Entrar
O que 10 anos de FIIs mostram · Aula 2 de 5

DY alto em FII: o rendimento que é o seu dinheiro voltando

A carteira dos 10 FIIs de maior dividend yield mostrava 13,7% na tela e entregou 5,6% ao ano depois do imposto. Quem compra o topo do ranking compra, quase sempre, o fundo que o mercado já está vendendo.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
DY alto em FII: o rendimento que é o seu dinheiro voltando

Em 1 minuto

  • O dividend yield é o que o fundo pagou em 12 meses dividido pelo preço de hoje: quando a cota derrete, ele sobe sozinho.
  • Os 10 FIIs de maior DY mostravam 13,7% na tela e entregaram 5,6% ao ano depois do imposto, de 2017 a 2026, abaixo do CDI líquido de 8,2%.
  • No quinto de maior DY, 14,4% cortaram o rendimento em 30% ou mais no ano seguinte, quatro vezes mais que o resto.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Recalcular o yield sobre o preço de um ano atrás e ver o que ele esconde
  • Separar rendimento recorrente de capital voltando
  • Usar a régua do IPCA mais 10 pontos para saber quando o yield pede explicação

A tese: em FII, o yield mais alto da tela costuma ser o preço que já caiu

Abra uma lista de FIIs e ordene pelo dividend yield. No topo aparecem fundos pagando 14%, 20%, 30% ao ano, isentos de imposto, com o CDI bem abaixo disso. A conclusão parece óbvia. É a regra mais popular do mercado de fundos imobiliários, e nos testes com dez anos de dados ela foi uma das piores.

O motivo está na própria conta. Dividend yield (DY) é o que o fundo pagou nos últimos 12 meses dividido pelo preço de hoje. Se a cota despencou e o pagamento ainda não acompanhou, o DY sobe sem que o fundo pague um centavo a mais. O módulo 1 mostrou isso nas ações. Em FII, há um segundo truque por cima: parte do que se chama "rendimento" pode ser o seu próprio capital voltando.

A ideia: Fundo imobiliário não distribui lucro, distribui caixa. E caixa também vem do dinheiro que o fundo recupera de um investimento que deu errado.

O mecanismo: três forças que inflam o yield

1. O numerador olha para trás, o denominador é de hoje. Um fundo que pagou R$ 12 por cota no último ano e custa R$ 100 tem DY de 12%. Se a cota cai para R$ 60 antes de o pagamento cair, o DY vai a 20%. O topo do ranking mistura o fundo que paga muito com o fundo que está caindo porque o mercado desconfia dele, e na tela os dois parecem iguais.

2. O preço cai antes do rendimento. Quando os créditos ou os imóveis de um fundo começam a dar problema, o mercado vende a cota meses antes de o fundo cortar a distribuição. O fundo de papel recebe juros de um CRI (o título de dívida imobiliária) até o dia em que o devedor para de pagar. O fundo de tijolo recebe aluguel até o inquilino sair. Nesse intervalo, o DY sobe justamente porque o preço caiu.

3. Nem todo caixa se repete. Um FII pode distribuir dinheiro de quatro fontes: aluguel ou juros recorrentes, um evento único (a venda de um imóvel com lucro, a multa de um inquilino que rescindiu), a renda mínima garantida que o vendedor do imóvel paga por um prazo em fundos novos, e a devolução de capital, quando o fundo recebe de volta o principal de um CRI e repassa. O extrato chama tudo de "rendimento". Só o primeiro tipo se repete.

O caso CACR11: 68% na tela

O CACR11 é um fundo de papel, com carteira de CRIs. Em 23/09/2026, a tela mostrava para ele um DY de 68% e um P/VP de 0,17: a cota valia 17% do patrimônio declarado.

Antes de continuar: O CACR11 pagou R$ 10,35 por cota nos 12 meses até setembro de 2026 e mostrava 68% de yield. Quem tinha comprado a cota um ano antes ganhou ou perdeu, somando cota e rendimentos?

a) Ganhou uns 68%: é o yield · b) Ganhou uns 14%, o yield sobre o preço que pagou · c) Perdeu cerca de dois terços

Resposta: Perdeu cerca de dois terços. A cota foi de R$ 73,26 para R$ 15,22 no mesmo ano. Somando os R$ 10,35 recebidos, quem comprou um ano antes tinha R$ 25,57 para cada R$ 73,26: −65,1%.

