Tendência e serrote: a régua certa no papel errado
A mesma régua mensal rendeu +31,7% ao ano na MGLU3 e metade do que rendia segurar no ITUB4. Quando uma regra de tendência começa a serrar, o ajuste certo quase nunca é na regra: é no papel ou no tamanho da posição.

Em 1 minuto
- Uma regra de tendência perde dinheiro em papel lateral, e não por estar errada: cada virada custa um pedaço, e não vem tendência grande para pagar.
- No ITUB4, desde 2009, a régua mensal fez R$ 100 virarem R$ 338, contra R$ 1.033 de segurar; na MGLU3, rendeu +31,7% ao ano.
- Nas 437 ações líquidas da B3, a régua cortou a pior queda em 407: a proteção é confiável; o retorno depende do papel.
Ao fim desta aula você vai saber
- Reconhecer o papel serrote antes de pagar por ele
- Calcular quanto cada troca de lado custou
- Ajustar o tamanho da posição em vez de mexer na regra
A tese: a régua não errou, o papel é que não tinha tendência
Quando uma regra de tendência começa a dar prejuízo, o reflexo é mexer nela: encurtar a média, acrescentar um filtro, exigir confirmação. Quase sempre é a decisão errada.
A régua do Quantor é simples e pública: no fechamento de cada mês, compara o preço com a média exponencial dos últimos 5 meses (uma média que dá mais peso aos meses recentes; o módulo 1 explica por que 5 meses e não 200 dias). Acima, o papel está em alta; abaixo, em baixa. Aplicada a dois papéis da B3 desde 2009, sem mudar uma vírgula, ela deu resultados opostos.
Antes de continuar: Janeiro de 2009: R$ 100 no ITUB4. Comprar e segurar virou R$ 1.033 até 2026. Seguindo a régua mensal, com o dinheiro na Selic nos meses fora, quanto virou?
a) Uns R$ 1.500: a régua evita as quedas e rende mais · b) Uns R$ 1.000: empatou · c) Uns R$ 340 · d) Uns R$ 100: não saiu do lugar
Resposta: Uns R$ 340. R$ 338: +7,1% ao ano, contra +14,1% de segurar, com 62 trocas de lado no caminho. Na MGLU3, a mesma régua rendeu +31,7% ao ano.
Não são duas regras. São dois tipos de papel: um que passa anos oscilando em volta da própria média, e outro que se move em ciclos longos, para cima e para baixo.
A ideia: Quando a regra está serrando, o ajuste certo quase nunca é na regra. É no papel, ou no tamanho da posição.
O mecanismo: por que o papel lateral destrói a regra de tendência
1. Cada virada custa um pedaço. A régua decide no fechamento do mês. Você entra depois que o papel já subiu o suficiente para cruzar a média, e sai depois que ele já caiu o suficiente para cruzar de volta. Esse pedaço perdido na entrada e na saída é o custo fixo de cada operação. Num papel que anda 40% num ciclo, ele é irrelevante. Num papel que sobe 8% e devolve 8%, ele come o resultado inteiro.
2. A tendência se paga com poucas operações grandes. A maioria das operações de uma regra de tendência é pequena e negativa. O lucro vem de um punhado de movimentos enormes. Papel lateral, por definição, não produz esses movimentos; só produz a parte pequena e negativa.
3. Lateral não é parado, é agitado sem direção. Oscilar bastante e não sair do lugar é o pior terreno: muitas trocas e nenhuma tendência para pagar por elas.
O caso ITUB4: um ótimo investimento, uma péssima tendência
Desde janeiro de 2009, com o fechamento mensal com proventos, o ITUB4 passou a maior parte do tempo colado na média de 5 meses. A cor da régua trocava a cada poucos meses, e cada troca era uma entrada ou uma saída. Foram 62 em quase 18 anos, ou 3,5 por ano.
E nem a proteção apareceu: a pior queda seguindo a régua foi de −42%, contra −39% de quem segurou. O ITUB4 foi um ótimo investimento no período, com dividendos gordos e lucro crescente. Foi um mau investimento para uma regra de tendência.
O outro extremo: MGLU3
A MGLU3 é o contrário do ITUB4. Teve dois ciclos gigantes em direções opostas: de dezembro de 2015 a novembro de 2020, o preço com proventos multiplicou-se por mais de 900; de lá até agosto de 2026, caiu 98%. Uma regra de tendência foi feita para esse tipo de papel. Ela fica dentro enquanto o ciclo de alta dura meses e meses, e sai cedo na queda, quando o estrago ainda é pequeno perto do que vem. No meio da destruição houve meses de alta na régua, repiques que a puseram de volta e a tiraram de novo, mas eles custaram pouco perto do que a régua deixou de perder ficando fora. O resultado foi +31,7% ao ano, com só 2,0 trocas de lado por ano.
O placar: a mesma régua em oito papéis
Nos retornos, com proventos e desde 2009: ITUB4 +7,1% ao ano na régua contra +14,1% segurando; WEGE3 +18,9% contra +22,1%; TAEE11 +15,7% contra +21,0%; e a MGLU3, com +31,7% ao ano na régua, o melhor resultado dos oito papéis testados. Agora a pior queda:
| Papel | Pior queda segurando | Pior queda com a régua |
|---|---|---|
| PETR4 | −87% | −40% |
| VALE3 | −79% | −28% |
| WEGE3 | −55% | −32% |
| Ibovespa | −51% | −21% |
| TAEE11 | −49% | −26% |
| ITUB4 | −39% | −42% |
Fechamento mensal com proventos, desde 2009, régua com Selic nos meses fora.
Duas leituras saem daí. A primeira: a régua perdeu mais feio justamente no papel que mais trocou de lado. O ITUB4 virou 3,5 vezes por ano; a MGLU3, que teve dois ciclos gigantes em direções opostas, 2,0 vezes. A segunda está na tabela: em quase todos, a régua cortou o tombo de forma forte. A exceção é o serrote.
Antes de continuar: Nas 437 ações líquidas da B3 desde 2006, incluindo as que saíram da bolsa, em quantas a régua mensal cortou a pior queda em relação a comprar e segurar?
a) Em cerca de metade · b) Em cerca de dois terços · c) Em mais de 9 de cada 10
Resposta: Em mais de 9 de cada 10. Em 407 das 437. A pior queda típica caiu de −78% para −42%. Já no retorno, a régua bateu o segurar em 261 e o CDI em só 163.
407 de 437 ações em que a régua cortou a pior queda · −78% → −42% a pior queda típica, segurando e com a régua · 163 de 437 ações em que a régua bateu o CDI
Papel a papel, com o CDI nos meses fora, a régua rendeu em média +9,6% ao ano, contra +10,5% do CDI e +0,7% de comprar e segurar a ação. É o retrato mais honesto da ferramenta: a proteção é a parte confiável da régua; o retorno é a parte que depende do papel.
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