Certeza e excesso de confiança: o erro que gera todos os outros
Comprar o Ibovespa e esperar um ano deu prejuízo em 35,6% das vezes desde 1996, com resultados de −58% a +237%. Quem fala do futuro com certeza escolheu uma barra desse gráfico e fingiu que as outras não existem.

Em 1 minuto
- O profissional não prevê melhor que o amador; ele se prepara melhor para o caso em que errou.
- Comprar o Ibovespa e esperar um ano deu prejuízo em 35,6% das 7.177 janelas desde 1996, com extremos de −58,4% e +236,8%.
- Quase todo mundo se acha acima da média, e quem se acha acima da média opera mais: os 20% que mais giravam ficaram 6,5 pontos ao ano atrás do mercado.
Ao fim desta aula você vai saber
- Trocar "o que vai acontecer?" por "o que eu faço em cada caso?"
- Ler um resultado como uma distribuição, não como um número
- Reconhecer os três sinais do excesso de confiança antes de apertar o botão
A tese: o profissional não prevê melhor que você
Quem lê os livros de entrevistas de Jack D. Schwager esperando descobrir como os grandes operadores acertam o futuro sai frustrado. Eles não acertam muito. Steve Cohen, entrevistado em Hedge Fund Market Wizards (2012), conta que os seus melhores operadores ganham dinheiro em pouco mais de 60% das operações. E, ainda assim, ganham muito dinheiro.
A ideia: O que separa o profissional do amador não é a qualidade da previsão. É o que ele faz quando a previsão falha.
O amador monta uma tese e tenta estar certo. O profissional monta um processo que sobrevive a vários futuros, inclusive àquele em que ele estava errado. Larry Hite, entrevistado no primeiro Os Magos do Mercado (1989), resume a ideia, aqui em paráfrase: ele tem regras justamente porque não sabe o que vai acontecer. Não é humildade de enfeite. É engenharia.
O mesmo investimento, milhares de futuros
Para ver por que a certeza é uma ilusão, pegue a decisão mais simples da bolsa: comprar o Ibovespa e esperar um ano. Medimos o resultado dela para cada pregão de compra desde 30/09/1996, com 252 pregões de espera, até 25/09/2026. São 7.177 janelas.
Antes de continuar: Desde 1996, em quantas das 7.177 vezes quem comprou o Ibovespa e esperou um ano estava no prejuízo no fim?
a) Em uns 10%: um ano já basta · b) Em uns 20% · c) Em uns 36%: mais de uma vez em cada três
Resposta: Em uns 36%: mais de uma vez em cada três. Em 35,6% das janelas. A mediana foi de +10,3%, mas o resultado foi de −58,4% a +236,8%, conforme o dia da compra.
35,6% das janelas de 12 meses terminaram no prejuízo · +10,3% a mediana: metade das janelas rendeu mais, metade menos · −58,4% a +236,8% a pior e a melhor janela, compradas em 04/09/1997 e 14/01/1999
Não existe "o" resultado de comprar o Ibovespa. Existe uma distribuição. Em 8,9% das janelas, a perda passou de 20%. Em 11,1%, o ganho passou de 50%. A mesma decisão, no mesmo índice, com resultados que vão de perder mais da metade a mais que triplicar. As duas pontas ficam a menos de um ano e meio uma da outra. A pior janela começou em 04/09/1997 e atravessou a crise asiática e a moratória da Rússia: em 10/09/1998, o índice caiu 15,8% num só pregão. A melhor começou em 14/01/1999, véspera do pregão em que o Ibovespa subiu 33,4%, quando o Banco Central desistiu de segurar o câmbio. Quem comprou na primeira data tinha argumentos tão bons quanto quem comprou na segunda. O que mudou foi só o sorteio do calendário.
Quem diz com certeza o que a bolsa vai fazer em 12 meses está escolhendo uma barra desse gráfico e fingindo que as outras não existem.
O mecanismo: três ilusões que fabricam certeza
1. Todo mundo se acha acima da média. Em 1981, o psicólogo Ola Svenson perguntou a estudantes dos Estados Unidos e da Suécia se dirigiam melhor ou pior que o motorista mediano do grupo. Por definição, só metade pode estar acima da mediana. Entre os americanos, 93% disseram estar acima; entre os suecos, 69%. Esse é o excesso de confiança: superestimar a própria habilidade e a precisão do que se sabe.
2. Saber mais parece prever melhor. Ler quatro relatórios sobre uma empresa deixa você mais informado que quase todo mundo, mas não dá vantagem sobre o preço, porque o preço já reflete o que esses relatórios dizem. O cérebro não separa as duas coisas: sente competência e transforma em confiança.
3. A sorte recente vira prova de talento. Três acertos seguidos parecem habilidade, mesmo que sejam acaso. Quem teve uma boa sequência tende a operar mais, e maior. E a tela ao vivo ajuda: o preço pisca, a cor muda, o botão está ali, e a sensação de controle cresce justamente sobre o que é ruído.
O que a certeza custa: o giro
O excesso de confiança tem um sintoma que dá para medir: o giro da carteira. Os economistas Brad Barber e Terrance Odean acompanharam cerca de 66 mil famílias com conta numa corretora americana, de 1991 a 1996, e as ordenaram pelo quanto trocavam da carteira por ano. Os 20% que mais negociavam renderam 11,4% ao ano, líquido de custos, contra 17,9% do mercado: 6,5 pontos ao ano atrás. O título do artigo, de 2000, resume: operar é perigoso para o seu patrimônio.
No Brasil, o caso extremo foi medido por Fernando Chague, Rodrigo De-Losso e Bruno Giovannetti. Eles acompanharam quase 20 mil pessoas que começaram a fazer day trade de minicontratos de Ibovespa entre 2013 e 2015. Entre as que insistiram por mais de 300 pregões, 97% perderam dinheiro.
A conta em reais de quanto o giro come em 20 anos, com imposto antecipado e custos, está no curso Carteira à Prova de Crise. Aqui interessa a origem: ninguém gira a carteira se não tiver certeza de que a próxima operação é melhor que ficar parado.
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