Viés de confirmação: a tese que fica mais bonita quando o preço cai
Depois que você compra, a tese deixa de ser uma hipótese sobre a empresa e vira uma defesa de você mesmo. E a tela ajuda: quando o preço cai, o P/L melhora sozinho. Por isso o que faria você mudar de ideia precisa estar escrito antes da compra.

Em 1 minuto
- Depois da compra, a mente procura quem concorda e lê o argumento contrário por último: é o viés de confirmação.
- Na bolsa ele tem um cúmplice: quando o preço cai, o P/L e o dividend yield melhoram sozinhos e a tese parece mais bonita.
- A IRBR3 foi de P/L 27,9 para 6,3 em quatro meses de 2020, parecendo cada vez mais barata, e depois caiu mais 98%; a defesa é escrever a falsificação antes de comprar.
Ao fim desta aula você vai saber
- Desenhar um teste que poderia derrubar a sua tese, não só confirmá-la
- Separar o múltiplo que melhorou pelo preço do que melhorou pelo lucro
- Escrever tese e falsificação com número e prazo
A tese: a convicção que cresce com o prejuízo
Você estudou a empresa, leu o balanço, comprou. O preço cai 20%. O que você faz na semana seguinte?
Quase todo mundo faz a mesma coisa: procura quem concorda. Lê o relatório otimista, assiste ao vídeo do gestor que gosta da empresa, entra no grupo de acionistas. O relatório que rebaixou a ação fica para depois. Não é que você ignore o argumento contrário. Você só procura o favorável com muito mais empenho.
A ideia: Depois da compra, a tese deixa de ser uma hipótese sobre a empresa e vira uma defesa de você mesmo.
Admitir que a tese está errada custa mais que dinheiro: custa admitir que você analisou mal. Esse é o viés de confirmação, e ele dá à aversão à perda e ao preço médio, as duas aulas anteriores, uma justificativa que soa inteligente.
O mecanismo: três forças que transformam análise em defesa
1. O teste que só pode dizer sim. Em 1960, o psicólogo britânico Peter Wason inventou um jogo simples. Dizia que a sequência 2, 4, 6 obedecia a uma regra secreta. A pessoa podia propor outras sequências de três números e ouvir "sim" ou "não". Quando estivesse segura, anunciava a regra. A maioria pensava em "pares somando 2" e testava 8, 10, 12, depois 20, 22, 24. Sempre "sim". A convicção crescia e a pessoa anunciava a regra, errada. A regra real era muito mais ampla: qualquer sequência crescente. Quem descobria era quem testava algo que poderia dar "não", como 6, 4, 2. Teste que só pode confirmar não ensina nada.
2. A leitura assimétrica. O argumento a favor é lido como prova; o contrário, como opinião a ser refutada. Você não precisa mentir para si mesmo. Basta exigir mais evidência de um lado que do outro, e a balança pende sozinha.
3. A tela que melhora quando o preço cai. Os indicadores mais usados dividem alguma coisa pelo preço. Se o lucro por ação é R$ 1 e a ação custa R$ 10, o P/L (preço sobre lucro) é 10. Se a ação cai para R$ 5 e o lucro publicado continua o mesmo, o P/L vira 5. O dividend yield faz o mesmo ao contrário: o dividendo passado dividido por um preço menor dá um número maior. Quanto mais o preço cai, mais barata a empresa parece, mesmo que nada nela tenha melhorado. Para quem já procura confirmação, é o argumento perfeito.
O caso: IRBR3 em 2020
Em 2019, a IRB Brasil era uma das queridinhas da bolsa: crescimento, rentabilidade alta, notas elevadas nos rankings de qualidade. Em fevereiro de 2020, a gestora Squadra publicou cartas questionando a qualidade dos resultados e dizendo estar vendida no papel, isto é, apostando na queda. A primeira reação de muitos acionistas foi atacar a mensageira: a gestora queria derrubar o preço para lucrar. Em 03/03/2020, a Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, desmentiu publicamente ser acionista da resseguradora, como tinha circulado na imprensa dias antes.
A tese ficou mais forte no discurso enquanto o preço fazia o caminho oposto. E a tela ajudava o discurso.
Antes de continuar: Em janeiro de 2020, a IRBR3 tinha P/L de 27,9. Com a queda do preço, o P/L chegou a 6,3 em maio. O que aconteceu com o lucro de 12 meses até agosto de 2020?
a) Continuou parecido: a ação ficou barata de verdade · b) Caiu uns 20% · c) Virou prejuízo
Resposta: Virou prejuízo. O lucro de 12 meses foi de R$ 1,5 bilhão (dezembro de 2019) para R$ 1,2 bilhão (fevereiro de 2020), R$ 1,0 bilhão (junho) e um prejuízo de R$ 36 milhões (agosto). O P/L de 6,3 era do lucro velho.
Os números do arquivo mensal da base própria, mês a mês:
| Fim do mês | Preço na tela | P/L | P/VP | Lucro de 12 meses |
|---|---|---|---|---|
| Janeiro de 2020 | R$ 44,83 | 27,9 | 9,8 | R$ 1,50 bilhão |
| Março de 2020 | R$ 9,68 | 7,4 | 2,3 | R$ 1,21 bilhão |
| Maio de 2020 | R$ 8,30 | 6,3 | 1,9 | R$ 1,21 bilhão |
| Agosto de 2020 | R$ 7,13 | negativo | 3,1 | prejuízo de R$ 36 milhões |
Entre janeiro e maio, o P/L caiu de 27,9 para 6,3 e o P/VP de 9,8 para 1,9. Quem queria confirmação tinha uma tabela inteira dizendo que a ação estava cada vez mais barata. O que a tabela não dizia é que o lucro do denominador estava velho. Quando o lucro novo chegou, o "barato" desapareceu.
O que a régua fez sem ler nada
A régua mensal (fechamento do mês acima ou abaixo da média exponencial dos últimos cinco fechamentos) não leu a carta da Squadra, nem os fóruns, nem o desmentido da Berkshire. Só olhou onde o mês fechou.
jan/2020 IRBR3 acima da régua mensal · −25,8% o fechamento de fevereiro de 2020 contra janeiro: a régua vira para baixo · −98,1% do fechamento de fevereiro de 2020 até o fundo, em fevereiro de 2023
A régua não teria evitado o primeiro tombo. Ninguém evitaria. Mas teria tirado o investidor dos 98% seguintes, sem que ele precisasse decidir quem estava certo sobre a contabilidade. É a falsificação de preço que a aula 3 chamou de condição de morte: escrita antes, igual para todos, cega à tese.
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