2018: a greve, a eleição e o susto que não era ciclo
Em 2018 o Ibovespa caiu 19% em um mês e depois subiu 4,6% num único pregão. O juro de mercado cobrou uma alta da Selic que nunca veio, e a régua pagou um pedágio pequeno. Caro mesmo foi vender no pânico e voltar depois.

Em 1 minuto
- Evento é um susto com data: uma greve, uma gravação, uma eleição. Derruba o preço de uma vez e se resolve em semanas; ciclo muda a tendência por anos.
- Em 2018, a greve derrubou o Ibovespa 19% em um mês, o juro de 1 ano subiu quase 2 pontos com a Selic parada e o medo foi a 36,2 antes da eleição, para cair a 19,0 num fim de semana.
- A régua serrou e custou cerca de 3% por ida e volta; vender no fundo de junho e voltar em outubro custou 23%.
Ao fim desta aula você vai saber
- Separar um evento de um ciclo antes de mexer na carteira
- Ler o medo com data marcada no VIX Brasil e no juro de mercado
- Comparar o pedágio da régua com o custo do pânico
A tese: evento mexe com o medo; ciclo mexe com a tendência
As aulas anteriores foram de ciclos: quedas e altas que duraram meses ou anos. Esta é sobre outra coisa, que assusta tanto quanto e dura muito menos: o evento. Uma greve, uma gravação vazada, uma eleição. Algo com data, que derruba o preço de uma vez e depois se resolve.
2018 teve dois em seis meses. E 2017 tinha tido um ensaio.
A ideia: Evento mexe com o medo por semanas; ciclo mexe com a tendência por anos. Confundir os dois é o jeito mais comum de vender no fundo e recomprar no alto.
O ensaio: 18 de maio de 2017
Na noite de 17 de maio de 2017 veio a público a gravação de uma conversa do então presidente com um empresário. No dia seguinte o pregão abriu com circuit breaker, a parada automática da B3 quando o índice cai 10%, e o Ibovespa fechou em −8,8%, a 61,6 mil.
A régua mensal, que compara o fechamento do mês com a média exponencial dos últimos cinco, virou para baixa no fechamento de maio, a 62,7 mil. Voltou para alta no fechamento de julho, a 65,9 mil. Quem seguiu saiu e voltou 5% mais caro. O índice terminou 2017 a 76,4 mil.
Greve em maio, eleição em outubro

Faixas vermelhas: meses em que a régua estava em baixa. Embaixo, o VIX Brasil, o medo medido nas opções do BOVA11.
O índice estava em 86,5 mil em 16 de maio. Em 21 de maio começou a greve dos caminhoneiros, que parou estradas e desabasteceu o país. Somou-se a um ano ruim para emergentes, e o dólar subiu até R$ 4,19 em setembro. Em 18 de junho, o Ibovespa marcava 69,8 mil: −19% em um mês.
Antes de continuar: Na sexta-feira antes do 1º turno de 2018, 05/10, o VIX Brasil estava em 36,2, faixa de pânico. Onde ele estava na segunda-feira, 08/10?
a) Mais alto, perto de 45 · b) Mais ou menos igual, uns 35 · c) Uns 28 · d) Uns 19
Resposta: Uns 19. 19,0. Metade do medo sumiu num fim de semana, porque a dúvida que ele precificava tinha sido resolvida. O Ibovespa subiu 4,6% no mesmo pregão.
Depois veio a eleição. No primeiro pregão após o 1º turno, em 8 de outubro, o índice subiu 4,6% num dia só, voltando a 86,1 mil. Fechou o ano a 87,9 mil e passou de 115 mil no fim de 2019.
O mecanismo: três forças de um evento com data
1. O medo se concentra antes da data. O VIX Brasil mede quanto o mercado cobra por um seguro contra queda do BOVA11 nos próximos 30 dias. Abaixo de 20 é calmo; de 20 a 25, normal; de 25 a 35, nervoso; acima de 35, pânico. Ele subiu na greve (28,7 em 7 de junho) e mais ainda antes da eleição: 36,2 na sexta, 5 de outubro; 19,0 na segunda, 8 de outubro. No último pregão antes do 2º turno de 2014, em 24 de outubro, estava em 62,5; no pregão seguinte à eleição, 27,7. Seguro contra um resultado que ainda não saiu fica caro; depois que sai, perde o motivo.
2. O juro de mercado cobra o pior cenário. O susto não ficou só na bolsa. O juro de 1 ano no mercado saiu de 6,38% em abril para 8,19% em agosto, enquanto a Selic ficava parada em 6,5% e o Focus esperava 6,5% no fim do ano. O mercado cobrou quase 1,7 ponto de alta que o Copom nunca fez. Quando a dúvida passou, a cobrança caiu junto: 7,0% em outubro.
3. A tendência de fundo era de alta. Em 2018 a régua vinha em alta desde março de 2016, com uma única pausa de dois meses em 2017. O lucro das empresas não tinha mudado de direção. O evento mexeu no preço; não mexeu no que o preço estava medindo.
O que a régua, o juro e o dólar diziam no mês
| Mês | Ibovespa no fechamento | Régua | Selic meta | Juro de 1 ano no mercado (swap 360 d) | Dólar médio do mês |
|---|---|---|---|---|---|
| abr/18 | 86,1 mil | alta | 6,50% | 6,38% | R$ 3,41 |
| mai/18 | 76,8 mil | baixa | 6,50% | 7,22% | R$ 3,64 |
| jun/18 | 72,8 mil | baixa | 6,50% | 7,58% | R$ 3,77 |
| ago/18 | 76,7 mil | baixa | 6,50% | 8,19% | R$ 3,93 |
| set/18 | 79,3 mil | alta | 6,50% | 7,95% | R$ 4,12 |
| out/18 | 87,4 mil | alta | 6,50% | 7,00% | R$ 3,76 |
Selic meta no fim do mês (SGS 432); swap DI × pré de 360 dias (SGS 7806); dólar médio do mês (SGS 3698).
A coluna da Selic não mexe, e é isso que torna a tabela útil. Tudo o que se moveu, o índice, o juro de mercado e o dólar, se moveu por medo, não por decisão do Banco Central. Em outubro, as três colunas voltaram juntas. Num evento, o juro de mercado e o dólar sobem e descem com o medo; num ciclo, eles mudam de patamar e ficam.
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