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Tendência e momentum · Aula 1 de 4

Comprar na queda: quem cai forte continua caindo

Nas 437 ações líquidas da B3 desde 2006, a queda de 5% num dia com volume dobrado rendeu menos que um pregão qualquer nos dias seguintes. Comprar todo mês o que mais caiu transformou R$ 1.000 em cerca de R$ 40.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Comprar na queda: quem cai forte continua caindo

Em 1 minuto

  • Na B3, a ação que cai forte num dia, com volume alto, tende a continuar caindo nos dias seguintes, não a repicar.
  • Comprar todo mês as 10 que mais caíram rendeu cerca de −14% ao ano de 2006 a 2026: R$ 1.000 viraram cerca de R$ 40.
  • O repique de curto prazo existia até 2016 e sumiu na prova cega de 2017 a 2026.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Separar a queda que é aviso da queda que é só barulho
  • Calcular quanto um papel precisa subir para voltar depois de uma queda
  • Montar uma regra para comprar uma queda sem pegar a faca

A tese: a queda forte é notícia, não desconto

Uma ação conhecida cai 10% num dia. O grupo de mensagens se anima: “promoção”, “o mercado exagerou”, “quem compra na baixa ganha”. Na mesma conversa, outro alguém lembra o ditado oposto: “não tente pegar uma faca caindo”. Cada conselho tem a sua coleção de casos.

Esta aula põe os dois contra os dados: as 437 ações que estiveram entre as líquidas da B3 desde 2006 (as que negociavam bastante dinheiro por dia), incluindo as que quebraram e saíram da bolsa, que são justamente as que a memória apaga.

A ideia: Na bolsa, o preço que despenca com volume alto quase sempre está contando uma notícia. E notícia ruim não se digere num dia.

O mecanismo: três forças que fazem a queda continuar

1. A queda forte carrega informação. Ninguém derruba uma ação em 10% num pregão por tédio: costuma haver um balanço ruim, uma dívida que apareceu, uma fraude. O mercado não termina de recalcular o valor da empresa no primeiro dia.

2. O vendedor grande sai em parcelas. Um fundo que decidiu zerar uma posição de centenas de milhões não consegue vender tudo no mesmo dia sem afundar o preço ainda mais. Ele vende por dias ou semanas. Cada parcela empurra o preço para baixo de novo.

3. O volume denuncia quem está saindo. Queda com volume normal pode ser só um dia ruim. Queda com o dobro do volume quer dizer que muita gente, e gente grande, decidiu ao mesmo tempo. É por isso que o teste separa as duas.

Como o teste foi feito

No curto prazo, a ação cai forte num dia ou numa semana; você compra na abertura seguinte e vende dias depois, esperando o repique. Foram 59 variações: queda de 5%, 10%, 15% e 20% num dia; de 5% a 20% em 5 dias; 3, 5 e 7 quedas seguidas; e, do outro lado, altas fortes. Cada uma contra um pregão qualquer das mesmas ações no mesmo prazo. A faca caindo, no teste, é uma queda de 5% ou mais num dia com volume de pelo menos o dobro da média dos 20 pregões anteriores.

Na seleção, você monta todo mês uma carteira de 10 ações: as que mais caíram no mês, as que mais caíram em 12 meses ou as que estão mais abaixo da média de 200 dias (a média dos fechamentos dos últimos 200 pregões). Com custo, e com as empresas que quebraram entrando pelo valor que o acionista recebeu, às vezes zero.

O resultado no curto prazo

Antes de continuar: Uma ação líquida da B3 cai 5% ou mais num dia, com o dobro do volume normal. Como ela costuma se sair nos 5 pregões seguintes, comparada a um pregão qualquer?

a) Repica: rende bem mais que um pregão qualquer · b) Fica igual a um pregão qualquer · c) Rende menos: continua caindo

Resposta: Rende menos: continua caindo. Rendeu 0,83 ponto a menos que um pregão qualquer, em 3.805 casos, e o resultado é firme: o intervalo de confiança inteiro ficou abaixo de zero.

Depois de cair 10% num dia, a diferença cresce: 2,69 pontos a menos que um pregão qualquer nos 10 pregões seguintes. E o volume é o que separa. A queda de 5% com volume normal ficou quase neutra, com −0,30 ponto. O que pesa não é o tamanho da queda sozinho, é a quantidade de gente saindo junto.

As sequências de quedas também não dão repique confiável. Três quedas seguidas: neutro. Cinco quedas seguidas pareciam boas no período de 2006 a 2016 e sumiram de 2017 a 2026. O outro lado confirma o padrão: depois de subir 10% num dia, a ação rendeu 1,29 ponto a menos.

A parte mais traiçoeira está na história do teste. Na metade usada para criar as regras (2006 a 2016), 55 dos 596 testes pareceram aprovados, e quase todos eram variações de “comprar depois da queda”: 5 ou 7 quedas seguidas, queda de 10% a 20% em 5 dias, o gap que se fecha. Na prova cega de 2017 a 2026 (anos guardados de propósito para conferir as regras depois de criadas), todos menos um pararam de funcionar. O módulo 2 conta como a prova cega é feita.

Cuidado: O repique existia, mas era do mercado de antes. Quem aprendeu a regra olhando 2006 a 2016 aprendeu uma lembrança.

O resultado na seleção: a regra mais destrutiva do teste

Antes de continuar: Janeiro de 2006: R$ 1.000 numa carteira com as 10 ações que mais caíram no mês, refeita todo mês até 2026. Quanto sobrou?

a) Uns R$ 5.000: comprar barato compensa no longo prazo · b) Uns R$ 1.000: empatou · c) Uns R$ 400 · d) Uns R$ 40

Resposta: Uns R$ 40. Cerca de R$ 40. A carteira rendeu −14,7% ao ano, com pior queda de 98%.

−14,7% a.a. as 10 que mais caíram no mês · −13,3% a.a. as 10 que mais caíram em 12 meses · −13,2% a.a. as 10 mais abaixo da média de 200 dias

As três versões tiveram pior queda (o maior tombo do topo até o fundo) de 98%. Pela taxa anual, R$ 1.000 em 2006 terminaram entre R$ 37 e R$ 53 nas três. E a conta da volta é cruel: depois de cair 98%, a carteira precisaria subir 4.900% só para empatar.

Os meses de maior estrago foram os de crise: março de 2020, setembro e outubro de 2008, junho de 2022. Justo quando a lista “do que mais caiu” parecia a mais barata da história, o que mais caiu continuou caindo, e a lista incluía empresas que estavam quebrando. Na base, 9 ações que chegaram a estar entre as líquidas foram a zero. Cada uma delas, em algum momento, apareceu numa lista de “quedas exageradas”.

Nem a trava de mercado salva a ideia. Com a regra de ficar no CDI (o rendimento da renda fixa mais simples) quando o Ibovespa fecha o mês abaixo da média de 5 meses, as carteiras das que mais caíram continuaram negativas, de −3% a −4% ao ano.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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