A conta inteira cabe em três linhas. Sobre o preço de hoje, 10,35 ÷ 15,22 = 68%. Sobre o preço de um ano antes, 10,35 ÷ 73,26 = 14,1%. E a cota caiu R$ 58,04, ou 79%, no mesmo período. Quem olhou só o extrato viu R$ 10,35 entrando, isentos. Quem olhou a carteira viu R$ 58,04 saindo. O yield de 68% não é o que alguém recebeu: é um pagamento passado dividido por uma cota que já derreteu.

68% o yield do CACR11 na tela em 23/09/2026 · 14,1% o mesmo pagamento sobre o preço de um ano antes · −65,1% o retorno total de quem comprou um ano antes

O CACR11 não é exceção. Entre os 93 FIIs ativos no Quantor em setembro de 2026, os 10 com yield acima de 20% tinham P/VP mediano de 0,31. Os 63 com yield de até 15% tinham P/VP mediano de 0,85. Yield altíssimo e cota destruída andam juntos porque são o mesmo fato contado duas vezes. Exemplo histórico, não recomendação.

O teste: comprar o topo do ranking, todo mês

Nos testes do Quantor, de janeiro de 2017 a setembro de 2026, a regra foi comprar todo mês os 10 FIIs líquidos de maior DY, com a mesma quantia em cada, contando rendimentos reinvestidos, custo de 0,1% por ordem e 20% de imposto sobre o ganho na venda.

Os 10 maiores DY, jan/2017 a set/2026 Resultado
DY médio da carteira (o que a tela prometia) 13,7%
Retorno total ao ano 6,2%
Depois do imposto 5,6%
CDI depois do imposto 8,2%
Pior queda −25%
2017–2021 / 2022–set/2026 12,3% / −1,1% ao ano

Onde foram parar os 13,7%? No preço. A cota caiu mais do que o rendimento pagou. Com 20 fundos ficou um pouco melhor (6,4% depois do IR), e revisar a cada trimestre ou semestre foi pior. Nenhuma versão chegou ao CDI líquido.

O que acontece no ano seguinte, por faixa de DY

Para ver o mecanismo sem a carteira no meio, separamos todos os FIIs líquidos (volume acima de R$ 1 milhão por dia) em cinco grupos iguais pelo DY, todo mês de janeiro de 2018 a setembro de 2025, e medimos os 12 meses seguintes de cada um. Foram 5.045 observações, contando os fundos que saíram da bolsa pelo valor que o cotista recebeu.

Antes de continuar: Entre os FIIs líquidos, o quinto de MENOR DY tinha yield mediano de 7,1%; o de MAIOR, 14,4%. Qual dos dois teve o maior retorno total mediano nos 12 meses seguintes?

a) O de maior DY, com folga: pagava o dobro · b) Empataram · c) O de menor DY

Resposta: O de menor DY. O de menor DY: 8,2% contra 3,7%. O preço do quinto de maior DY caiu 9,1% na mediana em 12 meses, e 14,4% deles cortaram o rendimento em 30% ou mais.

Faixa de DY DY na compra (mediana) Retorno total em 12 meses Variação do preço Cortou o rendimento em 30% ou mais Perdeu mais de 20%
1º quinto (menor) 7,1% 8,2% −1,0% 2,3% 2,5%
2º quinto 8,8% 6,4% −2,9% 3,6% 4,8%
3º quinto 10,5% 7,0% −4,0% 3,7% 4,0%
4º quinto 12,2% 6,9% −5,3% 3,0% 2,7%
5º quinto (maior) 14,4% 3,7% −9,1% 14,4% 11,0%

FIIs da B3 com volume médio acima de R$ 1 milhão por dia e 12 meses de rendimentos, jan/2018 a set/2025, 12 meses à frente; medianas. O CDI de 12 meses mediano nas mesmas datas foi de 10,9%. Base própria do Quantor, sem viés de sobrevivência.

Os quatro primeiros quintos se parecem: mais DY vinha com um pouco mais de queda de preço, e o retorno total ficava na mesma faixa. O último quinto é outro bicho. O corte de rendimento salta de cerca de 3% para 14,4%, e a chance de perder mais de 20% em um ano, de cerca de 4% para 11%. Os testes da carteira chegaram ao mesmo lugar por outro caminho: das 1.022 posições que a regra dos 10 maiores DY comprou de 2017 a 2025, 15,7% cortaram o rendimento em 30% ou mais no ano seguinte, contra 5,3% dos demais FIIs líquidos.

Cuidado: O DY alto não prevê renda alta. No topo do ranking, ele prevê o corte.

Voltar à trilha O que 10 anos de FIIs mostramTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.