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O cérebro contra a carteira · Aula 6 de 7

Sistema 1 na tela: a ação que caiu metade não está barata

O pensamento rápido vê uma ação que caiu 50% e conclui "está barata". A taxa-base da B3 diz outra coisa: das 493 quedas de 50% em 12 meses de ações líquidas desde 2006, só 26% voltaram ao preço de antes em até três anos, e metade caiu outros 50%.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Sistema 1 na tela: a ação que caiu metade não está barata

Em 1 minuto

  • O Sistema 1 troca perguntas difíceis por fáceis: "esta ação vai subir?" vira "esta ação parece barata?".
  • Das 493 quedas de 50% em 12 meses de ações líquidas da B3 desde 2006, só 26,4% voltaram ao preço de antes em três anos e 51,5% caíram outros 50%.
  • A ordem importa: taxa-base primeiro, história da empresa depois.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Perguntar a taxa-base antes de olhar o caso
  • Desmontar um múltiplo em numerador e denominador
  • Agendar as decisões para o Sistema 2 estar no comando

A tese: o problema não é a emoção, é o atalho

As aulas anteriores trataram de dor, orgulho e medo de ficar de fora. Esta trata de outra coisa: um erro de raciocínio que acontece com a cabeça fria. Ele não vem do pânico. Vem de uma resposta rápida que parece sensata.

Daniel Kahneman, psicólogo que ganhou o Nobel de Economia em 2002, resumiu décadas de pesquisa com Amos Tversky em Rápido e Devagar (2011). O livro descreve dois modos de pensar. O Sistema 1 é rápido, automático, conta histórias e responde antes de você pedir. O Sistema 2 é lento, faz contas e só entra em cena quando é chamado.

A ideia: O Sistema 1 não é vilão: acerta a maior parte da vida. O problema é que, na bolsa, ele troca a pergunta difícil ("vai subir?") pela fácil ("parece barata?"). E a tela de cotações é feita de estímulos para ele.

O mecanismo: três atalhos que a tela aciona

1. A taxa-base esquecida. Kahneman mostrou que as pessoas julgam um caso pelo quanto ele se parece com uma história, e ignoram a frequência geral daquilo acontecer. "Empresa conhecida que caiu muito" parece o começo de uma recuperação. A pergunta do Sistema 2 é outra: de todas as ações que caíram assim, quantas se recuperaram?

2. A âncora. Um número visto primeiro contamina a estimativa seguinte, mesmo sem relação com ela. Na bolsa, as âncoras mais fortes são o preço de antes da queda e o seu preço médio, como a aula 3 mostrou. "Estava a R$ 40, agora está a R$ 20" já soa como desconto, quando é só a distância até um número velho.

3. O que você vê é tudo o que há. Kahneman deu a esse atalho uma sigla em inglês, WYSIATI ("what you see is all there is"): o Sistema 1 monta uma história coerente com o que está na frente e não sente falta do que não viu. Um P/L baixo na tela vira "barato" sem que você pergunte por que o lucro está como está.

O teste: a taxa-base de "caiu metade"

Contamos, nos fechamentos mensais com proventos da base própria do Quantor, todas as vezes, de janeiro de 2006 em diante, em que uma ação líquida (média de pelo menos R$ 1 milhão por dia, em dinheiro de hoje, no mês da queda) acumulou queda de 50% ou mais em 12 meses. Para não contar o mesmo tombo várias vezes, cada papel entra de novo só depois de um ano. Depois olhamos os três anos seguintes.

Foram 493 quedas com três anos de futuro conhecido, em 244 papéis diferentes. Dois anos concentram muitas delas: 2008 (105) e 2022 (84).

Antes de continuar: Das 493 vezes em que uma ação líquida da B3 caiu 50% em 12 meses desde 2006, em quantas ela voltou ao preço de antes da queda em algum momento dos três anos seguintes?

a) Em uns 70%: o repique é a regra · b) Em uns 50% · c) Em uns 26%

Resposta: Em uns 26%. Em 130 casos, 26,4%. Em 254 (51,5%), o papel caiu outros 50% a partir do preço que parecia barato.

O que aconteceu nos 3 anos seguintes (493 quedas) Casos %
Voltou ao preço de 12 meses antes, em algum momento 130 26,4%
Caiu outros 50% a partir do preço "barato" 254 51,5%
Estava acima do preço da queda três anos depois 235 47,7%

Repare como os três números contam histórias diferentes. Comprar depois da queda deu lucro em quase metade dos casos três anos depois: o repique existe. Mas o retorno mediano dos três anos foi de −6,6%. E quem ancorou no preço de antes esperou em vão em três de cada quatro casos, enquanto mais da metade viu o "barato" ficar pela metade de novo.

26,4% voltaram ao preço de antes da queda em até 3 anos · 51,5% caíram outros 50% a partir do preço "barato" · −6,6% retorno mediano nos 3 anos seguintes, com proventos

E a conta ainda é otimista. Ficaram de fora 70 quedas em que o papel deixou de negociar com aquele código antes de completar três anos (saída da bolsa, incorporação ou troca de código). Só 16 delas tinham voltado ao preço de antes da queda até parar.

Cuidado: A taxa-base não diz se a sua ação vai voltar. Diz quão raro é voltar, antes de a história da empresa convencer você.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.