Alavancagem: o ano certo e o pregão que zera
Para quebrar alavancado não é preciso errar a direção. Basta o caminho passar, por um dia, por um ponto que a conta não aguenta, e o Ibovespa passa por esse ponto quase todo ano.

Em 1 minuto
- Com L vezes o capital, uma queda de 1 ÷ L leva tudo: 20% em 5 vezes, 10% em 10 vezes, 0,42% na margem de day trade.
- O Ibovespa esteve 10% ou mais abaixo do início do ano em 9 dos 15 anos de 2011 a 2025, e três deles terminaram em alta.
- Alavancagem multiplica o retorno esperado e, na mesma proporção, a oscilação do caminho; é o caminho que decide quem ainda está dentro quando o retorno chega.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular a alavancagem real de uma posição e a queda que zera a conta
- Comparar essa queda com as quedas normais do índice num ano
- Contar o custo de juro que o futuro embute para quem está comprado
A tese: dá para acertar o ano e perder o dinheiro
Imagine que, no último pregão de 2015, você tivesse certeza de que o Ibovespa subiria em 2016. E acertasse: o índice fechou o ano 38,9% acima. Com o mini-índice, dava para multiplicar essa certeza por 3 ou por 5. Em 5 vezes, o ganho do ano seria de quase 195%.
Só que ninguém pula de 31 de dezembro para 31 de dezembro. O ano passa por todos os pregões no meio, e é neles que a alavancagem cobra.
A ideia: Alavancagem não exige errar a direção para quebrar. Exige só que o caminho passe, por um dia, por um ponto que a sua conta não aguenta.
As aulas 3 e 4 mostraram o contrato futuro e o uso dele para reduzir exposição. Esta mostra o uso contrário, multiplicar a exposição, e por que ele quebra contas de quem acerta.
O mecanismo: três forças que fazem o caminho importar mais que o destino
1. A conta da ruína é uma divisão. A alavancagem é o valor dos contratos dividido pelo seu dinheiro. Se você deposita R$ 36.793 para cada WIN, carrega 1 vez o capital. Se deposita a metade, 2 vezes. Com L vezes o capital, uma queda de 1 ÷ L leva tudo. Em 3 vezes, basta uma queda de 33%. Em 5 vezes, de 20%. Em 10 vezes, de 10%.
2. O ajuste diário não espera o ano acabar. No futuro, a perda de cada dia sai da conta no dia. Quando o saldo não cobre, a corretora pede mais garantia ou encerra a posição, e o encerramento realiza a perda no pior ponto do caminho. Não existe “esperar voltar” com a conta zerada.
3. A oscilação normal do índice já basta. Não é preciso crise. A volatilidade típica do Ibovespa, perto de 20% ao ano (o módulo 6 mostra a série), produz quedas de 10% dentro de um ano como coisa comum. Alavancagem multiplica o retorno esperado, mas multiplica igual essa oscilação, e é a oscilação que decide se você ainda está dentro quando o retorno chega.
A última linha da tabela
| Alavancagem | Queda do índice que leva todo o capital |
|---|---|
| 1 vez | 100% |
| 3 vezes | 33% |
| 5 vezes | 20% |
| 10 vezes | 10% |
| 237 vezes (margem de day trade) | 0,42% |
A última linha merece atenção. Nas regras da B3 consultadas em 24/09/2026, a margem mínima de um WIN em day trade era de R$ 155 (a corretora pode pedir mais). Contra um contrato de R$ 36.793, isso é 237 vezes. Uma queda de 0,42% do índice, cerca de 775 pontos, leva o depósito inteiro.
Antes de continuar: Desde 2016, em que fatia dos pregões o Ibovespa andou 0,42% ou mais entre um fechamento e o seguinte?
a) Uns 20%: é um movimento grande · b) Uns 45% · c) Uns 70%
Resposta: Uns 70%. Em 1.886 de 2.687 pregões, 70%. E isso só de fechamento a fechamento, sem contar o que o índice anda durante o dia.
O movimento que zera a margem mínima do day trade é o movimento de um dia comum. A aula 3 do módulo 4 mostra o que aconteceu com quem fez disso profissão.
2016: a direção certa

Resultado sobre o capital de quem entrou no último pregão do ano anterior e não mexeu na posição. Círculo: o dia em que o capital caiu à metade. Quadrado: o dia em que zerou.
O índice partiu de 43.350 pontos e terminou em 60.227. Em 13/01, estava 10,2% abaixo do ponto de partida, a 38.944 pontos.
Antes de continuar: 2016 terminou com o Ibovespa em +38,9%. Para quem estava 5 vezes alavancado desde o início do ano, qual foi o pior momento no caminho?
a) Uns −15% · b) Uns −35% · c) Uns −67%
Resposta: Uns −67%. −67,5%, em 26/01, quando o índice estava 13,5% abaixo do início. Dois terços do capital foram embora num ano em que a direção estava certa.
Em 3 vezes, o pior momento foi −40,5%, e o ano fechou em +116,8%, para quem conseguiu ficar. Em 5 vezes, a metade do capital sumiu em 13/01. Quem saiu ali, com uma regra de parar ao perder metade, viu o índice subir mais 54,6% dali até o fim do ano sem estar dentro. A direção estava certa. O caminho tirou a pessoa antes.
2020: o ano no zero a zero
+2,9% o Ibovespa no ano de 2020 · 09/03 o dia em que a conta de 5 vezes zerou · 12/03 o dia em que a de 3 vezes zerou
O índice terminou 2020 em +2,9%, praticamente onde começou. Mas no caminho estava março. Em 5 vezes, a metade do capital foi em 27/02 e a conta zerou em 09/03: no pregão anterior, a perda era de 76%; no fechamento de 09/03, de 128%. Num único dia, a perda passou do dinheiro que havia na conta, e a diferença continua sendo dívida com a corretora. Em 3 vezes, a conta zerou em 12/03, de −79% para −112% num pregão. Quem estava em 1 vez perdeu 45% no fundo, em 23/03, e terminou o ano no lucro.
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