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Os erros dos outros · Aula 7 de 7

Atravessar o vale sem largar o método

No BOVA11 desde 2009, a régua com caixa na Selic rendeu mais que segurar o índice, com menos da metade da pior queda, e mesmo assim perdeu dele em 54% das janelas de 12 meses. Quem julga o método pelo ano que está vivendo troca de regra justamente no trecho ruim.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Atravessar o vale sem largar o método

Em 1 minuto

  • Todo método que rende acima da média tem trechos longos rendendo abaixo, e é nesses trechos que quase todo mundo desiste.
  • No BOVA11, a régua ganhou de segurar no período inteiro e perdeu em 54% das janelas de 12 meses; num método que acerta 32%, cinco erros seguidos aparecem em 68% das sequências de 20 entradas.
  • Quem escreve antes a pior queda esperada, o prazo e a condição de revisão atravessa o vale; quem decide no vale, troca de método no pior ponto.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Escrever o compromisso de um método em cinco linhas antes de começar
  • Diferenciar um vale normal de um método que de fato deixou de funcionar
  • Julgar um método pelo conjunto de papéis e pela pior queda, e não pelo ano corrente

A tese: o método é testado no vale, não no topo

Quase todo investidor acredita que está procurando a estratégia certa. Na verdade, está procurando a estratégia que nunca fica ruim, e essa não existe. Toda regra que rende acima da média tem, dentro dela, trechos longos rendendo abaixo. É justamente o desconforto desses trechos que impede todo mundo de copiar a regra até a vantagem sumir.

Richard Dennis, que nos anos 1980 treinou um grupo de iniciantes com regras fixas (os "Turtles", junto com William Eckhardt) e aparece no primeiro Os Magos do Mercado (Jack D. Schwager, 1989), costumava dizer, segundo o relato que ficou, que poderia publicar as suas regras no jornal e quase ninguém as seguiria. Não era vaidade. Era uma descrição do problema: qualquer um segue uma regra enquanto ela ganha. O teste vem quando ela passa meses, às vezes anos, perdendo ou andando de lado.

A ideia: A vantagem de um método não está na fórmula. Está em conseguir carregá-la no período em que ela está perdendo.

O mecanismo: três forças que fazem o vale parecer o fim

1. O histórico é apresentado como média; você vive em sequência. Uma curva de 17 anos parece uma rampa. Vivida mês a mês, ela tem trechos longos parados ou caindo, e cada mês desses é sentido inteiro, sem a média para amortecer.

2. Você começa num ponto aleatório. Ninguém escolhe começar no começo de um bom trecho. Se o primeiro ano cair num trecho ruim, ele parece a prova de que "no meu caso não funciona", quando é só o ponto do ciclo em que você entrou.

3. A próxima estratégia sempre parece melhor, porque você a conhece pelo topo. Ela apareceu no seu radar justamente por ter ido bem nos últimos meses. Trocar no fundo de uma e no topo da outra, três ou quatro vezes seguidas, produz uma carteira feita só dos piores trechos de várias regras boas.

O que significa na prática: as sequências de erro são normais

A régua mensal do Quantor (fica no papel enquanto o fechamento do mês está acima da média exponencial dos últimos 5 fechamentos mensais) acerta em torno de um terço das entradas. O resultado vem de os acertos valerem bem mais que os erros, como a aula 4 mostrou. A consequência é que sequências de erros seguidos não são sinal de defeito. São parte do desenho.

Antes de continuar: Um método acerta 32% das entradas. Em 20 entradas, qual a chance de aparecer pelo menos uma sequência de cinco erros seguidos, só por acaso?

a) Uns 10% · b) Uns 35% · c) Uns 68%

Resposta: Uns 68%. 68,2%. Nas primeiras 20 entradas da régua em 227 papéis da B3, cinco erros seguidos apareceram em cerca de dois terços dos casos, exatamente o que o acaso prevê.

Em 20 entradas, acertando 32% Chance de pelo menos uma sequência assim
3 erros seguidos 97,9%
5 erros seguidos 68,2%
6 erros seguidos 48,9%
8 erros seguidos 21,7%

Quem não conhece essa tabela interpreta a quinta perda seguida como prova de que o método quebrou, e desiste justamente antes do acerto que pagaria todos os erros. Uma em cada cinco pessoas vai viver oito erros seguidos em 20 entradas sem que nada esteja errado.

O caso: a régua no BOVA11 desde 2009

O BOVA11 é o ETF do Ibovespa: um fundo que copia o índice e reinveste os proventos. Comparamos duas formas de carregá-lo de maio de 2009 a agosto de 2026. Uma é segurar o tempo todo. A outra é seguir a régua mensal, com o dinheiro na Selic nos meses fora.

8,3% × 7,7% ao ano: régua com Selic contra segurar · −20% × −44% pior queda de cada um, do topo ao fundo · 54% das janelas de 12 meses em que a régua perdeu de segurar

A aula 1 do módulo 3 usou o último desses números. Aqui está o vale inteiro. No período inteiro, a régua fez o que promete: mais retorno e menos da metade do maior tombo. Mesmo destino, com uma viagem muito menos violenta.

Agora o outro lado. Em 54% das janelas de 12 meses, a régua perdeu para segurar. Em janelas de três anos, perdeu em 45%. E a vantagem acumulada sobre segurar atingiu o ponto mais alto em março de 2020 e, até agosto de 2026, não tinha voltado a ele: mais de seis anos sem renovar o recorde. Quem começou a seguir a régua em qualquer um desses trechos viveu meses ou anos de "está perdendo do índice". A tentação de trocar de método nessa hora é enorme, e é aí que ele cobra o preço de quem sai.

O vale do próprio índice

O vale não é exclusividade de regras. O Ibovespa levou de maio de 2008 a setembro de 2017 para voltar ao topo, mais de nove anos. Quem aplicou R$ 100 no topo de 2008 viu o dinheiro chegar a R$ 40 no caminho. Depois do topo de junho de 2021, o fundo foi de R$ 74 para cada R$ 100, e a volta só veio em dezembro de 2023, dois anos e meio depois. Comprar e segurar também tem vale, e também exige um compromisso para ser atravessado.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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