O setup mágico: 33 regras, e nenhuma bate o CDI na maioria das ações
Os setups mais conhecidos rodaram em cada uma das 437 ações líquidas da B3 de 2006 a 2026. O melhor bateu a renda fixa em 43% delas, e boa parte do ganho de todos vinha do CDI do tempo fora, não do gráfico.

Em 1 minuto
- 33 setups conhecidos, cada um aplicado às 437 ações líquidas da B3 desde 2006: nenhum bateu o CDI na maioria das ações.
- O ganho dos melhores vinha em boa parte do CDI recebido enquanto estavam fora; o Keltner ficou comprado só 12% do tempo.
- Os setups que giram muito ficaram no fim da fila, e a régua mensal não foi a que mais rendeu, mas a que mais cortou a queda.
Ao fim desta aula você vai saber
- Fazer as três perguntas que desmontam o gráfico de um setup
- Separar o ganho do setup do ganho do caixa
- Calcular o pedágio anual de um setup pelo número de operações
A tese: o setup mágico existe só no gráfico escolhido
"Existe um setup que funciona. Os profissionais sabem qual é." Setup é uma regra de compra e venda baseada no gráfico: o cruzamento de médias, o rompimento de canal, o IFR que marca a virada, o setup com número no nome. Todo mês aparece um novo, sempre com um gráfico em que as setas caem nos lugares certos.
O gráfico convence porque o cérebro é uma máquina de achar padrão. Ele vê rosto em nuvem e tendência em ruído. E o gráfico mostrado foi escolhido entre centenas, justamente por ser o que deu certo. O que ele não mostra é o que aconteceu nas outras ações e nos outros anos.
Antes de continuar: O Quantor aplicou 33 setups conhecidos, cada um sozinho, em cada uma das 437 ações líquidas da B3 desde 2006. O melhor deles bateu o CDI em que fração das ações?
a) Uns 80%: é o melhor setup · b) Uns 60% · c) Menos da metade
Resposta: Menos da metade. 43%. O Canal de Keltner, o primeiro da lista, perdeu da renda fixa em mais da metade das ações. Nenhum dos 33 bateu o CDI na maioria delas.
Por que o setup mágico convence: três forças
1. O gráfico é escolhido a dedo. Em uma ação específica, qualquer setup pode ter ido muito bem. Com 33 setups e 437 ações, há 14.421 combinações, e várias delas vão parecer geniais por puro acaso. É exatamente esse o gráfico que vai para o post, o vídeo e o curso.
2. O CDI trabalha escondido. Um setup que fica fora da ação boa parte do tempo deixa o dinheiro na renda fixa, e no Brasil a renda fixa pagou 10% ao ano. O resultado parece vitória do gráfico, mas é em grande parte do juro.
3. O giro cobra em silêncio. Cada compra e venda paga corretagem, emolumentos e spread. Um setup que opera dez vezes por ano começa cada ano devendo, e o gráfico com as setas nunca mostra a conta.
Como foi o teste
A pesquisa do Quantor aplicou 33 setups conhecidos, cada um sozinho, a cada uma das 437 ações líquidas da B3 desde 2006, inclusive as 179 que saíram da bolsa. Entre eles: médias 9 × 21 e 20 × 50, cruz dourada, canais de Keltner e de Donchian, as Tartarugas, máxima de 52 semanas, Ichimoku, Supertrend, MACD, ADX, IFR de 2 e de 14, estocástico, Bollinger, a família 9.1 a 9.4, o 123 de compra e a régua mensal.
As regras foram as mesmas para todos: sinal no fechamento e ordem na abertura seguinte; custo de 0,1% por ordem; posição só com a ação líquida; dinheiro no CDI quando fora; nenhuma escolha de ações, o setup ligado do começo ao fim de cada papel. A média entre as 437 responde à pergunta de quem usa um setup: se eu aplicar isso numa ação qualquer, o que esperar?
O que os números mostram
+11,3% o melhor setup (Canal de Keltner), média ao ano nas 437 ações · +10,5% o CDI no mesmo período · 43% das ações em que o melhor setup bateu o CDI · +0,7% comprar e segurar a ação típica
O topo da lista é um empate. Os oito primeiros ficam entre +10,4% e +11,3%, colados no CDI. Só 6 dos 33 ficaram acima do CDI médio, e nenhum por mais de 1 ponto.
E a ordem do topo muda quando a regra do teste muda. Aconteceu com a própria pesquisa: quando passou a contar só as operações feitas com a ação líquida, os oito primeiros da lista antiga caíram de 1,5 a 3,3 pontos. As médias 9 × 21, que estavam em 2º lugar com +13,2%, desceram para +9,9%, abaixo do CDI.
A ideia: O primeiro lugar de uma lista de setups é mais sorte da amostra que mérito do setup.
De onde vem o retorno
Antes de continuar: O Keltner fez +11,3% ao ano na média. Quanto disso veio da ação em si, sem contar o CDI que o dinheiro recebeu enquanto o setup estava fora?
a) Quase tudo: uns +10% · b) Mais ou menos metade: uns +6% · c) Uns +2%
Resposta: Uns +2%. +2,0%. O setup ficou comprado só 12% do tempo. Nos outros 88%, o dinheiro estava na renda fixa.
Esse é o segredo de muitos setups "vencedores": eles ganham de segurar a ação porque passam muito tempo fora dela. Ficam protegidos das quedas da ação típica e recebem CDI. A entrada mágica pesa bem menos do que parece.
No fim da fila estão os setups de giro alto e de reversão, os que operam muito e tentam pegar a virada:
| Setup | Retorno médio ao ano | Giro |
|---|---|---|
| Estocástico | +1,9% | reversão, giro alto |
| 123 de compra | +2,2% | cerca de 10 operações por ano |
| NR7 | +2,3% | cerca de 10 operações por ano |
| CDI, para comparar | +10,5% | — |
O 123 e o NR7 rendem menos de um quarto do CDI. A conta do giro cabe numa linha: custo por ano ≈ operações por ano × 2 × custo por ordem. Dez operações com 0,1% por ordem são 2 pontos por ano. Com 0,5%, que é o custo comum em ações menos negociadas, são 10 pontos, quase o CDI inteiro. O curso Carteira à Prova de Crise faz essa conta com a sua carteira.
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