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O cérebro contra a carteira · Aula 5 de 7

Recência e manada: o consenso chega depois do preço

O último ano vira previsão sem você perceber, e o grupo inteiro faz a mesma conta. Quando a manchete diz que todo mundo já sabe, o preço já sabia antes.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Recência e manada: o consenso chega depois do preço

Em 1 minuto

  • Recência é dar peso demais ao que acabou de acontecer, e ela nunca se apresenta como previsão: chega como descrição, "o mercado está forte".
  • No Ibovespa de 1997 a 2025, depois de anos de +30% ou mais o ano seguinte rendeu em média +0,9%; depois de anos de −10% ou pior, +38,6%.
  • O consenso descreve o preço que já aconteceu: quando todo mundo concorda, o preço já pagou a notícia.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Perceber quando uma descrição do último ano virou previsão
  • Separar o que tem inércia (preço, em meses) do que reverte (lucro e juro, em anos)
  • Ler fluxo e consenso como contexto, não como gatilho

A tese: a previsão disfarçada de fato

Pense no último ano da bolsa. Se ele foi bom, a frase que se forma na sua cabeça é "o mercado está forte". Se foi ruim, "bolsa não é para mim". Nenhuma das duas soa como previsão. Soam como constatação.

Mas as duas fazem a mesma coisa: pegam os últimos doze meses e esticam para a frente. E, quando milhões de pessoas fazem a mesma conta ao mesmo tempo, o resultado vira consenso, a manchete confirma e o preço já andou.

A ideia: Recência é a tendência de dar peso demais ao que aconteceu por último. Ela quase nunca se apresenta como aposta. Se apresenta como descrição.

Esta aula junta os dois vieses porque eles são o mesmo erro em duas escalas: a recência é a extrapolação de uma pessoa, a manada é a extrapolação de todas juntas.

O mecanismo: três forças que empurram para o mesmo lado

1. O fácil de lembrar parece provável. Kahneman e Tversky chamaram de heurística da disponibilidade o atalho que a mente usa para estimar chances: em vez de consultar números, ela mede o quanto é fácil imaginar a cena. O último trimestre tem manchete, conversa, textura. O de cinco anos atrás virou uma linha num gráfico.

2. O mercado mostra tudo em janelas de doze meses. O dividend yield é o dividendo dos últimos 12 meses sobre o preço de hoje. O P/L usa o lucro dos últimos quatro trimestres. O retorno dos fundos aparece "em 12 meses". Nada disso está errado, mas transforma uma janela arbitrária em régua oficial, e o investidor lê a fotografia de um pedaço do ciclo como se fosse característica permanente.

3. Discordar do grupo dói. Nos anos 1950, o psicólogo Solomon Asch reunia pequenos grupos e mostrava uma linha de referência e três outras: qual tinha o mesmo tamanho? Sozinhas, as pessoas quase não erravam. Mas os outros participantes eram atores combinados para dar a mesma resposta errada. Diante do grupo, o voluntário seguiu o erro em cerca de uma em cada três respostas, e cerca de três em cada quatro pessoas cederam pelo menos uma vez. Ninguém ganhava nada por concordar. Só era desconfortável ser o único a discordar. No mercado, discordar custa mais: você pode passar meses parecendo errado.

Morgan Housel acrescenta um tempero em A Psicologia Financeira (2020): o pessimismo soa mais inteligente que o otimismo. A previsão de desastre parece análise; a de recuperação parece ingenuidade. Por isso, nos fundos, o consenso pessimista é o mais confortável de seguir.

O teste: um ano prevê o seguinte?

Se a recência estivesse certa, depois de um ano muito bom viria outro bom, e depois de um ano ruim, outro ruim. Dá para testar nos retornos anuais do Ibovespa, de 1997 a 2025.

Antes de continuar: De 1997 a 2025, o Ibovespa teve oito anos de alta de 30% ou mais. Em média, quanto ele rendeu no ano seguinte a cada um deles?

a) Uns +25%: o embalo continua · b) Uns +10% · c) Perto de zero: +0,9%

Resposta: Perto de zero: +0,9%. +0,9% em média. Em três dos oito casos veio queda, e duas delas fortes: 1998 (−33,5%) e 2008 (−41,2%).

Grupo de anos (1997–2025) Casos Ano seguinte, em média Anos seguintes com alta
Ano de +30% ou mais 8 +0,9% 5 de 8
Ano de −10% ou pior 10 +38,6% 7 de 10

Os oito anos fortes foram 1997, 1999, 2003, 2006, 2007, 2009, 2016 e 2019. Os anos seguintes renderam −33,5%, −10,7%, +17,8%, +43,6%, −41,2%, +1,0%, +26,9% e +2,9%. A correlação entre o retorno de um ano e o do seguinte, nos 28 pares, foi de −0,37. Se algum padrão aparece, é o contrário da extrapolação.

Não conclua daí "depois de um ano ruim, compre". Dez casos são pouco, e 2001 e 2002 foram dois anos ruins seguidos (−11,0% e −17,0%). A conclusão segura é mais modesta: o ano passado não serviu para prever o próximo.

O caso que parecia ciência: os juros de 2021

A recência não é só de pessoa física. Em 06/08/2020, o Banco Central baixou a Selic para 2% ao ano, a mínima da história, e ela ficou ali até 17/03/2021. Nesse período, o mercado projetava juros baixos por bastante tempo. Em 04/08/2022, a Selic estava em 13,75%.

2,00% Selic de 06/08/2020 a 17/03/2021, a mínima da história · 13,75% Selic em 04/08/2022, menos de um ano e meio depois

Não foi falta de técnica de quem projetava. Foi o consenso esticando o regime do momento com um ajuste pequeno. Quem comprou título longo prefixado em 2020, achando que juro baixo era o novo normal, viu o preço desse título desabar quando o juro subiu, como o curso Renda Fixa com Dados mostra na aula de marcação a mercado.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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