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Atravessar a queda · Aula 4 de 6

A trava do índice: errar barato em quatro crises

Uma regra mensal de uma linha tirou o Ibovespa de 2008 antes do pior e cortou a pior queda de 20 anos de 50% para 20%. Mais da metade das saídas foram alarmes falsos, e de 2020 para cá ela perdeu do índice. Proteção boa não é a que acerta: é a que erra barato.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
A trava do índice: errar barato em quatro crises

Em 1 minuto

  • A trava é uma regra mensal: se o Ibovespa fecha o mês abaixo da média exponencial de 5 meses, o dinheiro vai para o CDI no mês seguinte.
  • Em 20 anos ela levou a pior queda de −50% para −20% e rendeu 11,2% ao ano, contra 8,8% do índice.
  • Errou 19 de 34 saídas e perdeu do índice de 2020 a 2026: ela ganha porque os erros são curtos e os acertos, enormes.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Calcular a média exponencial de 5 meses e aplicar a regra no fechamento
  • Saber o que a trava fez em 2008, 2013–16, 2020 e 2021–22, e quanto custou
  • Usar a trava como camada da carteira, não como previsão

A tese: proteger não é acertar, é errar barato

Depois de toda crise, a pergunta é a mesma: dava para ter saído antes? Não no topo, que ninguém acerta. Mas antes do pior? A resposta curta é "em boa parte, sim", com uma regra que qualquer pessoa aplica uma vez por mês. A resposta longa é a que interessa: essa regra erra mais do que acerta, tem anos ruins e mesmo assim cortou a pior queda de 20 anos de bolsa pela metade.

Quem procura uma proteção que nunca erra não encontra. O que existe são regras cujo erro é pequeno e cujo acerto é grande. Esta aula mede uma delas, com o custo à mostra.

A trava em uma frase

No último pregão de cada mês, olhe o fechamento do Ibovespa. Se fechou abaixo da média exponencial dos últimos 5 fechamentos mensais, o dinheiro da bolsa vai para o CDI no mês seguinte. Se fechou acima, fica na bolsa.

A média exponencial de 5 meses (EMA-5) é uma média dos fechamentos mensais que dá mais peso aos meses recentes. A conta de cada mês é: EMA nova = EMA anterior + (fechamento − EMA anterior) ÷ 3. No Quantor, essa linha se chama régua. Aplicada ao índice inteiro, ela vira a trava. A regra é pública, não tem parâmetro escondido e não depende de previsão nenhuma.

O mecanismo: três forças que fazem a regra funcionar

1. Crises grandes costumam começar com um mês ruim. Raramente o mercado cai 50% num dia. O comum é um mês de queda, depois outro, depois o pior. A trava não vê o primeiro tombo, mas costuma sair antes do terceiro.

2. O caixa no Brasil rende. Fora da bolsa, o dinheiro não fica parado: vai para o CDI. Com juro alto, ficar de fora num mês em que a bolsa andou de lado custa pouco, e às vezes rende mais que ficar dentro.

3. Os erros são curtos e os acertos, longos. Quando a trava sai e a bolsa volta logo, ela volta no mês seguinte ou no outro: o erro é perder um ou dois meses de alta. Quando acerta, fica fora durante a crise inteira. A assimetria entre os dois é o que paga a conta.

O resultado em 20 anos

Simulamos a regra de dezembro de 2005 a setembro de 2026, 250 meses, com o Ibovespa somando os proventos e o CDI nos meses fora, sem custos nem imposto.

11,2% a.a. com a trava · 8,8% a.a. Ibovespa sempre dentro · −20% pior queda com a trava · −50% pior queda do índice

R$ 1.000 viraram cerca de R$ 9.000 com a trava e R$ 5.800 no índice. O CDI sozinho rendeu 10,2% ao ano. O dinheiro passou 96 dos 250 meses no CDI, quase 40% do tempo.

Quatro crises, a mesma regra

2008: a saída que valeu a década. O Ibovespa fechou maio de 2008 em 72.592 pontos, acima da régua. Em junho fechou em 65.018, abaixo dela, e a trava saiu no começo de julho. Nos nove meses seguintes, fora da bolsa, o índice caiu 37% e o CDI rendeu 9,5%. A volta veio em abril de 2009, já no começo da recuperação. De junho de 2008 a junho de 2009, o índice terminou em −29%; com a trava, em +23%.

2013 a 2016: a queda lenta. Três anos de queda com muitos repiques, as altas curtas no meio do caminho. A trava entrou e saiu várias vezes e passou 24 meses no CDI. O índice terminou o período em −30%; a trava, em +9%.

2020: o choque rápido. O Ibovespa fechou fevereiro abaixo da régua e a trava estava fora em março, quando o índice caiu 30% num mês. Perdeu a recuperação de abril a junho e ainda assim saiu na frente nesses quatro meses. O que custou foi outra saída, em outubro, logo antes de uma alta de 16% em novembro. No ano, o índice fez +3% e a trava, −1%.

2021 e 2022: juro subindo, bolsa de lado para baixo. A pior queda do período foi de −22% no índice e de −10% com a trava.

O número que quase ninguém conta: os alarmes falsos

Antes de continuar: A trava saiu da bolsa 34 vezes em 20 anos. Em quantas o Ibovespa rendeu mais que o CDI enquanto ela estava fora, ou seja, a saída foi um erro?

a) 3 ou 4: ela quase sempre acerta · b) Umas 10 · c) 19: mais da metade · d) Todas menos as de 2008 e 2020

Resposta: 19: mais da metade. Foram 19 de 34. Mais da metade das saídas errou, e mesmo assim a regra ganhou do índice por 2,4 pontos por ano.

A conta fecha porque cada erro foi pequeno, um ou dois meses fora numa alta, e cada acerto foi grande. Só a saída de julho de 2008 evitou uma queda de 37%. Para a regra empatar com o índice, os erros precisariam ser longos ou os acertos, pequenos. Nos 20 anos medidos, não foram.

A ideia: Uma boa regra de proteção não precisa acertar muito. Precisa errar barato.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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