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As regras de renda famosas, testadas · Aula 3 de 4

Dogs do Ibovespa: a carteira de janeiro

As 10 maiores pagadoras do Ibovespa, compradas em janeiro e esquecidas até o ano seguinte, bateram o índice em 20 anos. Perderam do índice de dividendos, que era a régua certa, e renderam menos a cada bloco de sete anos.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Dogs do Ibovespa: a carteira de janeiro

Em 1 minuto

  • Os Dogs compram em janeiro as 10 ações de maior yield do índice e seguram o ano todo: a regra de renda mais simples que existe.
  • Na B3, de 2006 a 2026, renderam 11,1% ao ano: bateram o Ibovespa, mal passaram o CDI e perderam do IDIV, o índice de dividendos.
  • Funcionaram em 2008, falharam em 2014 e 2015, e renderam menos a cada bloco de sete anos.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Montar os Dogs de um ano no papel
  • Escolher a régua certa para comparar uma estratégia de renda
  • Desconfiar do yield alto mesmo em empresa grande

A tese: bater o Ibovespa é fácil demais para quem compra dividendo

Toda estratégia de renda anunciada como vencedora costuma ser comparada com o Ibovespa. É a régua errada. Uma carteira de pagadoras deve ser comparada com o que o investidor de renda teria sem esforço: o CDI, se não quer bolsa, e o IDIV, o índice de dividendos da B3, se quer. Os Dogs do Ibovespa são o melhor exemplo de por que isso importa. Bateram o índice com folga em 20 anos e, mesmo assim, deixaram dinheiro na mesa para quem tivesse comprado o índice de dividendos e ido dormir.

A ideia: Uma estratégia de dividendos que não bate o índice de dividendos não está acrescentando nada além do trabalho.

A estratégia de uma tarde por ano

Em 1991, o gestor americano Michael O'Higgins publicou Beating the Dow com uma ideia que qualquer pessoa executa numa tarde. No primeiro dia útil do ano, pegue as 30 ações do Dow Jones, o índice das gigantes americanas, e compre as 10 de maior dividend yield. Segure até o ano seguinte e repita. Ele as chamou de Dogs of the Dow, os "cachorros" do índice: ações grandes e conhecidas, fora de moda, que por isso pagavam muito em relação ao preço. Propôs também os Small Dogs: entre as 10, as 5 de menor preço por ação.

No Brasil, a tradução natural troca o Dow pelo Ibovespa.

O mecanismo: três forças por trás dos Dogs

1. Empresa grande raramente quebra. No universo do índice, yield alto costuma ser preço deprimido de uma empresa que vai continuar existindo, e não uma empresa terminal. É a aposta central.

2. O dividendo paga a espera. Enquanto o preço não volta, o provento entra. Quanto maior o yield de entrada, mais a espera é paga, se o provento se mantiver.

3. Um ano inteiro sem olhar. A regra decide em janeiro e não muda até o ano seguinte. Isso elimina o giro e o impulso de vender na queda. Mas também elimina qualquer reação quando o provento é cortado em março: a carteira carrega o erro por mais nove meses.

O teste: 21 janeiros, com quem estava no índice em cada um

Nos testes do Quantor (setembro de 2026), todo janeiro, de 2006 a 2026, a regra pegou as ações que faziam parte do Ibovespa naquele momento e comprou as 10 de maior yield de 12 meses, só com proventos em dinheiro, com pesos iguais, até o janeiro seguinte. Nos Small Dogs, as 5 de menor preço entre essas 10. As duas, sem e com a trava do Ibovespa (CDI quando o índice fecha o mês abaixo da sua média exponencial de 5 meses).

Saber quem estava no Ibovespa em cada janeiro é a parte difícil. A composição oficial estava disponível em 8 dos 21 anos; nos outros 13, a carteira foi reconstruída pela própria regra do índice, com a base completa. E das 77 ações diferentes que os Dogs compraram desde 2006, 22 já não são negociadas: 9 foram incorporadas por outra empresa e 6 fecharam o capital em ofertas de compra. Um teste feito com a lista de hoje do Ibovespa não veria nenhuma delas.

Como na aula 2, os números de CDI, Ibovespa e IDIV são os do próprio teste, mês a mês.

Antes de continuar: De 2006 a 2026, os Dogs do Ibovespa renderam 11,1% ao ano e bateram o Ibovespa (8,6%). E contra o IDIV, o índice de dividendos da B3?

a) Bateram o IDIV por uns 2 pontos · b) Empataram · c) Perderam por uns 2 pontos

Resposta: Perderam por uns 2 pontos. Perderam: o IDIV fez 13,1% ao ano. R$ 1.000 viraram R$ 8.956 nos Dogs e R$ 12.799 no IDIV.

R$ 12.799 R$ 1.000 no IDIV, de 2006 a set/2026 (13,1% ao ano) · R$ 8.956 nos Dogs do Ibovespa (11,1% ao ano) · R$ 7.505 no CDI (10,2% ao ano) · R$ 5.499 no Ibovespa (8,6% ao ano)

A pior queda dos Dogs foi de −50%. Com a trava, o retorno subiu para 11,8% ao ano e a queda caiu para −18%. Passaram o CDI por menos de 1 ponto ao ano: pouco prêmio para quem aceitou metade do patrimônio em risco.

A trajetória: cada bloco rendeu menos

Bloco Dogs Small Dogs
2006–2012 18,8% ao ano —
2013–2019 10,8% ao ano —
2020–2026 4,0% ao ano −1,5% ao ano

O último bloco dos Dogs ficou cerca de 6 pontos por ano abaixo do CDI. Os Small Dogs foram piores: perderam dinheiro de 2020 a 2026 e caíram 60% no pior momento do período todo. Concentrar em 5 ações de preço baixo por ação não acrescentou nada, porque preço baixo por ação não diz nada sobre ser barata: é só o valor da empresa dividido por um número de ações que o conselho escolheu.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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