Tendência e volta à média: a mesma ação tem três relógios
Na B3, quem mais caiu num mês rendeu mais no mês seguinte; quem mais subiu nos meses anteriores seguiu na frente; e quem mais subiu em cinco anos rendeu menos nos cinco seguintes. Quem não diz o prazo não está dizendo nada.

Em 1 minuto
- 'A tendência é sua amiga' e 'tudo que sobe volta' não se contradizem: cada frase vale num prazo diferente.
- Na B3, o curtíssimo prazo é quase moeda, um mês tende a voltar, de alguns meses a um ano a tendência segue e, em cinco anos, volta de novo.
- Usar o sinal de um prazo para decidir em outro é o erro mais comum de quem lê gráfico.
Ao fim desta aula você vai saber
- Dizer em que prazo uma tese de mercado joga
- Reconhecer quando uma queda é ruído e quando é tendência
- Desconfiar de amostras pequenas no longo prazo
A tese: as duas frases estão certas, cada uma no seu relógio
"A tendência é sua amiga." "Tudo que sobe demais volta." Você já ouviu as duas, às vezes da mesma pessoa, na mesma semana. Parecem contraditórias, e muita gente escolhe uma delas como religião. O erro é achar que é preciso escolher. Cada frase vale num prazo diferente, e quem não diz o prazo não está dizendo nada.
Tendência é quando o que subiu continua subindo mais que o resto. Reversão à média, ou volta à média, é o contrário: o que subiu demais passa a render menos, e o que caiu demais passa a render mais. A pesquisa acadêmica documenta as duas coisas há décadas. Nesta aula, a B3 mostra a mesma coisa com os próprios números.
O mecanismo: três forças, três prazos
1. No curtíssimo prazo, manda a pressa. Num dia ou num mês, boa parte do movimento vem de quem precisou comprar ou vender rápido: um fundo resgatado, uma ordem grande, uma notícia mal lida. Essa pressão empurra o preço além do razoável, e parte do empurrão volta quando ela acaba. É volta à média, mas é pequena e cara de capturar.
2. No médio prazo, manda a demora. Uma notícia boa não entra no preço de uma vez. O mercado demora a acreditar, analistas revisam as contas aos poucos, e quem chega atrasado compra depois. O preço vai se ajustando por meses. É a tendência, e a aula 4 mostra a pesquisa que a documentou no mundo inteiro.
3. No longo prazo, manda o exagero. Depois de anos de alta, a expectativa vira certeza e o preço passa a embutir um futuro perfeito. Depois de anos de queda, acontece o contrário. Quando a realidade chega, mais morna que a expectativa, o preço corrige. Os economistas Werner De Bondt e Richard Thaler descreveram esse padrão em 1985, com ações americanas: os maiores perdedores de alguns anos renderam mais que os maiores vencedores nos anos seguintes.
Como medimos na B3
A conta é simples de explicar. Em cada data, ordenamos as ações pelo quanto subiram num prazo: um dia, uma semana, um mês, alguns meses, cinco anos. Separamos os 20% que mais subiram e os 20% que mais caíram. Depois olhamos o que cada grupo rendeu no prazo seguinte, do mesmo tamanho. Se os que subiram continuaram rendendo mais, é tendência. Se os que caíram passaram a render mais, é volta à média.
Para comparar prazos diferentes, a diferença entre os dois grupos foi convertida em pontos percentuais por ano. Usamos o arquivo mensal do Quantor, com 385 ações desde 2000, e, para dias e semanas, os pregões diários de 133 ações líquidas entre 2021 e 2026.
O que apareceu, prazo a prazo
Dias e semanas: quase moeda. De um pregão para o outro, a diferença entre os grupos foi de −1,7 ponto ao ano, e os vencedores ganharam em 50,2% dos dias. Numa semana, +0,6 ponto ao ano. Na prática, zero. O curtíssimo prazo das ações líquidas é quase todo barulho.
Um mês: volta à média. Aqui aparece o primeiro sinal de verdade, e ele vai contra a intuição de quem segue tendência.
Antes de continuar: No arquivo mensal da B3, o que rendeu mais no mês seguinte: as ações que mais subiram num mês ou as que mais caíram?
a) As que mais subiram, com folga · b) As que mais caíram · c) Empate: um mês não diz nada
Resposta: As que mais caíram. As que mais caíram renderam +1,7% em média no mês seguinte, contra +0,9% das que mais subiram: 9,2 pontos ao ano a favor das perdedoras, em 307 meses.
As que mais caíram num mês renderam +1,7% em média no mês seguinte, contra +0,9% das que mais subiram. São 9,2 pontos ao ano a favor das perdedoras, em 307 meses. Com os pregões diários das ações líquidas, o sinal foi o mesmo, mais fraco: −4,5 pontos. Parte disso é a pressão do curto prazo voltando, e parte é ruído de papel pouco negociado, em que um negócio isolado faz o preço do mês.
De alguns meses a um ano: tendência. Aqui o sinal muda de lado. Os que mais subiram nos meses anteriores seguiram rendendo mais que os que mais caíram, com uma diferença que ficou entre cerca de 5 e 11 pontos ao ano, conforme o prazo dentro dessa faixa. É o momentum, o assunto da aula 4.
Cinco anos: volta à média de novo. Quem mais subiu em cinco anos rendeu +46% nos cinco anos seguintes. Quem mais caiu rendeu +103%. É o padrão de De Bondt e Thaler, repetido na B3.
+1,7% × +0,9% 1 mês: as que mais caíram × as que mais subiram, no mês seguinte · ≈5 a 11 pontos ao ano a favor das que mais subiram, de alguns meses a um ano · +103% × +46% 5 anos: as que mais caíram × as que mais subiram, nos 5 anos seguintes
A ideia: O mesmo teste, feito em três prazos, deu três respostas. A pergunta 'tendência ou volta?' só tem resposta com o relógio junto.
Por que a régua mensal mora no meio
A régua do Quantor compara o fechamento do mês com a média exponencial dos últimos 5 fechamentos mensais: acima, alta; abaixo, baixa. Na prática, ela reage ao que aconteceu nos últimos meses e decide uma vez por mês. É a faixa do meio, onde a tendência apareceu nos dados.
Isso explica duas escolhas do método. Decidir só no fechamento do mês tira você da faixa de dias e semanas, onde o sinal é zero e cada decisão custa corretagem e nervo. Não segurar uma tendência para sempre evita a faixa de anos, onde o que mais subiu costuma devolver. A régua sai quando um mês fecha abaixo da média, muito antes de cinco anos. O módulo 5 abre a régua por inteiro.
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