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A mecânica da B3 e os eventos · Aula 10 de 11

Recompra: o dividendo que ninguém declarou

Quando a empresa compra as próprias ações, a sua fatia cresce sem você fazer nada. Mas, ao contrário do dividendo, a recompra só cria valor se o preço pago for bom, e programa anunciado não obriga ninguém a comprar.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Recompra: o dividendo que ninguém declarou

Em 1 minuto

  • Na recompra, a empresa compra a fatia de quem quis vender; se cancela as ações, cada uma que sobra vale uma parte maior da empresa.
  • Cancelar 10% das ações sobe o lucro por ação em 11%, mas isso é divisão: a recompra só cria valor se o preço pago for menor que o que a ação vale.
  • O teste rápido é inverter o P/L: em 23/09/2026, a PETR4 rendia 20,9% de lucro por real recomprado, a VALE3 3,4%, contra uma Selic de 13,75%.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Calcular o efeito de uma recompra no lucro por ação e na sua fatia
  • Inverter o P/L e comparar o rendimento do lucro com a Selic
  • Separar programa anunciado, ação em tesouraria e ação cancelada

A tese: recompra concentra a propriedade, e o preço decide se foi bom

Uma empresa que gerou caixa tem, grosso modo, três destinos para ele: investir no negócio, pagar dividendos ou recomprar as próprias ações na bolsa. Na recompra, ela compra a fatia de quem quis vender. Se depois cancela essas ações, sobram menos pedaços, e cada um vale uma parte maior da empresa. A sua fatia cresce sem você fazer nada.

Parece um dividendo disfarçado, e em parte é. Mas há uma diferença decisiva. Um dividendo de R$ 1 é R$ 1, com a ação a R$ 20 ou a R$ 60.

A ideia: Uma recompra só cria valor se a empresa pagar menos do que a ação vale. Se pagar caro, destrói o dinheiro que era dos sócios.

Para uma carteira de longo prazo, a recompra tem um atrativo que o dividendo não tem: não gera evento de caixa nem imposto para quem fica. A fatia cresce dentro da posição. Mas isso só é vantagem quando o preço está do lado certo, e é exatamente isso que o anúncio não diz.

O mecanismo: três forças, uma a favor e duas contra

1. A divisão a favor. Uma empresa lucra R$ 10 bilhões e tem 10 bilhões de ações: lucro por ação de R$ 1,00. Ela recompra e cancela 10% das ações. O lucro é o mesmo; as ações agora são 9 bilhões; o lucro por ação vai a R$ 1,11, +11%, sem vender um produto a mais. Quem tinha 1 milhão de ações passou de 0,0100% para 0,0111% da empresa.

2. O custo do dinheiro contra. O caixa gasto na recompra poderia render juros ou pagar dívida. Para comparar, inverta o P/L (preço dividido pelo lucro por ação): o resultado é o rendimento do lucro, quanto de lucro a empresa "compra" por real gasto nas próprias ações. P/L 7 é 14,3% ao ano; P/L 30, 3,3%. Se o caixa rende mais do que isso sem risco, a recompra está cara.

3. A discricionariedade contra. O programa aprovado pelo conselho é uma autorização, com prazo e limite, não uma obrigação. Pela regra da CVM, dura no máximo 18 meses, e a empresa não pode manter em tesouraria mais de 10% de cada classe de ações em circulação. Dentro disso, compra quanto quiser, inclusive nada.

O teste com números de hoje

Em 23/09/2026, com a Selic em 13,75%, o rendimento do lucro de quatro ações grandes, com o lucro dos últimos 12 meses:

Antes de continuar: Em 23/09/2026, a VALE3 negociava a P/L 29,5. Quanto lucro, por ano, a empresa comprava a cada R$ 100 gastos nas próprias ações?

a) Uns R$ 14, perto da Selic · b) Uns R$ 9 · c) Uns R$ 3,40

Resposta: Uns R$ 3,40. 1 ÷ 29,5 = 3,4%: R$ 3,40 de lucro por R$ 100. Bem abaixo dos 13,75% da Selic. A PETR4, a P/L 4,8, dava 20,9%.

Papel P/L em 23/09/2026 Rendimento do lucro Contra a Selic de 13,75%
PETR4 4,8 20,9% acima
BBAS3 10,3 9,7% abaixo
ITUB4 ≈10,4 9,6% abaixo
VALE3 29,5 3,4% bem abaixo

A Vale é um bom exemplo para exercitar a leitura. Em 30/07/2026, junto com os proventos do segundo trimestre, o conselho aprovou um programa de recompra de até 100 milhões de ações, cerca de 2,3% das ações em circulação, em 18 meses. Pelo P/L dos últimos 12 meses, a recompra rende bem menos que a Selic. Mas o retorno sobre o patrimônio da empresa estava em 5,3%, o que levanta a dúvida: esse lucro de 12 meses é o normal da Vale ou foi puxado para baixo por algum efeito pontual? A pergunta certa vira: qual é o lucro normal? O P/L de 12 meses é o começo da conta, não o fim. Não é recomendação de compra nem de venda.

+11% no lucro por ação ao cancelar 10% das ações: só divisão · 20,9% rendimento do lucro da PETR4 em 23/09/2026 · 3,4% o da VALE3 no mesmo dia, contra 13,75% da Selic

Três armadilhas que fazem toda recompra parecer boa

O anúncio é barato; a execução é opcional. Muita empresa executa só uma parte do programa, e a parte não executada custou zero e rendeu manchete. A prova está no número de ações em circulação um ano depois, não no comunicado.

A recompra que só tapa a diluição. Empresa que paga executivos com ações cria ações novas todo ano e depois recompra para "neutralizar". O caixa sai, o número de ações não cai. Não é devolução de dinheiro; é o custo de um salário pago em ações.

Ação em tesouraria não é ação cancelada. A empresa pode guardar as ações recompradas e vendê-las de novo mais tarde, até a um preço menor. Só o cancelamento reduz o número de ações para sempre.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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