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Testar uma estratégia sem se enganar · Aula 3 de 7

Custos: o retorno do backtest que não chega na conta

Corretagem, emolumentos, spread e imposto parecem pequenos um a um. O que os torna grandes é o giro. Nos 33 setups testados em 437 ações da B3, todos os que operam 5 vezes ou mais por ano ficaram abaixo do CDI.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Custos: o retorno do backtest que não chega na conta

Em 1 minuto

  • Toda operação paga emolumentos, spread, às vezes corretagem e, no lucro, imposto: cada item é pequeno, o giro o multiplica.
  • Custo por ano ≈ operações por ano × 2 × custo por ordem.
  • Nos testes do Quantor, nenhum setup que opera 5 vezes ou mais por ano bateu o CDI; a régua, com cerca de uma operação por ano, ficou perto dele.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Calcular o pedágio anual de qualquer regra
  • Saber por que o imposto pago no caminho pesa mais que o pago no fim
  • Exigir dois números de custo de qualquer teste

A tese: o que pesa não é a taxa, é quantas vezes você a paga

O gráfico do post sobe em escada. Em letra miúda, quando aparece, está escrito "sem custos". É como anunciar o consumo de um carro descendo a serra em ponto morto.

Ninguém acha que 0,1% por ordem muda alguma coisa. E não muda, uma vez. O problema é que uma regra que entra e sai doze vezes por ano paga esse 0,1% vinte e quatro vezes, todo ano, e o imposto do lucro de cada saída. O custo de uma operação é irrelevante; o custo de uma regra inteira raramente é.

A ideia: O que transforma o custo pequeno em grande é o giro: quantas vezes por ano a regra entra e sai.

O mecanismo: três forças que comem o retorno

1. A ordem paga sempre. Há os emolumentos, a taxa cobrada pela B3. Há a corretagem, zero em muitas corretoras, mas não em todas. E há o spread: a diferença entre o melhor preço de compra e o melhor de venda, que você paga ao comprar ou vender a mercado. Numa ação muito negociada ele é mínimo; em ações de pouco volume, costuma ficar entre 0,3% e 1%. E, numa ação pouco líquida, a sua própria ordem empurra o preço.

2. O custo se multiplica pelo giro, e o giro se multiplica pelo tempo. A conta de bolso cabe numa linha: custo por ano ≈ operações por ano × 2 × custo por ordem. O "× 2" existe porque cada operação completa é uma compra e uma venda. Com taxas perto de 10% ao ano, um ponto perdido por ano, composto por 20 anos, deixa cerca de 17% a menos no fim.

3. O imposto antecipado deixa de render. Para pessoa física, o ganho com ações paga 15% nas operações comuns e 20% no day trade. Há isenção nas operações comuns quando as vendas de ações do mês somam até R$ 20 mil (regra vigente em 2026; confira sempre a do seu ano), e o prejuízo de um mês abate o lucro dos seguintes. Uma regra que realiza lucro toda hora paga o imposto no caminho, e esse dinheiro para de render. Quem segura paga só no fim.

O que os testes mostram

Nos testes do Quantor, 33 setups técnicos rodam sozinhos em cada uma das 437 ações líquidas da B3 desde 2006, inclusive as que saíram da bolsa. Toda ordem paga 0,1%, o que cobre emolumentos, corretagem baixa e metade do spread de uma ação líquida. Fora da posição, o dinheiro rende CDI. Depois cruzamos quantas vezes cada setup opera por ano com quanto ele rendeu.

Antes de continuar: Dos 33 setups, quantos dos que operam 5 vezes ou mais por ano ficaram acima do CDI?

a) A maioria: quem opera mais aproveita mais oportunidades · b) Uns poucos, os melhores · c) Nenhum

Resposta: Nenhum. Nenhum. Os três que mais giram (123 de compra, NR7 e Setup 9.1, com 10 a 11 operações por ano) renderam de +2,2% a +4,4% ao ano.

+2,2% a +4,4% ao ano, os três setups que mais giram: 10 a 11 operações por ano · +8,9% ao ano, o IFR2: 6,2 operações por ano · +9,6% ao ano, a régua mensal: cerca de 1 operação por ano

Não é só o custo que derruba quem gira muito. Regras que reagem rápido costumam reagir a ruído, o sobe e desce do dia a dia que não quer dizer nada. O custo apenas garante que o ruído sai caro.

O caso do IFR2

O IFR2 é um dos setups mais conhecidos do Brasil. Ele compra quando um oscilador de 2 dias diz que a ação caiu demais em pouco tempo e vende no repique, a pequena alta que vem depois. Em 437 ações, operou em média 6,2 vezes por ano e rendeu +8,9% ao ano, contra +10,5% do CDI no mesmo período.

A conta de bolso: 6,2 × 2 × 0,1% ≈ 1,2 ponto por ano só de custo, e com o custo baixo de uma ação líquida. Mais revelador ainda é o que sobra sem o CDI. Se o dinheiro fora da posição não rendesse nada, a parte que vem só dos dias comprado seria −0,8% ao ano. Quase todo o resultado do IFR2 é o CDI dos dias em que ele estava de fora. A aula 7 volta a essa conta.

Na outra ponta, a régua mensal na PETR4 trocou de lado 3 vezes por ano, uma ordem por troca. Supondo 0,15% por ordem (uma hipótese, não uma tarifa), o retorno cai de 17,3% para cerca de 16,9% ao ano. Na ITUB4, com 3,5 trocas por ano, de 7,5% para 6,9%. Meio ponto parece pouco. Numa comparação apertada, é o que vira o resultado.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.