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Os erros dos outros · Aula 6 de 7

Resultado não é decisão

Quem comprou small caps entre março e outubro de 2020 ganhou em 12 meses em todos os casos; quem fez a mesma coisa de novembro de 2020 a setembro de 2021 perdeu em todos. Mesma decisão, dois placares, e o primeiro ensinava a repetir o erro no segundo.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Resultado não é decisão

Em 1 minuto

  • No curto prazo, o resultado de uma decisão diz pouco sobre a qualidade dela: sorte e habilidade chegam misturadas no mesmo extrato.
  • No SMAL11, a mesma decisão deu lucro em todos os meses de compra de 2020 e prejuízo em todos de novembro de 2020 a setembro de 2021.
  • A caixa mais perigosa é a da decisão ruim que dá lucro: ela chega com dinheiro na conta e ensina a repetir o erro, maior.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Classificar uma decisão nas quatro caixas de Larry Hite
  • Saber quantas decisões são precisas para o resultado começar a dizer algo
  • Reconhecer o momento em que um lucro está treinando o comportamento errado

A tese: o lucro de hoje não prova a decisão de ontem

Você comprou, subiu, ganhou. Isso não quer dizer que decidiu bem. Você seguiu a sua regra, saiu, e o papel subiu no mês seguinte. Isso não quer dizer que decidiu mal.

No curto prazo, resultado e decisão são quase independentes. Quem aprende pelo resultado de cada operação está treinando o próprio comportamento com recompensas que, em boa parte, são sorteio. A jogadora profissional de pôquer Annie Duke deu nome a esse erro no livro Thinking in Bets (2018): resulting, julgar a qualidade de uma decisão pelo que aconteceu depois dela. William Eckhardt, entrevistado por Jack D. Schwager em The New Market Wizards (1992), diz o mesmo de outro jeito: não se julga uma decisão pelo resultado dela.

A ideia: O extrato mostra o que aconteceu. Não mostra se você decidiu bem. As duas coisas só se encontram depois de muitas decisões.

O mecanismo: três forças que confundem resultado com decisão

1. Uma decisão isolada carrega mais sorte que habilidade. O Ibovespa sobe em 52% dos dias, quase cara ou coroa. Numa operação de semanas ou meses, o acaso pesa tanto que o mesmo processo pode dar lucro ou prejuízo sem que nada tenha mudado na qualidade dele. A decisão é uma aposta com probabilidades. O resultado é um único sorteio dessa aposta.

2. A recompensa treina o comportamento, certo ou errado. O cérebro não tem um canal separado para "deu certo, mas pelo motivo errado". O dinheiro na conta valida tudo junto: a falta de ponto de saída, o tamanho grande demais, a dica do grupo. E o que é validado tende a ser repetido, maior.

3. A memória reescreve os motivos. Depois que o preço andou, fica difícil lembrar o que se sabia antes. Quem ganhou lembra que "estava claro". Quem perdeu lembra que "foi azar". Sem o motivo escrito no dia da decisão, a avaliação depois do resultado não tem com o que comparar.

Quantas decisões são precisas para o resultado dizer algo

A conta da probabilidade mostra o tamanho do problema. Imagine um investidor que tem vantagem real: em cada decisão, acerta 55% das vezes. E outro sem vantagem nenhuma, que acerta 45%.

Antes de continuar: Quem acerta 55% das vezes de verdade faz 20 decisões. Qual a chance de, só por acaso, ele acertar 50% ou menos nessa amostra e concluir que não tem vantagem?

a) Uns 5% · b) Uns 20% · c) Uns 41%

Resposta: Uns 41%. 40,9%. Com 20 decisões, quase metade das vezes o investidor com vantagem parece não ter nenhuma. Com 100 decisões, a chance cai para 18,3%.

Número de decisões Quem acerta 55%: chance de mostrar 50% ou menos Quem acerta 45%: chance de mostrar mais de 50%
10 49,6% 26,2%
20 40,9% 24,9%
30 35,5% 23,1%
100 18,3% —

A coluna da direita é a que engana. Em uma de cada quatro amostras de 20 decisões, quem não tem vantagem nenhuma parece ter. E é essa pessoa que vai aumentar o tamanho, convencida pelo placar.

As quatro caixas de Larry Hite

Larry Hite, gestor sistemático entrevistado no primeiro Os Magos do Mercado (1989), organizou o problema em quatro tipos de aposta.

Ganhou Perdeu
Decisão boa mérito custo do jogo
Decisão má sorte, e o perigo lição barata

O extrato mostra só a coluna. A linha depende do que você escreveu antes de entrar. Duas caixas mentem sobre o processo. A "boa que perde" faz abandonar uma regra que funciona (a aula 7 trata desse vale). Mas a mais perigosa é a outra: a má que ganha. Ela chega com dinheiro na conta e um sentimento de competência, e ninguém examina uma decisão que deu lucro.

O caso: small caps em 2020 e 2021

O SMAL11 é o ETF das small caps da B3, as empresas menores da bolsa. Imagine uma decisão simples, muito comum naquela época: "comprar small caps e segurar por um ano". Medimos o resultado dela para cada mês de compra, só pelo preço, 12 meses depois.

+3,2% a +70,4% comprando em qualquer mês de março a outubro de 2020 · −9,8% a −39,1% comprando em qualquer mês de novembro de 2020 a setembro de 2021

A decisão era a mesma. O que mudou foi o momento. Do fundo de março de 2020 ao topo de junho de 2021, o SMAL11 subiu 90,6% nos fechamentos mensais. Do topo ao fundo de junho de 2022, caiu 39,1%.

O pior é a sequência psicológica. Quem entrou em 2020 e ganhou tinha todos os motivos para concluir "eu sei fazer isso". O passo natural seguinte era aumentar o tamanho e continuar comprando em 2021, com a confiança que o primeiro placar deu. Uma decisão má que ganha costuma ser seguida pela mesma decisão, maior. O primeiro placar não era prova de nada. Mas era a única prova que a pessoa tinha.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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