Entrar
Os erros dos outros · Aula 5 de 7

Operar por dica: a convicção que não é sua

A dica pode até estar certa. O problema é que ela traz a entrada e deixa para trás o que diria quando sair. Na MGLU3, a premissa de dinheiro barato morreu em 2021; quem tinha só a história ficou até −94,7%.

por Vinícius Rosa10 min de leituraatualizada em trecho aberto
Operar por dica: a convicção que não é sua

Em 1 minuto

  • O problema da dica não é estar errada: é chegar com a entrada e sem a saída.
  • Quem formulou a tese sabe que premissa a mataria e quando mudou de ideia; quem recebeu a dica não sabe nenhuma das duas coisas.
  • Na MGLU3, a premissa do juro baixo morreu em 2021, meses antes do preço; quem tinha só a história foi até −94,7%.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Transformar uma dica numa tese sua, com premissas e condição de saída
  • Identificar a premissa mais frágil de uma tese e acompanhar só ela
  • Dimensionar uma ideia de terceiro enquanto ela ainda não é sua

A tese: o problema da dica não é ela estar errada

Uma dica pode estar certíssima e ainda assim custar caro. O erro não está na fonte. Está em comprar a entrada sem comprar a saída. Quem não construiu a razão de entrar não consegue perceber quando ela deixou de valer, e por isso fica na posição muito depois de o próprio autor da ideia ter saído.

Michael Marcus, o primeiro entrevistado de Os Magos do Mercado (Jack D. Schwager, 1989), conta que quebrou mais de uma vez no começo da carreira. Entre os motivos que ele mesmo aponta estão não definir o risco e operar as ideias dos outros. A lição que tirou foi confiar no próprio julgamento. Não por orgulho, mas por mecânica: quando a tese é de outra pessoa, a informação que a invalidaria também está com ela.

A ideia: Tese emprestada vem com porta de entrada e sem porta de saída. E é a saída que decide o resultado.

O mecanismo: três forças que tornam a dica cara

1. A dica chega desidratada. Toda tese séria tem premissas: receita crescendo a tal ritmo, margem acima de tanto, juro caindo. Quem a formulou sabe quais delas, se quebrarem, matam o caso. A versão que chega no grupo de mensagens tem três coisas: o nome do papel, uma história e, às vezes, um alvo de preço. Somem as premissas, o gatilho de saída, o tamanho que o próprio autor usou e o horizonte que ele tinha em mente.

2. O autor muda de ideia e não avisa. Mesmo quando a dica vem de alguém competente, a pessoa que a deu não tem nenhuma obrigação de contar quando sair. Ela pode ter reduzido a posição na semana seguinte. Pode ter tido um horizonte de três meses, enquanto você pensava em três anos. Você fica segurando uma convicção que, na origem, já não existe.

3. A dica costuma chegar tarde. Uma ideia nasce num relatório, passa por gestores, vira carteira recomendada, vira conteúdo de rede social e só então chega a quem não é do mercado. Quando o maior número de pessoas está contando a história, restam poucos compradores novos para levar o preço adiante. O módulo 3, na aula sobre manada, mostra por que o consenso chega depois do preço.

As três forças têm a mesma raiz: a responsabilidade pela decisão ficou com outra pessoa, mas o dinheiro ficou com você.

O que a dica traz e o que fica com quem a deu

Parte da tese Na dica Com quem formulou
Nome do papel e a história sim sim
As premissas e qual delas é a mais frágil não sim
O fato ou o preço que invalidaria a tese não sim
O tamanho que faz sentido para aquele risco não sim
O dia em que mudou de ideia não sim

A coluna do meio cabe numa mensagem. A da direita é a que decide quando sair. Quem compra só a do meio está comprando uma aposta no autor, não uma tese sobre a empresa.

O caso: MGLU3 e a premissa que morreu primeiro

A história da Magazine Luiza entre 2019 e 2020 era forte e pública: comércio eletrônico crescendo rápido, ganho de participação de mercado, a comparação com grandes varejistas digitais de fora. Por trás da história havia uma premissa que quase nunca aparecia na versão curta: a tese contava com dinheiro barato. Juro baixo barateia o crédito ao consumidor e o custo de financiar a expansão, e faz o mercado pagar mais caro hoje por lucros que só viriam lá na frente. A Selic estava em 2% ao ano, a mínima histórica.

Em 17/03/2021, o Copom subiu a Selic de 2% para 2,75% ao ano. Foi o primeiro de uma série de aumentos que levou a taxa a 13,75% ao ano em 03/08/2022.

Antes de continuar: A Selic acumulada no mês foi de 0,13% em fevereiro de 2021. Quanto foi em agosto de 2022?

a) Uns 0,30% · b) Uns 0,60% · c) Uns 1,17%: nove vezes mais

Resposta: Uns 1,17%: nove vezes mais. 1,17% no mês, contra 0,13% em fevereiro de 2021. O custo do dinheiro foi multiplicado por nove em um ano e meio, e a premissa central da tese morreu antes do preço.

O preço veio atrás. A régua mensal do Quantor (a média exponencial dos últimos 5 fechamentos mensais) virou baixa no fechamento de março de 2021, com o papel 19,9% abaixo do topo de janeiro. Quem tinha escrito "minha tese depende de juro baixo" tinha dois sinais no mesmo mês: a premissa e o preço. Quem tinha só a história ficou.

0,13% → 1,17% Selic do mês, de fevereiro de 2021 a agosto de 2022 · −19,9% distância do topo quando a régua virou, em março de 2021 · −94,7% o fundo, em outubro de 2023

Para voltar do fundo de outubro de 2023 ao topo de janeiro de 2021, o papel precisaria subir cerca de 1.787%. A empresa continuou operando, vendendo e publicando balanços. O que acabou foi a combinação de premissas que justificava aquele preço. Quem acompanhava as premissas percebeu. Quem acompanhava a história não tinha o que perceber.

Voltar à trilha Os erros dos outrosTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.