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A mecânica da B3 e os eventos · Aula 5 de 11

Focus e Copom: o consenso que ninguém lê direito

O boletim Focus é a mediana do que cerca de 140 instituições esperam, e o mercado já negocia em cima disso antes de você ler. Em 25 anos, a Selic de fim de ano errou a previsão de janeiro por 2,25 pontos na mediana. A informação útil está na distância entre o Focus e a curva, e no tamanho da discordância.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Focus e Copom: o consenso que ninguém lê direito

Em 1 minuto

  • O Focus é a mediana do que os economistas esperam; o mercado já negocia em cima dele antes de o boletim sair.
  • Em 25 anos, a previsão de janeiro para a Selic de dezembro errou por 2 pontos ou mais em 15 anos, quase sempre nas viradas de ciclo.
  • A informação útil está na distância entre o Focus e as taxas negociadas (0,8 ponto em 25/09/2026, 2,4 pontos em 26/10/2026) e na faixa entre a resposta mais baixa e a mais alta.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Ler o Focus pela faixa e pela trajetória, não só pela mediana
  • Comparar o caminho do Focus com a taxa de um prefixado e achar o prêmio que o mercado cobra
  • Separar a decisão do Copom, que quase nunca surpreende, do texto, que às vezes surpreende

A tese: consenso já é preço

Toda segunda-feira, o Banco Central publica o boletim Focus: uma pesquisa com bancos, gestoras e consultorias sobre o que esperam para a Selic, a inflação, o dólar e o crescimento. Em 23/10/2026, 137 instituições responderam sobre a Selic de fim de ano. A manchete pega a mediana, o valor do meio das respostas, e a trata como previsão.

Oito vezes por ano, o Copom, o comitê do Banco Central que decide a Selic, se reúne por dois dias. A decisão sai na quarta-feira à noite, num comunicado; a ata, com o raciocínio do comitê, sai na terça seguinte.

Entre um e outro, o mercado não fica esperando. O que os economistas esperam já está nas taxas de juros negociadas antes de você abrir o boletim.

A ideia: O consenso é o preço. A discordância é a informação.

Para quem monta uma carteira para atravessar crise, isso importa por um motivo prático. A parte de renda fixa, o IPCA+ e até o valor das ações dependem do juro dos próximos anos. Quem trata a mediana do Focus como certeza monta a carteira para um único cenário, e o histórico mostra que esse cenário erra justamente quando mais importa.

O mecanismo: três forças que fazem o consenso errar junto

1. A mediana resume, não prevê. Ela diz o que a instituição do meio da fila pensa. Se todas olham os mesmos dados, com os mesmos modelos, erram na mesma direção. Errar junto não custa reputação a ninguém; errar sozinho custa.

2. O consenso corre atrás da Selic. O Copom costuma fazer, em cada reunião, mais ou menos o que o mercado espera naquela semana. O Focus acerta bem o passo seguinte e ajusta a trajetória a cada decisão. O resultado é um consenso que chega atrasado nas viradas.

3. O dinheiro cobra pelo que pode dar errado. Quem empresta a uma taxa fixa por dois anos não aceita a Selic média que os economistas projetam. Cobra um prêmio pela chance de a inflação ou as contas públicas surpreenderem. Por isso a curva de juros quase nunca coincide com o Focus, e a distância entre os dois é um termômetro do medo.

O que 25 anos de Focus mostram

Para cada ano de 2001 a 2025, comparamos a mediana da primeira pesquisa de janeiro para a Selic de fim de ano com a Selic que de fato estava em vigor em 31 de dezembro.

Antes de continuar: Em quantos desses 25 anos a previsão de janeiro errou a Selic de dezembro por 2 pontos percentuais ou mais?

a) Em 3 ou 4 anos, nas grandes crises · b) Em uns 8 anos · c) Em 15 anos, mais da metade

Resposta: Em 15 anos, mais da metade. 15 de 25. O erro mediano foi de 2,25 pontos. Só em 5 anos (2007, 2010, 2018, 2023 e 2025) a previsão ficou a meio ponto ou menos do resultado.

