O preço-teto de 6% de Bazin: bateu tudo até 2020, e depois?
Rodada de 2006 a 2026 com as empresas que saíram da bolsa, a regra mais repetida do investidor de renda brasileiro rendeu 14,8% ao ano contra 10,2% do CDI. De 2020 em diante, rendeu 6,0%, quatro pontos abaixo dele.

Em 1 minuto
- O preço-teto de Bazin compra só quando os proventos de 12 meses rendem 6% do preço: proventos ÷ 0,06.
- Testada na B3 de 2006 a 2026 com as empresas que saíram da bolsa, a regra rendeu 14,8% ao ano, contra 10,2% do CDI, mas de 2020 em diante rendeu 6,0%.
- Em setembro de 2026 o teto estava enganado de outro jeito: as antecipações de dezembro de 2025 inflavam o yield de quase dois terços das ações que passavam.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular o preço-teto de Bazin e tirar dele os pagamentos extraordinários
- Ler um teste de método por bloco de anos, não só pelo total
- Usar o yield como filtro de onde procurar, não como gatilho de compra
A tese: a regra funcionou, e é por isso que ela engana
Pergunte a dez investidores de renda como decidem o preço de compra e pelo menos um vai responder "preço-teto de Bazin". A regra cabe num guardanapo e tem uma vantagem rara: num teste honesto de 20 anos na B3, ela bateu o CDI, o Ibovespa e o índice de dividendos. O problema é o que o total esconde. A vantagem se concentrou nos primeiros anos e sumiu nos últimos seis, e o yield que alimenta a regra em 2026 está inflado por pagamentos que não voltam.
A ideia: Um método que funcionou em 20 anos e parou nos últimos seis não é um método provado. É uma pergunta em aberto.
A regra, como Bazin escreveu
Décio Bazin foi um jornalista e investidor brasileiro que publicou Faça Fortuna com Ações, Antes que Seja Tarde em 1992, numa bolsa muito menor e mais arriscada que a de hoje. Em essência, defendia comprar empresas que pagam dividendos de forma constante, com pouca dívida, mas só quando o preço garante um rendimento alto, e vender quando o preço sobe a ponto de o rendimento cair abaixo do piso.
A conta é uma linha: preço-teto = proventos dos últimos 12 meses ÷ 0,06. Se a ação está abaixo do teto, o yield é de 6% ou mais. Acima, está cara para a regra.
O mecanismo: por que um piso de yield funciona (e por que para)
1. O piso compra o que está fora de moda. Yield alto quase sempre é preço deprimido. Empresas grandes e pagadoras, quando caem por um motivo passageiro, voltam, e o yield paga a espera.
2. O piso também compra o que está quebrando. O mesmo yield alto aparece quando o preço cai antes de um corte que o mercado já enxerga. A regra não distingue os dois casos; é o módulo 2 que ensina a separar.
3. O mercado aprende. Uma regra que cabe num guardanapo é copiada. Quando muita gente compra pelo mesmo critério, o desconto que ela explorava encolhe. Não é prova de que foi isso que aconteceu depois de 2020, mas é uma explicação possível para a vantagem que diminui a cada bloco.
O teste: 2006 a 2026, com as empresas que saíram da bolsa
Nos testes do Quantor (setembro de 2026), todo fim de mês, de janeiro de 2006 a setembro de 2026, a regra pegou as ações que negociavam pelo menos R$ 5 milhões por dia, inclusive as que depois quebraram, fecharam o capital ou foram compradas, ficou com as de yield de 6% ou mais (só proventos em dinheiro) e comprou as 10 de maior yield, com pesos iguais. Custo de 0,1% por ordem, proventos reinvestidos. Também rodou a regra com a trava do Ibovespa: quando o índice fecha o mês abaixo da sua média exponencial de 5 meses (a régua), a carteira vai para o CDI até ele voltar.
Os números de comparação (CDI, Ibovespa, IDIV) abaixo são os do próprio teste, que anda mês a mês; por isso diferem por décimos dos da aula 1.
R$ 17.383 R$ 1.000 no preço-teto, de 2006 a set/2026 (14,8% ao ano) · R$ 7.505 no CDI (10,2% ao ano) · R$ 5.499 no Ibovespa (8,6% ao ano) · −51% pior queda da regra no caminho
A regra bateu também o IDIV (13,1% ao ano) e um sorteio de 10 ações ao acaso (5,4%). Com a trava, o retorno ficou quase igual (14,4%) e a pior queda caiu de 51% para 18%. Agora o mesmo resultado em pedaços.
Antes de continuar: A regra rendeu 25,5% ao ano de 2006 a 2012 e 13,3% de 2013 a 2019. Quanto rendeu de 2020 a 2026, quando o CDI fez cerca de 10%?
a) Uns 15%, de novo acima do CDI · b) Uns 10%, empatada com o CDI · c) Uns 6%, quatro pontos abaixo do CDI
Resposta: Uns 6%, quatro pontos abaixo do CDI. 6,0% ao ano. Com a trava, 5,3%. Cada bloco rendeu cerca de metade do anterior, e o último perdeu para a renda fixa.
| Bloco | Preço-teto de Bazin |
|---|---|
| 2006–2012 | 25,5% ao ano |
| 2013–2019 | 13,3% ao ano |
| 2020–2026 | 6,0% ao ano (com a trava, 5,3%) |
É por isso que o Bazin não passa no critério completo dos testes do Quantor, que exige bater o CDI por pelo menos 2 pontos em cada bloco, não só na soma. E há mais dois avisos. Descontando os mais de mil testes já feitos na mesma base (quando se testam muitas ideias, alguma parece ótima por acaso; a correção se chama Deflated Sharpe), o resultado não se separa da sorte. E na prova cega, o período de 2017 a 2026 guardado para conferir a regra, ela rendeu cerca de 13% ao ano: acima do CDI do período (9,1%), praticamente empatada com o Ibovespa (12,1%).
Um ano para lembrar, e as versões do livro
Em 2015, as 10 da regra caíram 29%, com o CDI pagando 13%. Muitas estavam no topo da lista porque o preço tinha desabado antes do corte do provento: é a força 2. Quem desistiu no fim daquele ano perdeu 2016, quando a mesma regra subiu 81,5%.
Das variações testadas, exigir 5 anos seguidos pagando foi a que mais ajudou: 16,7% ao ano. Revisar uma vez por ano rendeu parecido (14,2%), mas não se confirmou na prova cega. Exigir dívida baixa, que só dá para testar desde 2011, não acrescentou nada.
O viés de sobrevivência pesa. Testado só com as empresas ainda listadas, o Bazin com trava rendia 14,2% ao ano; com a base completa, 12,8%. Das 173 ações que a regra comprou em algum momento desde 2006, 47 já não são negociadas: 18 foram incorporadas por outra empresa, 17 saíram numa oferta pública de aquisição (OPA) e as demais por outros motivos. Um teste com a lista de hoje não enxerga nenhuma delas.
Voltar à trilha As regras de renda famosas, testadasTodas as trilhas
Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.