Nos EUA: o mercado mais fácil de entrar e o mais difícil de bater
Os mesmos testes foram levados ao S&P 500, com as empresas que saíram do índice. De 2011 a 2026, quase nada bateu o índice com folga, e a regra de tendência mais forte da B3 perdeu dele. Lá fora serve para diversificar, não para achar atalho.

Em 1 minuto
- Nos EUA, de 2011 a 2026, o S&P 500 com dividendos fez +14,3% ao ano em dólar e ficou à frente de quase todas as regras testadas.
- A regra de tendência que mais rendeu na B3 empatou com comprar os 500 em pesos iguais, e com a trava do índice caiu para +7,7%; 46 de 59 testes com fundamentos perderam do índice.
- Mercado mais eficiente, vantagem menor: lá fora, o índice é o adversário e o câmbio é metade da conta.
Ao fim desta aula você vai saber
- Explicar por que mais informação deixa o mercado mais difícil de bater
- Separar o retorno em dólar do retorno em reais
- Usar o exterior como diversificação, não como atalho
A tese: lá é mais fácil entrar, não mais fácil ganhar
"Nos Estados Unidos é mais fácil. As empresas são melhores, o mercado é maior, não tem a bagunça do Brasil." Parte disso é verdade. A bolsa americana é a mais profunda do mundo, com empresas globais e informação de sobra.
Só que mais informação vale para todo mundo. Quanto mais gente competente olhando os mesmos números, mais rápido o preço absorve o que eles dizem, e menos sobra para quem tenta escolher melhor que a média. A grama do vizinho parece mais verde porque a gente compara o que conhece de perto, com todos os defeitos, com o que conhece de longe, só pelas manchetes boas.
Antes de continuar: A regra de tendência consistente que mais rendeu nos testes do Quantor na B3 foi levada ao S&P 500, de 2011 a 2026, em dólar. O índice com dividendos fez +14,3% ao ano. Quanto fez a regra?
a) Uns +25%: o dobro do índice · b) Uns +17%: um pouco acima · c) Uns +12%: abaixo do índice · d) Uns +5%: muito abaixo
Resposta: Uns +12%: abaixo do índice. +12,0% ao ano, praticamente o mesmo que comprar os 500 com pesos iguais (+12,2%). Com a trava do índice, caiu para +7,7%. Na B3, a mesma ideia tinha ficado bem acima do Ibovespa.
Por que lá é mais difícil: três forças
1. Mais olhos, menos sobra. A B3 tem poucas centenas de ações líquidas e muito menos analistas e fundos quantitativos por empresa. Nos EUA, cada grande empresa é olhada por dezenas de profissionais e por programas que varrem os números em segundos. Uma tendência ou um desconto dura menos antes de alguém aproveitar e fazer o preço se ajustar. Os economistas chamam isso de eficiência de mercado.
2. O índice é concentrado nas vencedoras. O S&P 500 dá mais peso às empresas maiores. De 2019 a 2026, poucas megaempresas de tecnologia puxaram o índice. Uma carteira de 10 ou 20 nomes com pesos iguais começa uns 4 pontos por ano atrás só por não ter o peso delas.
3. As crises lá foram em V. Regras de tendência pegam bem as quedas longas e lentas, como a de 2008. Nos EUA, várias quedas recentes caíram e voltaram em poucos meses: 2011, 2015–16, 2018, 2020, 2022 e 2025. É o tipo de queda em que uma regra mensal sai depois do tombo e volta depois da alta.
Como foi o teste
A pesquisa do Quantor montou uma base do S&P 500 sem viés de sobrevivência: em cada mês entram as empresas que eram do índice naquele mês, inclusive as que foram compradas, quebraram ou saíram depois. São 1.303 papéis, de 1991 a 2026, com custo de 0,05% por ordem e o caixa rendendo o título de curto prazo do Tesouro americano, tudo em dólar.
A parte mais importante é a prova cega. As regras foram escritas antes de rodar. O período de 1991 a 2010 serviu para criá-las e ajustá-las. O de 2011 a setembro de 2026 ficou guardado para o fim, para ver se a regra se sustenta em dados que não ajudaram a escolhê-la.
O que os números mostram
| Na prova cega, 2011 a set/2026, em dólar | Retorno ao ano |
|---|---|
| S&P 500 com dividendos | +14,3% (pior queda de −24%) |
| Os 500 com pesos iguais | +12,2% |
| A regra de tendência mais forte da B3 | +12,0% |
| A mesma, com a trava do índice | +7,7% |
| Momentum de preço simples (6 ou 12 meses) | +17% a +20% (quedas de −26% a −35%) |
A trava, que na B3 cortou quedas pela metade, aqui atrapalhou. A carteira ia para o caixa nas quedas em V e ficava lá durante a volta.
Os mestres também perderam. Num segundo teste, com os balanços entregues à SEC (a CVM de lá), Graham, Greenblatt, Piotroski, Buffett quantitativo e Lynch ficaram todos abaixo do índice de 2019 a 2026, quando o S&P fez +17,5% ao ano.
+14,3% o S&P 500 com dividendos, ao ano, 2011 a set/2026, em dólar · 46 de 59 testes com fundamentos que perderam do índice por 1 ponto ou mais (2019–2026) · +7,7% a regra de tendência da B3, com a trava, nos EUA
O que ficou acima. O momentum de preço simples, comprar as que mais subiram em 6 ou 12 meses, fez de +17% a +20% ao ano. Mas, descontado o número de testes feitos, essa vantagem não se distingue de sorte: quem testa muitas regras sempre acha uma que parece ótima. E no período inteiro desde 1991 essas carteiras chegaram a cair de −57% a −77%.
A ideia: O mercado mais eficiente do mundo não é o mais fácil. É o mais difícil de bater.
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