Volatilidade histórica: o retrovisor que prevê o susto, não a direção
A vol de 21 pregões do Ibovespa foi de 14,8% em 22/09/2026 para 61,2% em 26/10/2026. Ela nunca disse para que lado o índice ia; disse, com regularidade, que um dia grande costuma chamar outro.

Em 1 minuto
- A volatilidade histórica mede quanto o preço andou nos últimos pregões, levado para a escala de um ano: no Ibovespa, o normal desde 2004 é 20,7%.
- Ela não diz a direção, mas diz o tamanho, e o tamanho se repete: depois de um dia de ±3%, outro veio nos 5 pregões seguintes em 62% das vezes.
- Vol baixa não é risco baixo: de 2021 a 2022 o índice caiu 26,5% sem a vol passar de 27,5%.
Ao fim desta aula você vai saber
- Traduzir uma vol anual em movimento típico de um dia e de um mês
- Dizer se um dia de queda é normal ou fora da curva para aquele ativo
- Reconhecer quando a vol cai só porque um dia violento saiu da conta
A tese: o gráfico não diz para onde, diz quanto
Quem abre um gráfico quase sempre quer saber uma coisa: vai subir ou vai cair? Vinte anos de dados da B3 respondem que o gráfico é ruim nessa pergunta e bom em outra, que pouca gente faz: quanto o preço costuma andar, e se agora ele está andando mais ou menos que o normal.
Essa segunda pergunta tem um número: a volatilidade histórica. Ela olha só para trás. Mesmo assim, é a única parte do futuro próximo que o passado recente prevê com alguma regularidade.
A ideia: A volatilidade não diz para onde o mercado vai. Diz quanto ele anda, e esse tamanho costuma se repetir por um tempo.
Este módulo inteiro é sobre medir esse tamanho: o que o preço já andou (esta aula), o que o mercado cobra para os próximos 30 dias (aulas 2 a 5) e como juntar tudo num termômetro (aula 6). O módulo 7 usa essas medidas para proteger, e a aula do stop, no módulo 5, usa para dimensionar a posição.
O mecanismo: três forças por trás de um número
1. A conta transforma dias em ano. Pegue os retornos dos últimos 21 pregões (cerca de um mês de bolsa), calcule o desvio-padrão e multiplique pela raiz de 252, o número de pregões num ano. O resultado é a vol anual. Para voltar à escala que você sente, faça o caminho inverso: divida por 15,87 (a raiz de 252) para ter o dia típico e por 3,46 (a raiz de 12) para ter o mês típico. Com o Ibovespa na mediana de 20,7%, um dia comum anda cerca de 1,3% para cima ou para baixo. A trilha de matemática do curso Método Quant faz a conta passo a passo; aqui interessa o que ela diz.
2. O susto vem em série. Os dias grandes não chegam espalhados ao acaso. Eles se juntam em semanas e meses agitados, separados por longos trechos calmos. É isso que dá ao retrovisor algum poder de previsão: quem viu um mês agitado tem boa chance de ver outro em seguida.
3. A janela decide a leitura. A mesma pergunta, "quanto oscilou?", tem respostas diferentes com 21 pregões ou com 252. A janela curta reage rápido e descreve o regime de agora. A longa diz o que é normal para aquele ativo. E a curta tem um defeito mecânico: quando um dia violento completa 21 pregões e sai da conta, a vol cai de degrau, de um dia para o outro, sem que nada tenha mudado no mundo.
Trinta anos do Ibovespa numa linha

Cada ponto é quanto o índice oscilou no mês anterior àquele dia, em % ao ano, até 22/09/2026. A linha tracejada é a mediana desde 2004.
Três coisas aparecem logo. O normal é um número baixo: a mediana desde 2004 é 20,7% ao ano. Os picos são raros e enormes: 106% em 1997, quase 130% em 1998 e 1999, 111,7% em outubro de 2008 e 129,3% em 06/04/2020. E o pico chega rápido.
Em 19/02/2020, a vol do Ibovespa estava em 21,6%, praticamente na mediana. Em 13/03, em 98,6%. Em 06/04, em 129,3%. No meio do caminho, o índice foi de 116,5 mil pontos (19/02) para 63,6 mil (23/03): −45% em cinco semanas. Uma calmaria normal não avisou nada.
Outubro de 2026: a vol dobrou duas vezes em um mês
Não é preciso voltar a 2020 para ver o número se mexer. Em 22/09/2026, a vol de 21 pregões do Ibovespa estava em 14,8%: mais calma que 85% dos pregões desde 2004. Um dia típico andava 0,93%.
Em 05/10/2026, o primeiro pregão depois do primeiro turno da eleição (04/10, no calendário do TSE), o índice subiu 7,7% num dia. A vol de 21 pregões pulou de 14,7% para 29,1%. Um único dia dobrou o número, e dobrou com uma alta. A vol não distingue o susto bom do ruim: ela mede tamanho.
Antes de continuar: Em 26/10/2026, o pregão seguinte ao domingo do segundo turno, o Ibovespa caiu 13,9%. Com a vol de 23/10 em 30,0% ao ano, quantos 'dias típicos' cabem nessa queda?
a) Uns 2: foi um dia ruim, mas dentro do esperado · b) Uns 4 · c) Mais de 7
Resposta: Mais de 7. Com 30,0% ao ano, o dia típico era de 1,89%. A queda de 13,9% valeu 7,4 dias típicos de uma vez. Foi o 5º pior pregão do Ibovespa desde 1995, empatado com 16/03/2020.
Depois de 26/10, a vol de 21 pregões chegou a 61,2%, mais alta que 98% dos pregões desde 2004. Em um mês, o mesmo índice passou de um dos períodos mais calmos da série para um dos mais agitados.
14,8% vol de 21 pregões do Ibovespa em 22/09/2026 · 30,0% em 23/10/2026, com o +7,7% de 05/10 dentro da conta · 61,2% em 26/10/2026, depois do −13,9%
Repare em duas coisas. A primeira: o retrovisor de 22/09 não previu o 05/10 nem o 26/10. Ele só dizia que o último mês tinha sido calmo. A segunda: depois do dia grande de 05/10, o mercado viveu três semanas de vol perto de 30%, o dobro de setembro. É a segunda força em ação.
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