2016: o rali que começou antes da notícia boa
O Ibovespa fez o fundo em janeiro de 2016, com a Selic em 14,25% e a inflação no pico. Quando o impeachment se consumou, o índice já estava 54% acima do fundo. A economia confirmou depois; o juro de mercado e o preço não esperaram.

Em 1 minuto
- O Ibovespa fez o fundo em 26/01/2016 com recessão, Selic de 14,25% e inflação de 10,71%: o pior momento possível para quem esperava confirmação.
- A inflação parou de subir e o juro de mercado caiu 2 pontos antes de o Banco Central mexer; o preço seguiu o juro, não o PIB.
- Quem esperou o impeachment pagou 16% a mais que na virada da régua; quem esperou o primeiro corte, 27% a mais.
Ao fim desta aula você vai saber
- Ler a ordem dos acontecimentos numa virada: inflação, juro de mercado, preço, economia
- Medir o custo de esperar uma notícia confirmar a alta
- Usar a régua para entrar sem tentar adivinhar o fundo
A tese: o preço vira quando a notícia para de piorar
Janeiro de 2016 foi um dos meses mais pessimistas da bolsa brasileira neste século. O país estava em recessão, tinha perdido o grau de investimento em setembro, a Selic estava em 14,25% e a inflação de 12 meses passava de 10%. Havia uma crise política aberta.
Foi exatamente ali que o Ibovespa fez o fundo: 37,5 mil pontos, em 26 de janeiro.
A ideia: O preço vira quando para de sair notícia pior do que a esperada, não quando sai notícia boa.
Esta aula é a outra metade da aula 2. Depois de cinco anos de queda lenta, a volta foi rápida, e começou no pior momento possível para quem esperava confirmação.
A virada, marco a marco

Faixas verdes: meses com a régua em alta. A faixa vermelha de 2017 é o susto de maio (aula 4).
| Data | O que aconteceu | Ibovespa | Acima do fundo |
|---|---|---|---|
| 26/01/2016 | Fundo, com Selic de 14,25% e IPCA de 12 meses em 10,7% | 37,5 mil | – |
| 31/03/2016 | A régua vira para alta no fechamento do mês | 50,1 mil | +33,5% |
| 31/08/2016 | Impeachment consumado | 57,9 mil | +54% |
| 19/10/2016 | Primeiro corte da Selic | 63,5 mil | +69% |
| 15/09/2017 | O índice dobra | 75,8 mil | +102% |
Nenhuma das notícias que "justificariam" a alta veio antes dela. O PIB de 2016 ainda seria negativo. A alta foi feita com a economia ruim. O módulo 2 mostra que isso não foi exceção: o Ibovespa costuma virar antes do IBC-Br, e o PIB trimestral chega depois dos dois.
O mecanismo: três forças que andam antes da economia
1. O mercado olha para a frente; a economia é medida para trás. O PIB de um trimestre sai meses depois de o trimestre acabar. O preço da ação muda a cada segundo, com base no que as pessoas esperam do futuro. Quando as duas coisas discordam, o preço está falando de outra data.
2. A inflação virou antes do juro, e o juro de mercado virou antes do Copom. O IPCA de 12 meses chegou a 10,71% em janeiro de 2016 e começou a ceder. Quando a inflação para de subir, o mercado passa a contar com a queda do juro que ainda não aconteceu. E juro menor faz o lucro dos próximos anos valer mais hoje. O preço sobe antes de o Banco Central mexer, porque ele já está precificando o corte.
3. No fundo, quem queria vender já vendeu. Com o pessimismo unânime, a oferta de ações seca. Não é preciso notícia boa para o preço subir; basta que as notícias parem de piorar. O medo mostrou isso: o VIX Brasil, a volatilidade que o mercado cobra nas opções do BOVA11, foi a 52,8 em 7 de abril de 2016, faixa de pânico, e estava em 31,5 no dia 18, logo depois da votação do impeachment na Câmara. Resolvida a dúvida, o seguro barateou.
O que a régua, o juro e o dólar diziam no mês
| Mês | Ibovespa no fechamento | Régua | Selic meta | Juro de 1 ano no mercado (swap 360 d) | Dólar médio do mês |
|---|---|---|---|---|---|
| dez/15 | 43,4 mil | baixa | 14,25% | 15,86% | R$ 3,87 |
| jan/16 | 40,4 mil | baixa | 14,25% | 14,57% | R$ 4,05 |
| mar/16 | 50,1 mil | alta | 14,25% | 13,80% | R$ 3,70 |
| ago/16 | 57,9 mil | alta | 14,25% | 13,12% | R$ 3,21 |
| out/16 | 64,9 mil | alta | 14,00% | 12,42% | R$ 3,19 |
| set/17 | 74,3 mil | alta | 8,25% | 7,12% | R$ 3,13 |
Selic meta no fim do mês (SGS 432); swap DI × pré de 360 dias (SGS 7806); dólar médio do mês (SGS 3698).
Antes de continuar: Entre dezembro de 2015 e março de 2016, a Selic ficou parada em 14,25%. O que aconteceu com o juro de 1 ano no mercado no mesmo período?
a) Subiu, acompanhando o pessimismo · b) Ficou parado, como a Selic · c) Caiu mais de 2 pontos
Resposta: Caiu mais de 2 pontos. Caiu de 15,86% para 13,80%, mais de 2 pontos, sete meses antes do primeiro corte. A régua virou para alta no fechamento de março.
Repare na ordem. Em dezembro de 2015, o juro de 1 ano estava 1,6 ponto acima da Selic: o mercado ainda cobrava alta. Em março, já estava quase meio ponto abaixo: passou a cobrar corte. A Selic só se mexeu em outubro. O juro de mercado virou antes da bolsa, a bolsa virou antes do Copom, e o Copom virou antes do PIB. O Focus contou a mesma história: a mediana para a Selic no fim de 2016 era 15,25% no último boletim de 2015 e 13,75% no fim de março. E o dólar, que tinha chegado a uma média de R$ 4,05 em janeiro, já estava em R$ 3,70 em março.
Quem subiu mais
Quem mais tinha apanhado na aula 2 foi quem mais subiu. De janeiro de 2016 a dezembro de 2017, com os dividendos, VALE3 subiu 335% e PETR4, 233%. As small caps (SMAL11, +115%) bateram o índice (BOVA11, +88%). É a mesma física da queda, ao contrário: o que mais sofre com juro alto e pessimismo é o que mais anda quando os dois recuam. O módulo 2 mostra por que a small cap é o ativo que mais sente o regime.
Voltar à trilha 20 anos de B3 em 8 crisesTodas as trilhas
Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.