Drawdown: a queda que cobra juros para voltar
O Ibovespa caiu 60% em cinco meses de 2008 e levou nove anos e quatro meses para voltar ao topo. A PETR4, com proventos, caiu 89,6% e ficou mais de treze anos debaixo d'água.

Em 1 minuto
- Drawdown é a distância entre o valor de hoje e o maior valor já atingido; depois de cair, toda alta trabalha sobre uma base menor.
- Cair 50% pede +100% para empatar, e o Ibovespa de 2008 levou 9 anos e 4 meses para voltar ao topo depois de cair 60%.
- A queda que expulsa o investidor raramente é a mais funda: é a que dura. Retorno sem a pior queda ao lado é metade da informação.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular a alta necessária e o tempo de volta depois de uma queda
- Medir o drawdown e o tempo debaixo d'água de uma série
- Comparar estratégias pelo retorno e pela pior queda juntos
A tese: perder e recuperar não são simétricos
Cair 50% e depois subir 50% não devolve você ao começo. Com R$ 100: cai para R$ 50, sobe 50% sobre R$ 50 e vai a R$ 75. Para voltar aos R$ 100 é preciso subir 100%. Não é pegadinha, é a base encolhendo. A mesma assimetria que o log-retorno mostrou na aula 5, agora com nome próprio.
A ideia: Evitar uma queda de 50% vale o mesmo que ganhar 100%. Toda estratégia é, antes de tudo, uma escolha sobre quanta queda você vai atravessar.
Drawdown é o nome dessa queda: quanto você está abaixo do maior valor que já atingiu. Não é a queda do ano nem a queda desde que você comprou; é do topo até o ponto mais baixo depois dele. E ele tem um irmão quase sempre esquecido: o tempo debaixo d'água, os meses que se passam até o topo ser reconquistado.
O mecanismo: três forças que fazem a queda cobrar juros
1. A alta necessária cresce mais rápido que a queda. Em palavras: a alta para empatar é 1 dividido pelo que sobrou, menos 1. Caiu 20%? Sobrou 0,8, e 1 ÷ 0,8 = 1,25: precisa subir 25%. Até uns 20% a conta é quase intuitiva. Depois ela dispara.
2. O tempo de volta depende da taxa, e a taxa não acelera para compensar. Mesmo que o ativo volte a render bem, ele rende sobre a base menor. Com uma taxa constante r, os anos para voltar são ln(1 ÷ o que sobrou) ÷ ln(1 + r). A queda é rápida; a volta, no ritmo normal do ativo.
3. Gente não é planilha. Quem entra numa queda de 60% costuma vender em algum ponto do caminho, quando a dor vence a tese. Pega a queda e perde a volta. Por isso o drawdown máximo de uma estratégia é, na prática, uma medida de quanto dela você consegue executar.
A conta da volta
| Queda | Alta para empatar | Anos para voltar a 10% ao ano |
|---|---|---|
| −10% | +11% | 1,1 |
| −20% | +25% | 2,3 |
| −30% | +43% | 3,7 |
| −50% | +100% | 7,3 |
| −60% | +150% | 9,6 |
| −70% | +233% | 12,6 |
| −90% | +900% | 24,2 |
Antes de continuar: R$ 100 caem 50% num mês. Depois, o ativo sobe 8% ao mês, todo mês, sem parar. Quantos meses até voltar aos R$ 100?
a) 3 meses · b) 6 meses · c) 9 meses
Resposta: 9 meses. Nove meses: 50 × 1,08⁹ = R$ 99,95. Nove meses excepcionais seguidos para empatar um único mês ruim.
O Ibovespa debaixo d'água
Para medir, basta acompanhar o maior valor já atingido e, a cada dia, calcular quanto se está abaixo dele. Foi o que fizemos com o Ibovespa desde 2000, em pontos, e três quedas passam de 40%:
| Queda | Do topo ao fundo | Tamanho | Topo de volta |
|---|---|---|---|
| 2000–2002 | 27/03/2000 → 16/10/2002 | −55,8% | 14/11/2003 |
| 2008 | 20/05/2008 → 27/10/2008 | −60,0% | 11/09/2017 |
| 2020 | 23/01/2020 → 23/03/2020 | −46,8% | 06/01/2021 |
Antes de continuar: Depois do fundo de 27/10/2008 (29.435 pontos), o Ibovespa levou quase nove anos para voltar ao topo de maio de 2008. Quanto ele subiu por ano, em média, nesse caminho?
a) Cerca de 2% ao ano: o mercado ficou parado · b) Cerca de 10,9% ao ano · c) Cerca de 25% ao ano
Resposta: Cerca de 10,9% ao ano. Cerca de 10,9% ao ano por 8,9 anos: ×2,5, de 29.435 a 73.517. Um ritmo razoável de bolsa, e mesmo assim quase uma década para empatar com a queda de cinco meses.
Profundidades parecidas, durações completamente diferentes. A de 2020 foi a mais rápida: nos 12 meses depois do fundo, o índice subiu 78%. A de 2008 foi a mais longa: em janeiro de 2016, sete anos e meio depois do topo, o índice ainda estava 49% abaixo dele. A queda que expulsa investidor raramente é a mais funda: é a que dura.
(Esses números são em pontos, sem descontar a inflação. Em termos reais, o tempo debaixo d'água seria ainda maior.)
Num papel só, a conta fica mais dura. A PETR4, com os proventos reinvestidos, caiu 89,6% entre 21/05/2008 e 26/01/2016 e só voltou ao topo em 14/01/2022: 13 anos e 8 meses debaixo d'água. Do fundo até a volta, ela subiu em média 46% ao ano por seis anos. Uma das maiores altas da bolsa brasileira serviu só para empatar.
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