Entrar
Juros: a curva que manda · Aula 5 de 6

Operar juros: o curto dá a direção, o longo dá o retorno

A regra "juro caindo, compre o título longo" funciona quando o juro lido é o curto. Lida na taxa do próprio título longo, a mesma regra rendeu menos que segurar.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
Operar juros: o curto dá a direção, o longo dá o retorno

Em 1 minuto

  • O juro curto reage ao Copom; o longo reage a tudo, e por isso a direção se lê no curto e o retorno se colhe no longo.
  • Trocar entre o CDI e o IPCA+ mais longo pela régua do prefixado de 2 anos rendeu 17,2% ao ano no papel desde 2005, contra 13,6% de segurar e 10,4% do CDI.
  • A mesma régua lida na taxa do próprio título longo rendeu 11,3%, e o corte da Selic sozinho falhou em 2023–2024.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Ler a direção do juro no prefixado de 2 anos
  • Estimar quanto um título longo ganha ou perde num ponto de taxa
  • Saber por que o sinal mensal falha em choques

A tese: o título longo não avisa, o curto sim

A regra que todo mundo repete é simples: juro subindo, fique no pós; juro caindo, trave no pré e compre o IPCA+ longo. Quando o juro cai, o título longo ganha preço, e quanto mais longo, mais ganha. Quando sobe, ele perde, e o Tesouro Selic passa a render mais sem oscilar. O curso Renda Fixa com Dados, módulo 2, mostra a marcação a mercado e a duration por dentro.

O problema está na palavra "juro". Qual juro? O da Selic, o do prefixado de 2 anos ou a taxa do próprio título longo? Parece detalhe, e não é.

A ideia: O juro curto reage ao Copom. O juro longo reage a tudo: ao Copom, ao fiscal, ao dólar, ao juro americano, ao humor do dia. Quem lê a direção no longo lê barulho.

Quanto o título longo balança

Antes do teste, a escala do que está em jogo. Um título sem cupom com 24 anos de prazo, a uma taxa real de 7,05% (a do IPCA+ mais longo em setembro de 2026), perde 20,0% do preço se a taxa subir 1 ponto e ganha 25,3% se cair 1 ponto. Um prefixado de 2 anos, no mesmo choque de 1 ponto, mexe menos de 2%.

É essa assimetria de tamanho que torna o título longo o melhor lugar para colher um ciclo de queda de juro, e o pior lugar para descobrir que o ciclo virou.

O teste: 251 meses, uma decisão por mês

A regra testada é esta. No último pregão de cada mês, olha-se o Tesouro Prefixado de 2 anos em prazo constante, o mesmo da aba Juros, contra a régua: a média exponencial dos últimos 5 fechamentos mensais.

  • Fechou abaixo da régua (juro caindo): o dinheiro vai para o Tesouro IPCA+ sem cupom mais longo à venda (hoje, o 2050).
  • Fechou acima (juro subindo): o dinheiro fica no CDI, que é o que o Tesouro Selic entrega.

Tudo com os preços diários publicados pelo Tesouro Direto, de dezembro de 2005 a setembro de 2026, marcado a mercado todo mês, sem custo e sem imposto. A aula 6 põe os dois.

Antes de continuar: No papel, de 2005 a 2026, quanto rendeu ao ano trocar entre o CDI e o IPCA+ longo pela régua do prefixado de 2 anos? (Segurar o título rendeu 13,6%; o CDI, 10,4%.)

a) Uns 11%: trocar atrapalha · b) Uns 14%: um pouco melhor que segurar · c) Uns 17%: bem melhor, e com queda menor

Resposta: Uns 17%: bem melhor, e com queda menor. 17,2% ao ano, com a pior queda caindo de −41% para −27%. A estratégia ficou no título 55% do tempo e trocou de lado 34 vezes, menos de duas por ano.

O resultado: 17,2% ao ano, contra 13,6% de segurar o IPCA+ longo o tempo todo e 10,4% do CDI. A pior queda caiu de −41% para −27%. A estratégia ficou no título 55% do tempo e trocou de lado 34 vezes em quase 21 anos. Uma versão mais calma, metade IPCA+ longo e metade prefixado longo com a régua em queda, rendeu 15,5% ao ano com pior queda de −15%.

17,2% ao ano, a régua do prefixado de 2 anos, no papel · 13,6% ao ano, segurar o IPCA+ longo o tempo todo · −27% a pior queda da régua, contra −41% de segurar

Os anos que fizeram a diferença foram os de tombo. Em 2013, o IPCA+ longo caiu 31,5%; a régua virou para alta no fim de fevereiro, e a estratégia terminou o ano com +11,2%. Em 2021, o título caiu 23,2% e a régua fechou o ano com +1,1%. Em 2024, −19,2% do título contra +1,6% da régua. Em 2016 e 2019, ela ficou o ano quase todo no título e pegou 56% e 63%.

O mês bom e o mês ruim

O retrato mais limpo do teste é o que o título fez no mês seguinte a cada leitura. Com a régua em queda, o IPCA+ longo rendeu em média 1,11 ponto a mais que o CDI por mês. Com ela em alta, 0,39 ponto a menos. No prefixado longo, de duration menor, o efeito é o mesmo em escala menor: +0,45 contra −0,03.

A régua não acerta todo mês. Com ela em queda, o IPCA+ ganhou do CDI em 57% dos meses, pouco mais que uma moeda. O que ela separa é o tamanho dos ganhos e das perdas, não a frequência.

Por que o curto, e não o longo

A mesma troca foi testada com cinco sinais diferentes. A régua do prefixado de 2 anos e a direção do Copom (o último movimento da Selic foi corte ou alta) chegaram ao mesmo lugar: 17,2% e 17,1% ao ano. A régua do prefixado de 5 anos ficou no meio. E a régua aplicada à taxa do próprio IPCA+ longo foi a pior de todas: 11,3% ao ano, menos que segurar o título, com 62 trocas e a mesma queda de −42%.

Três forças explicam isso:

1. O Copom anda em ciclos longos. Desde 2005, a direção da Selic mudou só 10 vezes. Um ciclo de cortes dura anos, e o título longo é quem mais ganha nele.

2. O juro curto antecipa o Copom. O prefixado de 2 anos começa a cair quando o mercado passa a esperar cortes, antes do primeiro corte. A aula 1 mostrou o mesmo na curva DI: a reunião de setembro de 2026 estava no preço quatro semanas antes. Por isso a régua do curto e a direção do Copom contam quase a mesma história, mas a régua chega antes.

3. O longo carrega um prêmio que balança sozinho. Uma notícia fiscal ou um susto lá fora mexem na taxa de 25 anos sem mudar o ciclo. A aula 2 mostrou um pregão em que o longo andou 1,35 ponto e o curto 0,12. A régua lida no longo vira um vaivém: entra e sai no meio do barulho e paga o tranco das duas pontas.

Voltar à trilha Juros: a curva que mandaTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.