Momentum e máximas: comprar a força, e aceitar a conta
Comprar o que vem subindo é a única ideia do gráfico com décadas de evidência em vários mercados. Na B3, as 10 ações mais perto da máxima de 52 semanas transformaram R$ 1.000 em cerca de R$ 9.800 desde 2006; as 10 mais longe, em cerca de R$ 40.

Em 1 minuto
- O topo é onde as ações fortes moram: depois de uma máxima de 52 semanas, a ação não cai mais que o normal.
- As 10 mais perto da máxima renderam +11,6% ao ano de 2006 a 2026; as 10 mais longe, −14,3%.
- O prêmio existe porque cobra caro de vez em quando: na virada de 2016, as piores de 2015 subiram mais que todas.
Ao fim desta aula você vai saber
- Separar a tendência de um ano do salto de um dia
- Explicar por que vender na máxima não protege nada
- Dimensionar uma posição de tendência para atravessar a virada
A tese: “nunca compre no topo” está invertido
Você olha uma ação que subiu o ano inteiro e está na máxima. A cabeça diz “cheguei tarde”. O amigo completa: “espera corrigir”. E, se você já tem a ação, vem o impulso contrário: “bateu máxima, é hora de realizar”.
Parece prudência. Nos dados da B3, é o contrário. De todas as ideias que nasceram olhando gráficos, uma passou em quase todos os testes já publicados, em vários países e classes de ativo: comprar o que vem subindo e evitar o que vem caindo. O nome é momentum. E a máxima de 52 semanas, o maior preço do último ano, é o retrato mais simples dele.
A ideia: O topo não é onde a alta termina. É onde as ações fortes moram, e o fundo do poço é onde as fracas continuam afundando.
O mecanismo: por que o preço tende a continuar
1. A notícia boa é absorvida devagar. Quando uma empresa surpreende no resultado, o preço não salta de uma vez para o valor novo. Os analistas revisam as projeções aos poucos, e cada revisão empurra o preço mais um pouco.
2. O dinheiro grande entra em parcelas. Um fundo que precisa montar uma posição relevante leva semanas ou meses para comprar sem mexer demais no preço. É o espelho do vendedor grande da aula 1: lá ele fazia a queda continuar; aqui, a alta.
3. Quem chega atrasado estica o movimento. No fim de uma alta entra quem compra porque subiu. Essa camada prolonga a tendência e, ao mesmo tempo, prepara a queda forte quando o mercado vira. O momentum é feito das duas coisas.
Juntas, as três forças explicam por que o efeito aparece em horizontes de meses, e não de dias. No dia, o que domina é o exagero.
A evidência lá fora
Narasimhan Jegadeesh e Sheridan Titman mostraram, em 1993, que comprar as ações americanas que mais tinham subido nos meses anteriores e vender as que mais tinham caído gerava retorno acima do mercado, e o efeito continuou depois da publicação. Cliff Asness, Tobias Moskowitz e Lasse Pedersen, em 2013, encontraram o mesmo sinal em ações de vários países, em índices, moedas, juros e commodities. O prêmio histórico nesses trabalhos fica na faixa de 5% a 10% ao ano, antes dos custos de girar a carteira.
Se todo mundo sabe, por que não sumiu? Anomalia que desaparece depois de publicada era só uma oportunidade que os outros copiaram. Anomalia que continua lá por décadas costuma ser um prêmio por aguentar um desconforto que a maioria recusa. A B3 viveu esse desconforto em 2016. Antes dele, o teste.
O teste na B3: o que acontece depois da máxima
Nas 437 ações líquidas da B3 desde 2006, com as que saíram da bolsa, toda vez que uma ação fez máxima de 52 semanas foram medidos os 20 pregões seguintes contra um pregão qualquer das mesmas ações, que rendeu +0,76%.
Depois da máxima de 52 semanas, a ação rendeu 0,72 ponto a mais que um pregão qualquer, em 14.812 casos. Depois de uma máxima histórica, +0,49 ponto. Nenhum dos dois passa no teste de confiança: a diferença é pequena demais para descartar o acaso, então não dá para chamar de sinal de compra. Mas dá para afirmar o que não acontece: a ação não cai depois da máxima.
Por isso vender na máxima não funcionou. A regra “bateu máxima, vende e fica 20 pregões fora” rendeu +0,8% ao ano, contra +0,7% de segurar. Realizar só porque o preço bateu no topo não melhora nada.
O teste na B3: perto ou longe do topo
A diferença aparece com força quando a pergunta vira de seleção: todo mês, uma carteira com as 10 ações mais perto da máxima de 52 semanas, e outra com as 10 mais longe.
Antes de continuar: Janeiro de 2006: R$ 1.000 nas 10 ações mais perto da máxima de 52 semanas, refeitas todo mês até 2026. Quanto viraram?
a) Uns R$ 400: comprar caro destrói o retorno · b) Uns R$ 1.500 · c) Uns R$ 3.000 · d) Uns R$ 9.800
Resposta: Uns R$ 9.800. Cerca de R$ 9.800, a +11,6% ao ano. As 10 mais longe da máxima renderam −14,3% ao ano e transformaram R$ 1.000 em cerca de R$ 40.
+11,6% a.a. as 10 mais perto da máxima de 52 semanas · −14,3% a.a. as 10 mais longe, com pior queda de 98% · +15,3% a.a. as mais perto, com a trava do Ibovespa
A carteira das mais perto do topo ficou acima do CDI e do Ibovespa no período inteiro. Com a trava do Ibovespa por cima (o dinheiro vai para o CDI quando o índice fecha o mês abaixo da média de 5 meses), subiu para +15,3% ao ano. A carteira das mais longe é quase a mesma lista “das que mais caíram” da aula 1, e terminou no mesmo lugar.
Uma regra mais simples, aplicada em cada ação sozinha, conta a mesma história: comprar na máxima de 52 semanas e sair quando o preço perde a média de 50 dias rendeu +10,9% ao ano, perto do CDI, com uma das menores quedas dos testes (pior queda média por ação de −19%). É uma regra que compra força e sai quando a força acaba, o oposto de “esperar corrigir”.
Topo não é salto
Aqui está a confusão que mais custa. A máxima de 52 semanas é o resultado de um ano de alta. Subir 10% num único pregão é um evento, muitas vezes uma notícia, e aí o dado vira: nos 20 pregões seguintes, a ação rendeu 1,59 ponto a menos que um pregão qualquer.
Quem diz “subiu demais, vai corrigir” está certo sobre o salto de um dia e errado sobre a tendência de um ano. A maioria mistura os dois.
O mesmo vale para o repique dentro de uma queda. Nos Rankings de 29/09/2026, a MGLU3 tinha subido 43,5% em 30 dias, mas ainda estava 35% abaixo do preço de um ano antes. Olhando só o último mês, parecia força. Olhando o ano, era um repique numa tendência de queda. Só se vê a diferença lendo os prazos juntos.
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