2011–2015: o mercado de baixa que ninguém chamou de crise
O Ibovespa perdeu metade em pouco mais de cinco anos, sem um dia de pânico que marcasse a memória. Foi a queda que mais tirou dinheiro de quem esperou, e a que mais premiou quem tratou o caixa como posição.

Em 1 minuto
- De novembro de 2010 a janeiro de 2016, o Ibovespa caiu 49% sem um dia de pânico: altas de 15% a 30% no caminho pareciam a virada e morreram.
- O lucro das commodities encolheu e o juro subiu de 7,25% para 14,25% ao mesmo tempo, a pior combinação para a bolsa.
- R$ 100 viraram R$ 60 no índice, R$ 107 na régua com caixa e R$ 168 no CDI: com juro de dois dígitos, ficar fora da bolsa foi a melhor posição.
Ao fim desta aula você vai saber
- Reconhecer um mercado de baixa lento antes de ele consumir anos
- Comparar a bolsa com o que o juro paga sem oscilar, ano a ano
- Calcular o custo real de esperar, descontada a inflação
A tese: queda lenta custa mais que queda rápida
A crise de 2008 levou 60% em cinco meses e virou lenda. A de 2011 a 2015 levou quase metade em cinco anos e mal tem nome. Pergunte a alguém da época qual foi o "dia da crise" e a pessoa não vai saber responder. Não houve um.
Esse é justamente o problema.
A ideia: Queda rápida obriga você a decidir. Queda lenta convida você a esperar. E esperar, nesse caso, custou mais do que o pânico de 2008.
O Ibovespa fez 73,0 mil pontos em 4 de novembro de 2010 e chegou a 37,5 mil em 26 de janeiro de 2016. No meio, houve altas de 15% a 30% que pareciam a virada: no começo de 2012, no fim de 2013, no meio de 2014. Todas morreram. Cada ano teve uma explicação razoável para segurar: a Europa em 2011, os estímulos da China em 2012, a eleição de 2014, o ajuste nas contas públicas em 2015. Nenhuma era absurda. Em setembro de 2015, o Brasil perdeu o grau de investimento que tinha ganhado em 2008. Quatro meses depois, veio o fundo.

Faixas vermelhas: meses com a régua em baixa. Embaixo, a Selic meta. Repare nas muitas faixas verdes curtas: as viradas que não duraram.
O mecanismo: três forças que se somaram por anos
1. O lucro das maiores empresas encolheu de verdade. O minério e o petróleo caíram forte no período, e o Ibovespa de então pesava muito em Vale, Petrobras e siderúrgicas. Não era oscilação: era a troca de patamar de um ciclo de matérias-primas que tinha durado quase uma década. PETR4 perdeu 77% e VALE3, 76%, mesmo com os dividendos.
2. O juro subiu enquanto o lucro caía. A Selic chegou a 7,25% em outubro de 2012 e ficou assim até abril de 2013. Dali subiu sem parar até 14,25% em julho de 2015. Juro mais alto faz o lucro futuro valer menos hoje (a aula 6 faz a conta) e, ao mesmo tempo, faz a renda fixa pagar mais. Com as duas coisas juntas, por anos seguidos, a bolsa perdeu nas duas pontas.
3. O problema era daqui, e ninguém de fora veio resolver. Em 2008, bastou o mundo parar de vender para a volta começar. De 2011 a 2015, a recessão, a conta pública e a crise política eram brasileiras. O dólar mostrou isso: a média mensal saiu de R$ 1,71 em novembro de 2010 para R$ 4,05 em janeiro de 2016, uma alta de 137%. Quando o motivo é local, a volta depende de uma mudança local, e ela demora.
Dentro do índice, destinos opostos
"A bolsa caiu pela metade" escondia empresas que não caíram. A WEGE3, que não depende de commodity, subiu 103% no período. O ITUB4 parecia ter caído 36% no preço; com os dividendos, terminou no zero a zero. Quem olhava o índice e concluía "as empresas brasileiras caíram 50%" estava lendo errado. Quem olhava só a ação que conhecia e concluía "a crise não me pegou" também.
Antes de continuar: Você tinha R$ 100 em novembro de 2010. No Ibovespa, sobraram R$ 60 em janeiro de 2016. Quanto teria virado no CDI no mesmo período?
a) Uns R$ 110 · b) Uns R$ 130 · c) Uns R$ 168 · d) Uns R$ 200
Resposta: Uns R$ 168. R$ 168. A Selic ficou acima de 10% na maior parte do período e chegou a 14,25%. Seguir a régua, com o caixa rendendo a Selic nos meses fora, deixou R$ 107.
A régua mensal (fechamento acima da média exponencial dos últimos 5 meses é alta; abaixo, baixa) passou 41 dos 62 meses entre dezembro de 2010 e janeiro de 2016 em baixa. Mas também trocou de lado 22 vezes: entrava num repique, saía quando ele morria, entrava no seguinte.
R$ 60 R$ 100 segurando o Ibovespa, de nov/2010 a jan/2016 · R$ 107 seguindo a régua, com o caixa na Selic · R$ 168 só no CDI, sem oscilar
A régua fez o trabalho dela, que é evitar a destruição, mesmo apanhando no serrote. A lição maior, porém, é a terceira barra: com juro de dois dígitos, ficar fora da bolsa não é ficar parado. O caixa era uma posição, e foi a melhor posição do período.
O que a régua, o juro e o dólar diziam no mês
| Mês | Ibovespa no fechamento | Régua | Selic meta | Juro de 1 ano no mercado (swap 360 d) | Dólar médio do mês |
|---|---|---|---|---|---|
| nov/10 | 67,7 mil | baixa | 10,75% | 11,94% | R$ 1,71 |
| out/12 | 57,1 mil | baixa | 7,25% | 7,24% | R$ 2,03 |
| mai/13 | 53,5 mil | baixa | 8,00% | 8,67% | R$ 2,03 |
| dez/14 | 50,0 mil | baixa | 11,75% | 12,96% | R$ 2,64 |
| set/15 | 45,1 mil | baixa | 14,25% | 15,56% | R$ 3,91 |
| jan/16 | 40,4 mil | baixa | 14,25% | 14,57% | R$ 4,05 |
Selic meta no fim do mês (SGS 432); swap DI × pré de 360 dias (SGS 7806); dólar médio do mês (SGS 3698).
A régua está em baixa em todas as linhas, mas o que conta a história é a coluna do juro. Em outubro de 2012, com a Selic no piso de 7,25%, o juro de 1 ano no mercado estava igual a ela: ninguém cobrava alta. Em maio de 2013, um mês depois da primeira alta, o mercado já pedia 8,67%. Em setembro de 2015, mês da perda do grau de investimento, o juro de 1 ano chegou a 15,56%, 1,3 ponto acima da Selic: o mercado cobrava ainda mais alta, que não veio. Em janeiro de 2016, no fundo da bolsa, ele já tinha recuado para 14,57%. A aula 3 mostra que esse recuo foi o primeiro sinal da virada.
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