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Medir: volatilidade · Aula 3 de 6

VIX Brasil contra VIX: o medo tem CEP

Em 23/10/2026, o seguro da bolsa brasileira custava 2,27 vezes o da americana, contra 0,94 no normal de dois anos. No pregão seguinte, o Ibovespa caiu 13,9% e o VIX americano caiu junto com o dólar subindo aqui: o medo tinha endereço.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
VIX Brasil contra VIX: o medo tem CEP

Em 1 minuto

  • A divisão VIX Brasil ÷ VIX diz se o medo é do mundo, só americano ou só brasileiro.
  • No normal dos dois anos até outubro de 2026, a razão ficava em 0,94; em 21/10/2026 chegou a 2,60, o maior valor da janela.
  • Quando o medo é local, trocar uma ação da B3 por outra não protege: em 26/10/2026, 142 das 152 mais negociadas caíram.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Calcular a razão VIX Brasil ÷ VIX e compará-la com a janela certa
  • Classificar um susto em global, americano ou brasileiro
  • Saber quando diversificar dentro da B3 não muda o risco

A tese: o mesmo nível de medo pode significar coisas opostas

Um VIX Brasil em 44 parece dizer tudo sobre o momento: o mercado está com medo. Mas falta a pergunta mais útil, que nenhum número sozinho responde: medo de quê, e de onde? Um VIX Brasil alto com o mundo inteiro em pânico pede uma leitura. O mesmo VIX Brasil alto com o resto do mundo calmo pede outra, quase oposta.

Para separar as duas, basta uma divisão.

A ideia: Quando só o seguro daqui encarece, o problema é brasileiro, e espalhar o dinheiro entre ações da B3 não protege dele.

O mecanismo: três forças que dão endereço ao medo

1. Dois termômetros iguais em dois lugares. Nos Estados Unidos, a bolsa de opções de Chicago (Cboe) publica o VIX: a volatilidade implícita de 30 dias do S&P 500. É o mesmo tipo de número que a aula 2 mostrou para o BOVA11. Um mede o preço do seguro da bolsa de lá; o outro, o da bolsa daqui. Dividir um pelo outro tira o "clima do mundo" da conta e deixa só o que é local.

2. Causa comum, queda comum; causa local, queda local. Num susto global, a causa é a mesma em todo lugar e as bolsas caem juntas. Num susto brasileiro, a causa é daqui: uma eleição, uma decisão fiscal, uma crise política. Ações brasileiras de setores diferentes dividem esse risco, porque dividem o país, o juro e a moeda.

3. O risco local tem data e se resolve com ela. O susto do mundo depende de coisas que ninguém controla daqui. O brasileiro costuma ter nome e dia marcado. Quando a data passa, ou alguém decide alguma coisa, o seguro local barateia.

A conta: uma divisão

Em 22/09/2026, os fechamentos foram VIX Brasil 27,87 e VIX 14,21. Razão: 27,87 ÷ 14,21 = 1,96. O seguro da bolsa brasileira custava quase o dobro do da americana.

Para saber se isso é muito, compare com a própria história da razão. Nos dois anos até setembro de 2026, a mediana foi 0,92: na maior parte dos dias, o seguro brasileiro custou um pouco menos que o americano. Os 1,96 de 22/09 estavam colados no máximo da janela (1,98, em 18/09).

VIX Brasil e VIX desde 2017, e a razão entre os dois

Em cima, as duas séries (mediana de cada quinzena), até setembro de 2026. Embaixo, a razão: acima da linha tracejada, o seguro daqui está mais caro que o de lá.

Os três desenhos do medo

Os dois sobem juntos: susto do mundo. Em 18/03/2020, o VIX Brasil marcou 102,32 e o VIX, 76,45. A razão ficou em 1,34, perto do normal da época. Quando o mundo inteiro vende ao mesmo tempo, não há onde se esconder.

Só o de lá sobe: susto americano. Em 07/04/2025, no meio da turbulência com as tarifas anunciadas pelos EUA, o VIX foi a 46,98 e o VIX Brasil ficou em 25,43. Razão: 0,54. O susto chegou aqui, diluído.

Só o daqui sobe: susto brasileiro. Em 04/09/2018, a um mês da eleição, o VIX Brasil marcou 37,41 com o VIX em 13,16: razão de 2,84. Em 14/09/2018, chegou a 3,02, a maior desde 2017. Nada acontecia lá fora; o risco tinha data e endereço.

Data VIX Brasil VIX Razão Desenho
18/03/2020 102,32 76,45 1,34 mundo
07/04/2025 25,43 46,98 0,54 EUA
14/09/2018 36,44 12,07 3,02 Brasil
23/10/2026 44,09 19,45 2,27 Brasil

Outubro de 2026: o medo com endereço e data

O caso mais recente é do terceiro tipo, e de livro. Em 01/10/2026, a razão foi a 2,55. Em 21/10, a 2,60, o maior valor dos dois anos anteriores.

Antes de continuar: Em 23/10/2026, a razão estava em 2,27, com o VIX americano em 19,45. Em que ponto dos dois anos anteriores estava o VIX americano nesse dia?

a) No topo: o mundo estava em pânico · b) Um pouco acima do meio: mais tenso que 75% dos dias · c) No fundo: mais calmo que 95% dos dias

Resposta: Um pouco acima do meio: mais tenso que 75% dos dias. O VIX estava no percentil 75 de dois anos: um pouco tenso, nada extremo. O VIX Brasil, no percentil 100, o maior valor da janela. O medo estava aqui.

O pregão de 26/10, primeiro depois do domingo do segundo turno, mostrou o que um susto local faz. O Ibovespa caiu 13,9%. O dólar PTAX foi de R$ 5,0377 para R$ 5,5007, alta de 9,2%. E o VIX americano, no mesmo dia, caiu de 19,45 para 18,39. O mundo não sentiu; o Brasil sentiu sozinho.

Antes de continuar: Das 152 ações da B3 com pelo menos R$ 10 milhões negociados em 23/10/2026, quantas caíram em 26/10?

a) Umas 80: metade, como num dia ruim comum · b) Umas 110 · c) 142

Resposta: 142. 142 caíram, 123 delas 10% ou mais; a mediana foi −23%. Só 9 subiram, quase todas exportadoras que faturam em dólar, como SUZB3 (+10,1%), EMBJ3 (+8,9%), WEGE3 (+4,2%) e VALE3 (+4,0%).

As poucas que subiram confirmam o desenho. Quando o susto é brasileiro, a moeda cai, e quem fatura em dólar ganha em reais. A proteção veio do dólar, não de ter mais ações daqui.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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