Ano Focus de janeiro para dezembro Selic em 31/12 Erro
2002 17,00% 25,00% +8,00
2009 12,00% 8,75% −3,25
2013 7,25% 10,00% +2,75
2017 10,25% 7,00% −3,25
2021 3,25% 9,25% +6,00
2024 9,00% 12,25% +3,25
2025 15,00% 15,00% 0

Os erros grandes têm uma coisa em comum: são viradas. Em 2009, a crise global fez o Banco Central cortar mais do que se esperava. Em 2013 e 2021, a inflação forçou altas que ninguém tinha na conta. Em 2025, o ciclo de alta já estava em curso e visível desde o fim de 2024, e o Focus acertou em cheio. O Focus descreve bem uma tendência já iniciada e é fraco justamente nas viradas. A direção também não é garantida: em 10 dos 25 anos, a Selic andou para um lado diferente do que a mediana de janeiro esperava (subiu quando se esperava queda, ou o contrário).

A inflação conta a mesma história. Em 16 dos 25 anos, o IPCA terminou acima do que o Focus de janeiro previa. Em 2021, a mediana esperava 3,32% e a inflação foi de 10,06%.

O caso de 2021: errar o caminho acertando o passo

Em janeiro de 2021, com a Selic em 2%, a mediana esperava 3,25% em dezembro. Foi 9,25%. Para o fim de 2022, a mesma pesquisa esperava 4,75%. Foi 13,75%: um erro de 9 pontos em dois anos, não de um economista distraído, mas da mediana de 84 instituições (78 na pergunta sobre 2022), todas deslocadas na mesma direção pela inflação que persistiu depois da pandemia.

E em cada reunião daquele período, o Copom fez mais ou menos o que o mercado esperava na semana. O Focus acertava o passo e errava o caminho. Quem tinha travado um IPCA+ longo em dezembro de 2020 viu, nesses dois anos, a queda de 30% que o curso Renda Fixa com Dados mostra em detalhe.

Hoje: o que os economistas dizem e o que o dinheiro cobra

Em 17/09/2026, o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75%, o quinto corte desde março (o pico foi 15%, de junho de 2025 a março de 2026). Em janeiro de 2026, a mediana esperava 12,25% para o fim do ano. Em 23/10/2026, esperava 13,25%. De novo, o consenso veio subindo atrás da Selic.

Agora a comparação que importa. Em 25/09/2026, o caminho do Focus para as reuniões até dezembro de 2027 dava uma Selic média de cerca de 13,0% até 01/01/2028. O Tesouro Prefixado 2028, que vence nesse dia, pagava 13,79%. O mercado cobrava 0,8 ponto acima do caminho do consenso.

Antes de continuar: Um mês depois, em 26/10/2026, dia do choque do câmbio, o Focus mal tinha mudado (ainda esperava cortes). O que aconteceu com a distância entre o Prefixado 2028 e o caminho do Focus?

a) Fechou: o mercado concordou com os economistas · b) Ficou perto de 0,8 ponto · c) Triplicou, para cerca de 2,4 pontos

Resposta: Triplicou, para cerca de 2,4 pontos. O Prefixado 2028 foi a 14,93%, enquanto o caminho do Focus de 23/10 dava uma Selic média de 12,5%: 2,4 pontos de distância. Os economistas não tinham mudado de ideia; o dinheiro tinha.

0,8 ponto Prefixado 2028 acima do caminho do Focus, em 25/09/2026 · 2,4 pontos a mesma distância em 26/10/2026 · 9% a 14% a faixa das respostas para a Selic do fim de 2027, em 23/10/2026

A terceira leitura é a discordância. Em 23/10/2026, as respostas para a Selic do fim de 2027 iam de 9% a 14%, com mediana de 11,75%: 5 pontos entre os extremos. Faixa larga quer dizer que ninguém sabe onde os juros vão se acomodar, e é aí que as surpresas acontecem.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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