Gaps: o de alta devolve, o de baixa repica e está sumindo
De 596 sinais testados na B3, só um passou na prova cega: comprar o gap de baixa na abertura. Ele dependia do primeiro preço do dia, rendia quase tudo em 2006–2012 e fica abaixo do CDI desde 2021.

Em 1 minuto
- Gap é o buraco entre o fechamento de um dia e a abertura do outro; os dois ditados sobre ele (continua e se fecha) não podem estar certos ao mesmo tempo.
- Nos testes em 437 ações da B3, o gap de alta devolveu 0,55 ponto a mais que um dia qualquer, e o gap de baixa repicou 0,93 ponto: foi o único dos 596 sinais confirmado na prova cega.
- Mesmo esse dependia do primeiro preço do dia, some se a compra for no fechamento e fica abaixo do CDI desde 2021.
Ao fim desta aula você vai saber
- Ler um gap sem tratá-lo como força ou como promessa de volta
- Explicar o que é uma prova cega e por que ela derruba quase todo sinal
- Conferir se um backtest de abertura sobrevive ao custo real e a um preço esquisito
A tese: o melhor sinal do gráfico é pequeno, frágil e está acabando
A ação fechou a R$ 20 ontem e hoje abre a R$ 20,60, sem negociar nenhum preço no meio. É um gap de alta, um buraco entre o fechamento de um dia e a abertura do outro. A leitura clássica diz que é força: tem gente com pressa de comprar, e o movimento continua. O ditado do outro lado diz que "todo gap se fecha", que o preço volta para cobrir o buraco.
As duas frases são ditas com a mesma certeza e não podem estar certas ao mesmo tempo. Os dados não confirmam nenhuma delas do jeito que são ditas. E escondem uma surpresa: o único sinal de toda a pesquisa que passou na prova mais dura é um gap, e mesmo ele não serve para quase ninguém.
O mecanismo: três forças que movem o preço no buraco
1. A noite traz notícia, e o preço da abertura a absorve de uma vez. Balanço, dado dos Estados Unidos, decisão de governo: tudo o que chega com a bolsa fechada vira um salto na abertura. O módulo 4 mostra que é na noite que mora quase todo o ganho do índice. O gap é a forma visível desse risco.
2. O primeiro preço do dia é o mais frágil. Na abertura, poucas ordens definem o preço. Numa ação menos negociada, um único negócio pequeno pode fazer a cotação. O exagero da abertura tende a ser corrigido nas horas seguintes, para os dois lados.
3. Quem tem pressa paga, e quem tem paciência recebe. No gap de baixa, quem vende na abertura aceita qualquer preço para sair. Quem compra dele recebe um desconto por fornecer liquidez num momento de pânico. É uma explicação econômica plausível, e por isso mesmo o desconto foi sendo disputado.
O teste: abertura, prova cega e um dia qualquer
Nas mesmas 437 ações líquidas da B3 desde 2006, com as que saíram da bolsa, foram testados gaps de alta de mais de 2% e de mais de 5%, o gap que abre acima da máxima do dia anterior, gaps de baixa de mais de 2% e de mais de 5%, e o gap fill: comprar no gap de baixa e vender quando o preço volta ao fechamento anterior.
A compra é na abertura do próprio dia do gap, o primeiro preço possível. A venda, na abertura 1, 5 ou 10 pregões depois. A referência é um pregão qualquer das mesmas ações, que rendeu +0,05% de uma abertura para a seguinte. Nos testes de carteira, 0,1% de custo por ordem.
E houve a prova cega. Tudo foi decidido com os dados de 2006 a 2016. Só o que passou ali foi medido em 2017–2026, sem mudar nada. É o teste que separa a regra que funcionava da regra que só se encaixava no passado.
O gap de alta não continua: devolve
O gap de alta de mais de 2% rendeu 0,55 ponto a menos que um dia qualquer no pregão seguinte, em 28.839 casos, com a faixa de confiança inteira abaixo de zero. Aplicado papel a papel, virou +4,9% ao ano, batendo o CDI em só 47 das 437 ações. O gap acima da máxima anterior, com 78 mil casos, também ficou abaixo do acaso.
A ideia: O salto de um dia não é força, é exagero. A força que os dados sustentam é a de meses, e ela mora em outro lugar do gráfico.
O módulo 3 volta a esse ponto com a máxima de 52 semanas: o topo de um ano de alta é onde as ações fortes moram, mas a alta de 10% num único pregão rende menos que um dia qualquer nas semanas seguintes. Quem diz "subiu demais, vai corrigir" está certo sobre o salto e errado sobre a tendência.
O gap de baixa repica: o único sobrevivente
Antes de continuar: De 596 sinais técnicos testados em 437 ações da B3, quantos foram confirmados na prova cega de 2017–2026, decidida só com os dados de 2006–2016?
a) Uns 60: cerca de 10% dos sinais · b) Uns 20 · c) Uns 5, todos da mesma família · d) Nenhum
Resposta: Uns 5, todos da mesma família. 55 passaram na primeira metade. Na prova cega, só 5, e todos eram variações do mesmo sinal: comprar o gap de baixa na abertura. Nenhum passou no teste que desconta a sorte de ter testado tanta coisa.
Comprar na abertura de um gap de baixa de mais de 2% e vender na abertura seguinte rendeu +0,93 ponto acima de um dia qualquer, em 22.813 casos. Tirando os casos extremos, +0,63 ponto. Papel a papel, +11,4% ao ano, com pior queda média de só −20%, e a regra bateu o CDI em 253 das 437 ações.
−0,55 ponto gap de alta de mais de 2%, no pregão seguinte, contra um dia qualquer (28.839 casos) · +0,93 ponto gap de baixa de mais de 2%, comprado na abertura (22.813 casos) · 1 de 596 sinais confirmados na prova cega, contando as variações do gap de baixa como um só
Parece a descoberta da pesquisa. Não é, por três motivos.
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