BTLG11. Nos dados públicos, a troca de código aparece como um fundo que "morreu" e outro que "nasceu" sem histórico. Sem juntar as duas séries, o teste vende a posição na data da troca e perde tudo o que veio depois. Depois da correção, a carteira dos 10 fundos de fundos que mais pagavam foi de +2,0% para +7,1% ao ano.
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