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Medir: volatilidade · Aula 2 de 6

Volatilidade implícita: o medo tem preço, e o preço erra para cima

Desde 2017, o VIX Brasil cobrou mais oscilação do que a que veio em 71% dos dias. Em 23/10/2026 ele cobrava 2,78% por dia, e no pregão seguinte o BOVA11 caiu 14,5%: o seguro caro também pode sair barato.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Volatilidade implícita: o medo tem preço, e o preço erra para cima

Em 1 minuto

  • A volatilidade implícita é a oscilação que o mercado cobra para os próximos 30 dias; no BOVA11, o Quantor a publica como VIX Brasil.
  • Ela sobe antes de datas marcadas, como eleições, e quase sempre cobra mais do que entrega: desde 2017, ficou acima da oscilação seguinte em 71% dos dias.
  • Cobrar caro não é cobrar o suficiente: em 26/10/2026 o BOVA11 caiu 14,5%, cinco dias do que o seguro cobrava.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Traduzir o VIX Brasil em movimento esperado por dia e por mês
  • Procurar a data que está empurrando a implícita para cima
  • Ler a implícita como preço de seguro, não como previsão de direção

A tese: o número mais olhado de medo é um preço, não uma previsão

Quando o mercado fica nervoso, aparece na tela um número que parece saber do futuro: a volatilidade implícita. Ela é chamada de "índice do medo" e muita gente a lê como um alarme. A leitura certa é mais modesta e mais útil: a implícita é o preço que se cobra pelo seguro contra a oscilação dos próximos 30 dias.

Como todo preço de seguro, ela carrega uma margem. Na maior parte do tempo, cobra mais do que o sinistro que vem. E, de vez em quando, o sinistro passa muito do que foi cobrado.

A ideia: A volatilidade implícita é o preço do medo: a oscilação que o mercado cobra para os próximos 30 dias, paga em dinheiro.

A aula 1 mostrou o retrovisor, a volatilidade histórica. Esta mostra o para-brisa, com uma ressalva: ele é pintado por quem vende o seguro.

O mecanismo: três forças que formam o preço do medo

1. O preço do seguro esconde uma oscilação. No mercado existe um seguro contra o sobe e desce do BOVA11: a opção. Este curso não ensina a operar opções neste módulo; elas entram aqui só como a fonte do número. O preço de uma opção depende do prazo, do juro, da distância entre a cotação e o preço protegido e de quanto se espera que o ativo oscile. Tudo é conhecido, menos o último item. Então se faz a conta ao contrário: qual oscilação faz a fórmula-padrão dar exatamente o preço negociado? Essa é a implícita.

O Quantor faz isso todo dia com o COTAHIST, o arquivo público da B3 com todos os negócios do pregão. Usa as opções do BOVA11 com preço de exercício a até 2,5% da cotação, pesa cada uma pelo número de negócios e interpola dois vencimentos para chegar a um prazo fixo de 30 dias. O resultado é o VIX Brasil, com série desde 21/02/2011.

2. Uma data marcada dentro da janela encarece tudo. A implícita cobre 30 dias para a frente. Se uma eleição, uma decisão ou um julgamento cai dentro desse prazo, o seguro passa a cobrar pela chance de um dia enorme. Quando a data passa, ela sai da janela, e o seguro barateia, aconteça o que acontecer.

3. A procura é de um lado só. Quem tem ações teme a queda; quase ninguém compra seguro contra a alta. Quem vende proteção assume uma perda grande e rara e cobra por isso mais do que o custo médio. Seguro com procura garantida sai caro, e é daí que vem o erro para cima.

Lendo o número

Em 22/09/2026, o VIX Brasil fechou em 27,87: o mercado cobrava uma oscilação de 27,87% ao ano. A tradução é a mesma da aula 1:

  • No mês: 27,87 ÷ 3,46 = cerca de 8,0% para cima ou para baixo.
  • No dia: 27,87 ÷ 15,87 = cerca de 1,76%.

No mesmo dia, a volatilidade histórica de 21 pregões do BOVA11 estava em 15,41%, ou 0,97% por dia. O mercado cobrava quase o dobro do susto que vinha acontecendo. A distância entre os dois números tem nome, prêmio de vol, e é o assunto da aula 4.

Para ter régua, olhe a distribuição. Desde 2017, quando as opções do BOVA11 passaram a ter negócio em praticamente todo pregão:

VIX Brasil Leitura na aba Risco % dos pregões desde 2017
abaixo de 20 calmo 46,3%
20 a 25 normal 31,5%
25 a 35 nervoso 18,9%
acima de 35 pânico 3,3%

Quinze anos de medo em quatro picos

Os picos contam a história do país. Outubro de 2014, na reta final da eleição: 62,53 em 24/10, com a série ainda rala. Abril de 2016, semanas antes da votação do impeachment na Câmara: 52,79 em 07/04. Março de 2020, a pandemia: 102,32 em 18/03, o recorde. E outubro de 2026, que vale uma seção própria.

As eleições mostram melhor que tudo o que a implícita tem de diferente. Em 2018, ela subiu de 20,1 (01/08) para 37,4 (04/09), com a histórica em 23,9: o preço andava normal, o seguro não. Em 05/10/2018, sexta-feira antes do primeiro turno, estava em 36,2. Na segunda seguinte, 08/10, em 19,0: quase metade. Em 2022, marcou 34,0 em 30/09, véspera do primeiro turno, e 27,2 no pregão seguinte; 30,9 em 28/10, antes do segundo, e 26,2 depois.

A implícita não adivinha resultado. Ela sobe porque a data está dentro dos 30 dias que cobre, e cai porque a data saiu.

Outubro de 2026: o seguro caro que saiu barato

Em 2026 o desenho se repetiu, com um final diferente. Em 01/10, a três dias do primeiro turno, o VIX Brasil foi a 41,85 (num dia em que só as opções de proteção contra queda entraram no cálculo). Em 02/10, já marcava 28,58. Depois do primeiro turno, 05/10, o Ibovespa subiu 7,7%.

Então veio a escalada para o segundo turno, marcado para 25/10: 26,72 em 09/10, 34,44 em 15/10, 46,50 em 22/10 e 44,09 em 23/10, a última sexta antes da votação. Era o nível mais alto dos dois anos anteriores.

Antes de continuar: Em 23/10/2026, o VIX Brasil em 44,09 cobrava cerca de 2,78% de oscilação por dia. No pregão seguinte, 26/10, quanto o BOVA11 andou?

a) Cerca de 2,8%, o que estava cobrado · b) Cerca de 6%, o dobro · c) Cerca de 14,5%, cinco vezes mais

Resposta: Cerca de 14,5%, cinco vezes mais. O BOVA11 foi de R$ 201,69 para R$ 172,42: −14,51%, 5,2 vezes o dia cobrado. O Ibovespa caiu 13,9%, o 5º pior pregão desde 1995.

O seguro estava caro pelos padrões dos dois anos anteriores. Mesmo assim, saiu barato para quem o vendeu sem margem: o dia que veio coube cinco vezes no dia que estava cobrado.

Um cuidado com o número seguinte. Em 26/10, o VIX Brasil apareceu em 21,57, uma queda de mais da metade. Esse valor saiu de poucos negócios perto da cotação nova e só de opções de compra; o skew do dia nem pôde ser calculado. Trate-o como provisório até os próximos pregões confirmarem. Num dia de −14,5%, os preços das opções se reorganizam ao longo do pregão inteiro, e o fechamento pode não refletir isso.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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