Osciladores: sobrevendido não é motivo de compra
RSI, estocástico, CCI, MACD e Bollinger foram testados sozinhos em 437 ações da B3. Nenhum bateu o CDI na maioria delas, o estocástico clássico rendeu +1,9% ao ano, e os que chegaram perto foram os que quase não operam.

Em 1 minuto
- Um oscilador reorganiza o preço dos últimos dias num número que sobe e desce dentro de uma faixa; três osciladores concordando são a mesma testemunha contada três vezes.
- Em 437 ações da B3 desde 2006, nenhuma das dez regras bateu o CDI na maioria das ações; o estocástico lento rendeu +1,9% ao ano e o melhor, o RSI de 2 de Connors, +10,4%, colado no CDI de +10,5%.
- O que melhora todos é o filtro de tendência, e ele melhora porque tira você do mercado nas quedas, não porque o oscilador passa a acertar.
Ao fim desta aula você vai saber
- Explicar o que RSI, estocástico, CCI, MACD e Bollinger medem, em uma frase cada
- Reconhecer quando dois indicadores são o mesmo sinal com outro nome
- Comparar uma regra que fica quase sempre fora com o CDI, e não com segurar a ação
A tese: sobrevendido quer dizer que caiu, não que vai subir
O RSI da ação marca 25. O comentarista diz que ela está sobrevendida: caiu tanto que a volta é questão de tempo. Na semana seguinte, o estocástico "cruza para cima" e o MACD "vira". Três indicadores concordando parecem três testemunhas diferentes do mesmo fato.
Só que os três são feitos da mesma matéria-prima: o preço dos últimos dias. Eles não trazem informação nova; reorganizam a que já está no gráfico. A pergunta desta aula é se essa reorganização prevê alguma coisa, e a resposta, em 437 ações e 20 anos, é que ela prevê menos que a renda fixa.
O mecanismo: três forças que enganam quem usa oscilador
1. A mesma informação, contada várias vezes. RSI, estocástico e MACD usam os mesmos fechamentos recentes. Quando concordam, é porque olham para o mesmo dado. A confiança sobe; a informação, não.
2. "Exagero" só é exagero se o preço voltar. O oscilador mede quanto o movimento recente foi forte. Numa ação em queda livre, "sobrevendido" vira "mais vendido ainda": a força da queda é justamente o sinal de que ela continua. O módulo 3 mostra o que acontece com quem compra as que mais caíram: R$ 1.000 em 2006 viraram cerca de R$ 40.
3. Quem quase não opera parece acertar. Uma regra que fica comprada poucos dias por ano passa o resto do tempo no CDI. Se o CDI é alto, ela parece boa, sem que o oscilador tenha feito nada. É o efeito que mais engana nos backtests brasileiros.
Os osciladores, em uma frase cada
RSI (ou IFR), Índice de Força Relativa: vai de 0 a 100 e compara o tamanho das altas com o das quedas recentes. Abaixo de 30, "sobrevendido"; acima de 70, "sobrecomprado". O de 2 períodos olha só os dois últimos dias e fica extremo com facilidade.
Estocástico: mostra onde o fechamento está dentro da faixa entre a mínima e a máxima dos últimos 14 dias.
CCI: mede quanto o preço se afastou da própria média, em unidades do afastamento típico. Abaixo de −100, "exagero para baixo".
MACD: a diferença entre duas médias exponenciais, de 12 e de 26 dias (exponencial é a média que dá mais peso aos dias recentes). Quando cruza o zero, a média curta passou a longa.
Bandas de Bollinger: média de 20 dias com uma faixa de dois desvios para cada lado. Fechar abaixo da faixa de baixo é "exagero".
O teste: cada regra sozinha, em cada ação
Cada regra foi aplicada sozinha em cada uma das 437 ações líquidas desde 2006, com as que saíram da bolsa. Sinal no fechamento, ordem na abertura seguinte, custo de 0,1% por ordem, e o dinheiro no CDI enquanto a regra está fora. Só entra com a ação líquida naquele mês. A média entre as ações responde à pergunta de quem usa o oscilador: se eu aplicar isso numa ação qualquer, o que esperar?
Antes de continuar: O estocástico lento, um dos osciladores mais ensinados, aplicado sozinho em 437 ações da B3 desde 2006 com o dinheiro no CDI fora da posição. Quanto rendeu ao ano, na média, contra +10,5% do CDI?
a) Cerca de +14% · b) Cerca de +10% · c) Cerca de +6% · d) Cerca de +2%
Resposta: Cerca de +2%. +1,9% ao ano. Junto com o RSI de 14 nas faixas 30/70 (+4,3%) e o CCI (+4,4%), os clássicos de livro ficaram no fim da lista, muito abaixo da renda fixa.
O resultado: nenhum chega ao CDI

Retorno médio ao ano de cada regra e, à direita, em quantas das 437 ações ela bateu o CDI. Teste do Quantor, 2006–2026, custo de 0,1% por ordem.
O melhor foi o RSI de 2 abaixo de 5 com a média de 200 dias, a versão de Larry Connors: +10,4% ao ano, colado no CDI de +10,5%, batendo a renda fixa em 204 das 437 ações. Depois vêm o MACD cruzando o zero (+9,8%) e o RSI de 14 abaixo de 20 (+9,2%), que quase nunca dispara: 0,1 operação por ano por ação.
No fim da lista estão os clássicos: RSI de 14 com as faixas 30/70 (+4,3%), CCI (+4,4%) e o estocástico lento. Nenhum oscilador bateu o CDI na maioria das ações.
Os que chegam perto têm uma coisa em comum: passam quase o tempo todo fora. O RSI de 2 de Connors fica comprado 4% do tempo, cerca de 10 pregões num ano de 252. Não é que ele acerte muito; é que ele quase não joga, e o CDI faz o resto.
A ideia: Uma regra que fica fora 96% do tempo tem de ser comparada com a renda fixa, não com segurar a ação. Contra o CDI, nenhum oscilador ganhou.
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