Candles e figuras: 92 mil sinais, nenhum bate um pregão qualquer
Martelo, engolfo, doji e estrela da manhã foram contados em 437 ações da B3 desde 2006, inclusive as que saíram da bolsa. O martelo rendeu menos que comprar num dia sorteado, e a figura que acerta na apostila é a que foi escolhida depois.

Em 1 minuto
- Um padrão de candle é nomeado olhando para trás e cobrado como se fosse previsão: só um teste com todos os casos diz se ele prevê algo.
- Em cerca de 92 mil sinais de nove candles de alta, em 437 ações da B3 de 2006 a 2026, sete ficaram abaixo de um pregão qualquer; o martelo rendeu −0,22% em 5 pregões contra +0,20% de um dia sorteado.
- O candle não diz para onde o preço vai; serve, no máximo, para marcar onde você admite que errou.
Ao fim desta aula você vai saber
- Transformar um padrão gráfico numa regra testável, com o denominador
- Comparar qualquer sinal com o retorno de um dia qualquer, depois do custo
- Usar a mínima de um candle como ponto de erro, e não como promessa de alta
A tese: o desenho acerta na apostila porque foi escolhido depois
A ação caiu a semana inteira. No gráfico diário aparece um candle de corpo pequeno lá no alto e uma sombra comprida para baixo. A apostila chama de martelo e conta a história: os vendedores tentaram derrubar, os compradores devolveram, o fundo chegou. A seta aponta o lugar certo e a ação dispara logo depois.
O que a apostila não mostra são as outras dez mil vezes em que o mesmo desenho apareceu. Esta aula conta todas.
A ideia: Todo padrão gráfico é nomeado olhando para trás e cobrado como se fosse previsão. Sem o denominador, não existe taxa de acerto, existe memória.
O ombro-cabeça-ombro só existe depois do segundo ombro. O triângulo só é triângulo depois que rompe. O martelo só "funcionou" se o dia seguinte subiu. A única forma de saber se o desenho diz algo é escrevê-lo como regra antes e aplicar a regra a todos os casos, sem escolher.
O mecanismo: três forças que fazem o desenho parecer funcionar
1. Você só vê os casos que deram certo. Todo livro mostra o gráfico em que a figura acertou. Ninguém publica os quarenta martelos que não seguraram nada. A memória faz o mesmo com a sua própria experiência: o martelo que virou fundo fica guardado; os que viraram pausa numa queda somem.
2. A definição se ajusta ao resultado. Quanto de sombra faz um martelo? Quanto o ombro direito pode ser mais alto que o esquerdo? Se isso não está escrito antes, a definição fica elástica. Quando dá certo, era o padrão. Quando dá errado, era "um padrão que falhou", ou "faltou confirmação". Uma regra que não pode errar também não pode acertar.
3. No prazo de um candle, quase tudo é ruído. O módulo 1 mostrou a aritmética: a tendência cresce na proporção do tempo e o barulho, na raiz do tempo. Num papel que oscila como a PETR4 e rendesse 12% ao ano, a tendência de um dia é 0,03 do barulho do dia; a de um ano, 0,44. O pouco de informação que o preço carrega aparece em meses, não em cinco velas. E ruído não tem lado.
O teste: nove candles, escritos como regra, em 437 ações
Para testar, cada padrão vira uma frase que o computador aplica igual em todo o histórico. O martelo, por exemplo: sombra de baixo com pelo menos o dobro do corpo e quase nenhuma sombra em cima, depois de uma queda. O engolfo de alta: um dia de alta cujo corpo cobre inteiro o corpo do dia de baixa anterior. O pin bar: sombra de baixo ocupando dois terços do candle, num fundo de 10 dias. Entraram também harami, estrela da manhã, piercing, doji e três soldados brancos. As definições são as clássicas, fixadas antes de rodar.
A base é a da B3 sem viés de sobrevivência: 437 ações que estiveram entre as líquidas em algum mês desde 2006, inclusive as 179 que saíram da bolsa. As regras do teste:
- Toda vez que o candle aparece, a compra é na abertura do pregão seguinte, como faria quem viu o sinal no fechamento.
- O resultado é medido nos 5 pregões seguintes (e também em 10, e com stop na mínima do candle).
- A referência é um pregão qualquer: o retorno médio de 5 pregões das mesmas ações, em qualquer dia.
- Só conta sinal com a ação líquida naquele mês. A faixa de confiança vem de refazer a conta muitas vezes com meses sorteados.
A pergunta é uma só: comprar depois do candle rende mais que comprar num dia qualquer?
Antes de continuar: Em 5 pregões, um dia qualquer dessas 437 ações rendeu +0,20%. E o martelo, o candle de alta mais ensinado, em 10.766 sinais?
a) Cerca de +1,5%: o martelo marca fundos · b) Cerca de +0,6%: pouco, mas acima do acaso · c) Cerca de +0,2%: igual a um dia qualquer · d) Cerca de −0,2%: pior que um dia qualquer
Resposta: Cerca de −0,2%: pior que um dia qualquer. −0,22%, contra +0,20% de um dia sorteado: 0,42 ponto a menos, com a faixa de confiança inteira abaixo de zero. O acerto foi de 46%.
O resultado: sete de nove abaixo do acaso

Cada barra é o retorno de 5 pregões depois do candle menos o de um dia qualquer. Barra vermelha: pior que o acaso. Teste do Quantor, 437 ações da B3, 2006–2026.
Foram cerca de 92 mil sinais. Sete dos nove padrões ficaram abaixo de um pregão qualquer. Os dois acima, três soldados e piercing, ganharam por 0,05 e 0,06 ponto, uma diferença tão pequena que não se separa do acaso.
O martelo foi o pior. Não é azar de amostra: com 10.766 casos, a faixa de confiança inteira fica abaixo de zero. Comprar o martelo foi pior que comprar num dia sorteado.
Os candles de baixa também falham como alarme. Depois de um engolfo de baixa, a ação rendeu +0,23% em 5 pregões, praticamente o mesmo que num dia qualquer. Quem vendia a cada engolfo de baixa e voltava 5 ou 10 pregões depois fez de +1% a +3% ao ano, contra +0,7% de segurar sempre, e a pequena melhora vinha dos dias parados no CDI, não do aviso.
Aplicados papel a papel, com o dinheiro no CDI fora da operação, os candles de alta renderam +9,1% ao ano na média, abaixo dos +10,5% do CDI no mesmo período, e bateram a renda fixa em só 118 das 437 ações.
Um segundo teste, menor, chegou ao mesmo lugar por outro caminho. Nas 40 ações mais líquidas, de novembro de 2021 a setembro de 2026, um dia qualquer terminou 5 pregões depois mais alto em 51,0% das vezes. O martelo, em 557 casos, em 49,0%. O engolfo de alta, em 1.135, em 47,9%. O doji, em 5.336, em 51,8%. E o engolfo de baixa, que deveria anunciar queda, subiu em 52,1% das vezes, em 1.418 casos. Os três padrões que prometiam uma direção erraram o lado.
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