Hedge com WIN e WDO: do mesmo tamanho, no sentido contrário
Um hedge bem feito não tenta ganhar dinheiro, tenta não perder. Ele cobra caixa nos dias de alta, rende juro em vez de bolsa e vira aposta no dia em que fica maior que a exposição.

Em 1 minuto
- Hedge é abrir uma posição que ganha quando a carteira perde, do mesmo tamanho da exposição; o resultado esperado é perto de zero, e esse é o objetivo.
- Em março de 2020, R$ 200 mil em BOVA11 com 10 WIN vendidos fecharam o mês em +R$ 177, mas o ajuste de um só dia cobrou R$ 20.190 em dinheiro.
- O contrato protege a parte da carteira que anda com o índice ou com o dólar; o resto, e a disciplina de sair, continuam com você.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular quantos contratos cobrem uma carteira de ações ou uma posição em dólar
- Separar o caixa que o hedge vai exigir nos dias de alta
- Reconhecer os quatro jeitos de um hedge virar aposta
A tese: o hedge certo dá resultado perto de zero
Quem ouve “proteção” espera ganhar quando o mercado cai. Um hedge bem feito não ganha. Ele faz a carteira não perder naquele período, e por isso também não deixa ganhar. O resultado esperado é perto de zero, e essa é a prova de que ele está do tamanho certo.
A aula anterior mostrou o instrumento: o contrato futuro, com garantia e ajuste diário. Esta mostra o uso que justifica o instrumento existir. Você tem R$ 200 mil em ações e vai passar três meses sem poder acompanhar o mercado. Não quer vender tudo, pagar imposto e recomprar depois; quer atravessar o período sem levar o tombo. Hedge é abrir uma posição que ganha quando a sua carteira perde, do mesmo tamanho do que você quer proteger, no sentido contrário. Vendido em mini-índice, se a bolsa cair, o ajuste diário paga o que as ações perdem. Se subir, cobra o que as ações ganham.
A ideia: Um hedge bem feito não tenta ganhar dinheiro: tenta não perder. No dia em que ele fica maior que a exposição, ou continua depois que a exposição acabou, virou aposta.
Esta aula ensina a conta e mostra os custos. Ela não diz quando proteger: essa é uma decisão sua, e a parte difícil dela está nos custos abaixo.
O mecanismo: três forças que fazem o hedge funcionar ou falhar
1. O tamanho vem de uma divisão. Contratos = valor da carteira × beta ÷ valor de um contrato. O beta é quanto a carteira anda para cada 1% do Ibovespa: beta 1,2 quer dizer que, historicamente, ela sobe ou cai 1,2% para cada 1% do índice. Sem o beta, você protege demais uma carteira defensiva e de menos uma agressiva.
2. O ajuste diário cobra a proteção nos dias bons. Vendido em futuro, você recebe nos dias de queda e paga nos de alta, em dinheiro, no dia. As ações que subiram não pagam ajuste: só saldo em conta paga.
3. O contrato só protege o que anda com ele. O mini-índice cobre a parte do movimento da carteira que acompanha o Ibovespa. Se uma ação cai por um problema dela, o índice não sabe. O mesmo vale para o dólar: o WDO cobre o câmbio, não o ativo comprado em dólar.
A conta: cinco ações e o beta
O exemplo da aula usa R$ 200 mil em cinco ações, em pesos iguais: ITUB4, PETR4, VALE3, WEGE3 e BBAS3. Nos 36 meses até agosto de 2026, só no preço, essa carteira teve beta de 0,86: ITUB4 andou mais que o índice (1,30); PETR4, VALE3 e WEGE3, bem menos. O beta de cada papel está na tela Analisar papel.
Com o Ibovespa a 183.966 pontos (24/09/2026), um WIN vale R$ 36.793. A conta: 200.000 × 0,86 ÷ 36.793 = 4,7 contratos. Arredonda-se para 5 (um pouco mais protegido) ou 4 (um pouco menos). Com beta 1, seriam 5,4. Nunca para o dobro.
Março de 2020: a proteção funcionou, e cobrou caixa
O caso mais limpo usa uma carteira que anda com o índice. Em 28/02/2020, alguém tinha R$ 200 mil em BOVA11 (beta 1). O Ibovespa fechou a 104.172 pontos: um WIN valia R$ 20.834, e a conta pedia 200.000 ÷ 20.834 = 9,6 contratos. Ele vendeu 10.

Em cima, o resultado acumulado. Embaixo, o dinheiro que entrou e saiu da conta todo dia pelo ajuste. O WIN foi aproximado pelo Ibovespa à vista.
−R$ 62.127 as cotas de BOVA11 em março de 2020 (−31,1%) · +R$ 62.304 os 10 WIN vendidos (31.152 pontos de queda) · +R$ 177 a soma no fim do mês
No fim de março, as cotas tinham perdido R$ 62.127. Os 10 contratos tinham rendido R$ 62.304 (10 × 0,20 × 31.152 pontos de queda). O hedge fez exatamente o que prometia: zero.
Antes de continuar: Nesse mesmo mês, em 13/03/2020, o Ibovespa subiu 10.095 pontos num dia. Quanto o ajuste dos 10 WIN vendidos cobrou, em dinheiro, naquele pregão?
a) Nada: o hedge estava ganhando no mês · b) Uns R$ 2 mil · c) Uns R$ 20 mil
Resposta: Uns R$ 20 mil. R$ 20.190, 10,1% do valor protegido, num dia só. Em 24/03, mais R$ 12.319. As cotas que subiram não pagam ajuste: só saldo em conta paga.
Quem faz hedge com futuro precisa de caixa para os dias em que a proteção custa. Sem ele, a corretora pode encerrar os contratos no pior momento, e a carteira fica descoberta justo quando mais precisava. Em março de 2020, os dias de alta somaram R$ 81.241 de ajustes debitados, contra R$ 143.544 creditados nos de queda. O saldo foi a favor, mas cada débito teve de ser pago no dia.
E com cinco ações em vez do fundo
Agora troque o BOVA11 pela carteira das cinco ações, em pesos iguais, montada no mesmo 28/02/2020. Com o beta de 0,86 da conta acima, o contrato da época pedia 200.000 × 0,86 ÷ 20.834 = 8,3 contratos: 8 WIN.
Antes de continuar: A carteira de cinco ações caiu 27,6% em março de 2020, e o índice, 29,9%. Com 8 WIN vendidos, como a soma fechou o mês?
a) Perto de zero, como no BOVA11 · b) Uns R$ 5 mil negativos · c) Uns R$ 20 mil positivos
Resposta: Uns R$ 5 mil negativos. −R$ 5.268. As ações perderam R$ 55.111 e os 8 contratos renderam R$ 49.843. A carteira caiu quase como o índice naquele mês (como se o beta fosse de 0,92), e o beta de 0,86 protegeu de menos.
Dentro da carteira, a dispersão foi enorme: PETR4 −44,8%, BBAS3 −40,5%, ITUB4 −27,8%, WEGE3 −22,2% e VALE3 −2,5%. O mini-índice não enxerga nenhuma dessas histórias. Ele protege a parte comum. Com 10 contratos, a soma teria sido de +R$ 7.192, protegido demais: o hedge certo depende de um beta que muda justamente na crise, quando as ações passam a cair juntas.
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