Março de 2020: o mês em que a diversificação não existiu
Em 40 pregões o Ibovespa perdeu 47%, e quase tudo caiu junto: banco, cerveja, fundo imobiliário, small caps. O dólar subiu 22%. Desta vez o Banco Central cortou o juro no meio da crise, e o que salvou a carteira foi o que estava decidido antes.

Em 1 minuto
- Em março de 2020, banco, cerveja, fundo imobiliário e small caps caíram juntos: quem vende em pânico vende o que tem comprador, não o que quer.
- O Ibovespa perdeu 47% em 40 pregões e o VIX Brasil chegou a 102,3; só o dólar e o caixa subiram ou ficaram parados.
- A régua saiu antes do pior e voltou em junho, mas devolveu a vantagem num serrote no segundo semestre: o que protegeu foi o caixa e o dólar decididos antes.
Ao fim desta aula você vai saber
- Testar a carteira pelo pior mês, não pela média
- Ler um corte de juro de emergência sem confundir com o de 2016
- Calcular quanto uma fatia em dólar muda a queda de uma carteira diversificada
A tese: no mês que decide tudo, só protege o que não é risco
Diversificar é ter coisas diferentes na carteira para que elas não caiam todas ao mesmo tempo. É a regra mais repetida do investimento, e ela funciona na maior parte dos meses.
Em março de 2020, não funcionou. A pandemia chegou ao mundo e, por algumas semanas, ações de banco, de cerveja, de varejo, fundos imobiliários e small caps se comportaram como se fossem um papel só.
A ideia: Diversificação protege nos meses normais. Nos meses que decidem tudo, só protege o que não é risco: em 2020, o dólar e o caixa, e só para quem já tinha os dois antes.
O ano inteiro em um gráfico

As linhas vermelhas finas marcam os pregões com circuit breaker. Embaixo, o VIX Brasil; pânico começa em 35.
O topo foi em 23 de janeiro: 119,5 mil pontos. O fundo, em 23 de março: 63,6 mil. −47% em 40 pregões, e 19 deles bastaram para ir de 113,7 mil, na sexta antes do Carnaval, até o fundo.
Março teve as maiores quedas diárias desde 1998: −12,2% em 9 de março, −14,8% no dia 12, −13,9% no dia 16, −10,3% no dia 18. Em cinco pregões a B3 acionou o circuit breaker, a parada automática quando a queda chega a 10%. E teve também dias de alta enorme: +13,9% em 13 de março, +9,7% em 24 de março. Quem tentava operar pela notícia apanhava nos dois sentidos.
Antes de continuar: O VIX Brasil estava perto de 21 no começo de fevereiro de 2020. A faixa de pânico começa em 35. Até onde ele foi em março?
a) Uns 40 · b) Uns 55 · c) Uns 75 · d) Mais de 100
Resposta: Mais de 100. Chegou a 102,3 em 18 de março, quase três vezes o limite do pânico. Um número desses quer dizer que o mercado cobrava por um dia típico uma oscilação de mais de 6%.
O mecanismo: três forças que fazem tudo cair junto
1. Quem vende em pânico vende o que consegue, não o que quer. Um fundo com resgates, um investidor com margem para cobrir: eles vendem o que tem comprador naquela hora. A qualidade da empresa não entra na conta.
2. A dívida liga mercados que não têm nada em comum. Quem perde na bolsa vende o fundo imobiliário para cobrir; quem perde no fundo imobiliário vende outra coisa. O que liga um galpão logístico a uma varejista, nesse dia, é o balanço de quem precisa vender os dois.
3. Mais volatilidade manda vender mais. Muitos fundos reduzem a exposição quando a oscilação sobe. A venda faz o preço cair, a queda faz a oscilação subir, e a oscilação manda vender de novo.
O resultado, do fechamento de janeiro ao de março:
| Ativo | Variação, com proventos |
|---|---|
| ITUB4 (banco) | −27% |
| ABEV3 (consumo básico) | −33% |
| SMAL11 (small caps) | −43% |
| HGLG11 (fundo imobiliário de galpões) | −17% |
| RENT3 e PETR4 | −51% |
| Dólar (PTAX) | +21,8% |
O dólar foi de R$ 4,27 para R$ 5,20 e só faria o pico em maio, perto de R$ 5,94. O curso Carteira à Prova de Crise mostra como medir, antes da crise, a correlação que some quando você mais precisa dela.
O que a régua, o juro e o dólar diziam no mês
| Mês | Ibovespa no fechamento | Régua | Selic meta | Focus: Selic no fim do ano | Dólar médio do mês |
|---|---|---|---|---|---|
| jan/20 | 113,8 mil | alta | 4,50% | 4,25% (fim de 2020) | R$ 4,15 |
| fev/20 | 104,2 mil | baixa | 4,25% | 4,25% (fim de 2020) | R$ 4,34 |
| mar/20 | 73,0 mil | baixa | 3,75% | 3,25% (fim de 2020) | R$ 4,88 |
| mai/20 | 87,4 mil | baixa | 3,00% | 2,25% (fim de 2020) | R$ 5,64 |
| jun/20 | 95,1 mil | alta | 2,25% | 2,00% (fim de 2020) | R$ 5,20 |
| dez/20 | 119,3 mil | alta | 2,00% | 2,00% (fim de 2020) | R$ 5,15 |
Selic meta no fim do mês (SGS 432); Focus: mediana do último boletim do mês (BCB, Expectativas de Mercado); dólar médio do mês (SGS 3698). O swap de 360 dias que as aulas 1 a 4 usam deixou de ser publicado em 30/09/2019.
Compare com 2008. Lá, o Banco Central subiu o juro no meio da queda. Aqui, cortou cinco vezes entre fevereiro e agosto: 4,25% em fevereiro, 3,75% em março, 3% em maio, 2,25% em junho e 2% em agosto. O Focus correu atrás, de 4,25% para 2% no fim do ano. Juro caindo, desta vez, não era a boa notícia de 2016: era o incêndio sendo apagado. E o dólar subiu durante quase todo o semestre, porque com juro de 2% o real deixou de pagar para ser segurado. O módulo 3 explica esse "aluguel" do real.
A régua: salvou março, perdeu no outono
O fechamento de fevereiro, 104,2 mil, ficou abaixo da média exponencial dos últimos cinco meses. A régua saiu antes do pior, 12,8% abaixo do topo, e escapou dos −30% de março. Voltou no fechamento de junho, a 95,1 mil.
Mas o ano não acabou ali. Em setembro e outubro o índice fechou abaixo da média de novo (94,6 mil e 94,0 mil) e a régua saiu; em novembro voltou, a 108,9 mil, 15% mais caro. Resultado de 2020: segurar o índice deu +2,9%; a régua com o caixa na Selic, −0,7%. Ela evitou o crash e devolveu a vantagem no serrote. Honestidade sobre uma regra inclui os anos em que ela não ganha.
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