Teste de estresse: a sua carteira em 2008, 2011–15, 2020 e 2022
Quem descobre a própria tolerância a risco no meio de uma queda descobre tarde e paga vendendo no fundo. O teste se faz antes, no papel, com quatro crises que já aconteceram e o que cada classe de ativo fez em cada uma.

Em 1 minuto
- O teste de estresse aplica crises que já aconteceram à carteira de hoje: o número que incomoda no papel daria pânico na tela.
- Cada crise teve outra cara: em 2008 o exterior em reais segurou, em 2020 o FII caiu junto, em 2011–15 a inflação comeu a renda fixa.
- A carteira com cinco classes perdeu 21,5% em 2008 e 14,1% em 2020, contra 49,6% e 36,9% de quem estava só em ações.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular a queda da sua carteira em quatro crises reais, em porcentagem e em reais
- Saber o que cada classe (CDI, IPCA+, ações, FII, exterior) fez em cada crise
- Transformar o resultado numa decisão de peso antes da próxima queda
A tese: o teste vem antes da carteira, não depois
Carteira quase nunca quebra por render pouco. Quebra por venda forçada no pior mês: a reserva estava investida em algo que caiu junto, havia dinheiro emprestado, ou a queda foi maior do que a pessoa conseguia olhar. Em todos esses casos, o problema existia antes da crise. A crise só o revelou.
O teste de estresse é revelar antes. Você pega a carteira de hoje, aplica a ela crises que já aconteceram e olha o que sobra, em reais. Se o número incomoda no papel, com café na mão, ele daria pânico às 11h de uma terça-feira de queda. A hora de mudar o peso é agora, não no fundo.
O mecanismo: três forças que o teste revela
1. Cada crise tem uma cara diferente. 2008 foi crédito global. 2011 a 2015 foi uma crise brasileira longa, fiscal e de inflação. 2020 foi um choque de semanas. 2021 e 2022 foram juro subindo. Uma carteira que atravessa bem uma delas pode sofrer na outra. Testar uma só é testar pouco.
2. As classes não caem juntas, e nem sempre se ajudam. A aula de correlação do módulo 2 mostrou que, entre ações, a diversificação some na crise. Entre classes, ela às vezes resiste e às vezes não. O teste mostra quais pernas seguraram em cada crise, em vez de supor.
3. A inflação é uma crise silenciosa. Uma carteira que "não caiu" num período de IPCA alto pode ter perdido poder de compra. O teste honesto olha o número nominal e o descontado da inflação.
As quatro crises e o que cada classe fez
Medimos cinco classes, no fechamento de cada mês, do pico ao fundo do Ibovespa em cada crise. Renda fixa pós é o CDI (o Tesouro Selic rende perto dele). IPCA+ é o IMA-B, o índice dos títulos públicos atrelados à inflação. Ações é o Ibovespa com proventos. FII é o IFIX. Exterior é o S&P 500 com dividendos, convertido em reais pelo dólar do fim de cada mês. Sem custos e sem imposto.
Antes de continuar: De maio a novembro de 2008, o Ibovespa caiu 49,6%. Quanto fez o S&P 500 com dividendos, medido em reais, no mesmo período?
a) Caiu ainda mais, uns 55% · b) Caiu parecido, uns 45% · c) Caiu uns 25% · d) Caiu só 7,2%
Resposta: Caiu só 7,2%. Caiu só 7,2% em reais. Em dólar a bolsa americana caiu 35,2%, mas o dólar subiu 43,2% contra o real no mesmo período e compensou quase toda a queda para quem estava no Brasil.
| Classe | 2008 (mai–nov) | 2011–15 (dez/10–jan/16) | 2020 (dez/19–mar/20) | 2021–22 (jun/21–jun/22) |
|---|---|---|---|---|
| Renda fixa pós (CDI) | +6,5% | +65,8% | +1,0% | +8,7% |
| IPCA+ (IMA-B) | −0,7% | +66,8% | −6,3% | +3,8% |
| Ações (Ibovespa) | −49,6% | −41,7% | −36,9% | −22,3% |
| FII (IFIX) | sem índice* | +32,3% | −22,0% | +1,5% |
| Exterior (S&P 500 em R$) | −7,2% | +316,8% | +3,7% | −6,4% |
| Inflação (IPCA) | +2,6% | +42,4% | +0,5% | +11,9% |
*O IFIX começa em 30/12/2010. Em 2008, para não fingir uma proteção que não se pode provar, a conta trata a fatia de FII como se tivesse caído junto com as ações.
Quatro leituras saem da tabela. O CDI nunca caiu em nenhuma crise: é a perna que segura o resto. O IPCA+ caiu pouco nas crises curtas e caiu 6,3% em 2020, porque o juro real subiu no susto; é renda fixa, mas marca a mercado, como o curso Renda Fixa mostra. O FII caiu junto com a bolsa no choque de 2020, embora tenha segurado nas crises de juro. E o exterior em reais foi a perna que protegeu nos choques, porque o dólar sobe quando o Brasil assusta.
Quatro carteiras, as mesmas crises
Com a tabela, o teste de uma carteira é uma soma: o peso de cada classe vezes o que ela fez na crise. Rodamos quatro misturas.
| Carteira | 2008 | 2011–15 | 2020 | 2021–22 |
|---|---|---|---|---|
| 100% ações | −49,6% | −41,7% | −36,9% | −22,3% |
| 60% ações, 40% CDI | −27,2% | +1,3% | −21,7% | −9,9% |
| 30 CDI, 10 IPCA+, 30 ações, 15 FII, 15 exterior | −21,5% | +66,3% | −14,1% | −4,4% |
| 50 CDI, 10 IPCA+, 20 ações, 10 FII, 10 exterior | −12,4% | +66,1% | −9,3% | −0,2% |
A terceira linha são os pesos de exemplo do projeto final deste curso. Não são uma recomendação: são um caso para estudar, e o projeto mostra o que acontece quando se mexe neles.
A ideia: A pior queda da carteira não é escolhida na crise. É escolhida no dia em que você decide os pesos.
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