2008: a crise que não era nossa e levou 60%
O problema nasceu nos bancos americanos, mas o Ibovespa caiu 60% em cinco meses e o dólar subiu 60%. A qualidade do país não decidiu a queda: decidiu quanto tempo a volta ia levar.

Em 1 minuto
- Em 2008 o Brasil tinha grau de investimento e bancos sem hipoteca podre, e mesmo assim o Ibovespa caiu 60% entre 20/05 e 27/10.
- A crise de fora entrou pelo câmbio: o estrangeiro vendeu o que tinha comprador, o dólar subiu 60% e as commodities despencaram junto.
- A régua mensal saiu em junho e voltou em março de 2009; o juro de mercado virou antes do Banco Central, e 20% em dólar cortaram a queda de 50% para 31%.
Ao fim desta aula você vai saber
- Reconhecer uma crise importada pelo câmbio e pelo fluxo estrangeiro
- Ler a régua, a Selic, o juro de 1 ano e o dólar do mesmo mês lado a lado
- Calcular quanto uma fatia em dólar muda a queda de uma carteira
A tese: numa crise global, a qualidade do país não decide a queda
Em abril de 2008, o Brasil tinha acabado de ganhar o grau de investimento, o selo das agências de risco que diz "este país paga o que deve". As empresas lucravam e os bancos daqui não tinham os empréstimos imobiliários podres que estavam quebrando os americanos. Muita gente dizia que o Brasil tinha "descolado" do mundo.
Antes de continuar: Do topo de 20/05/2008 ao fundo de 27/10/2008, quanto perdeu o Ibovespa, num país que tinha acabado de ganhar o grau de investimento?
a) Uns 15%: o problema era americano · b) Uns 30% · c) Uns 45% · d) Uns 60%
Resposta: Uns 60%. Foi de 73,5 mil para 29,4 mil pontos: −60% em cinco meses. No mesmo período, o dólar foi de R$ 1,56 (01/08) para R$ 2,50 (05/12).
Cinco meses depois, o índice valia menos da metade.
A ideia: Numa crise global, a qualidade do país não decide a queda: decide a recuperação. A queda é decidida por quem precisa vender, e em que moeda.
Este módulo conta oito crises da B3, uma por aula, sempre com o mesmo quadro: o que a régua, o juro e o dólar diziam no mês. Começamos pela que ensinou a regra que as outras sete repetem. A anatomia da queda, mês a mês, está no módulo 4; aqui o foco é por onde ela entrou.
O mecanismo: três forças que trazem a crise de fora para dentro
1. O estrangeiro vende o que consegue vender. Um fundo global com resgates para pagar não escolhe pelo preço justo de cada país; vende o que tem comprador naquela hora. Petrobras, Vale e o próprio índice brasileiro estavam entre as posições mais líquidas dos emergentes, fáceis de vender sem derrubar o preço de uma vez. Por isso caíram primeiro e caíram fundo.
2. O câmbio acelera a queda. Quem vende ações para levar o dinheiro embora precisa comprar dólares. O dólar sobe, e a ação que caiu 40% em reais caiu ainda mais em dólares para quem ficou. O prejuízo maior provoca mais resgates lá fora, que provocam mais vendas aqui. O dólar subiu 60% enquanto a bolsa caía 60%: não é coincidência, é a mesma venda vista dos dois lados.
3. O índice era um índice de commodities. Petrobras, Vale e as siderúrgicas pesavam muito no Ibovespa, e o petróleo e o minério despencaram com o medo de recessão global. Entre os fechamentos de maio e novembro, PETR4 foi de R$ 49 para R$ 20 em preço ajustado (−59%), as siderúrgicas caíram 68% em média e até a ABEV3, que vende cerveja, perdeu 11% com os dividendos. O módulo 3 mostra por que o Ibovespa se comporta como uma cesta de commodities.
O que aconteceu
O topo foi em 20 de maio de 2008: 73,5 mil pontos. Junho já foi ruim. Em 15 de setembro o banco americano Lehman Brothers pediu falência, e o Ibovespa caiu 7,6% naquele dia. Em outubro vieram os piores pregões: −11,4% no dia 15 e −10,2% no dia 22. O fundo chegou em 27 de outubro, a 29,4 mil pontos.

Faixas vermelhas: meses em que a régua estava em baixa. Faixas verdes: em alta. Embaixo, o dólar no mesmo período.
A régua usada no curso compara o fechamento de cada mês com a média exponencial dos últimos cinco fechamentos (EMA-5), que dá mais peso aos meses recentes. Fechou acima, alta; abaixo, baixa. Só muda no fechamento do mês. Em 2008, o fechamento de junho (65,0 mil) ficou abaixo da média (66,1 mil): a régua virou para baixa três meses antes da quebra do Lehman, com o índice 11,6% abaixo do topo. Ela não sabia nada de hipotecas americanas. Só viu o preço perdendo força. Voltou para alta no fechamento de março de 2009, a 40,9 mil, 39% acima do fundo. Não pegou o fundo, e nenhuma regra honesta pega.
| Caminho, de maio de 2008 a dezembro de 2009 | Resultado |
|---|---|
| Segurar o Ibovespa o tempo todo | −5,5% |
| Seguir a régua, com o caixa rendendo a Selic | +64,8% |
| Ficar só no CDI | +18,4% |
A diferença não veio de acertar o fundo. Veio de ficar fora nos nove meses em que o índice caiu de 65 mil para 41 mil, recebendo Selic, e de voltar a tempo da recuperação de 2009.
O que a régua, o juro e o dólar diziam no mês
Agora o quadro fixo deste módulo. A Selic é a meta do Banco Central no fim do mês (SGS 432). O juro de 1 ano no mercado é o swap DI × pré de 360 dias que o Banco Central publicava (SGS 7806): o que o mercado cobrava, com dinheiro em risco, para emprestar por um ano. O dólar é a média do mês (SGS 3698).
| Mês | Ibovespa no fechamento | Régua | Selic meta | Juro de 1 ano no mercado (swap 360 d) | Dólar médio do mês |
|---|---|---|---|---|---|
| mai/08 | 72,6 mil | alta | 11,75% | 13,74% | R$ 1,66 |
| jun/08 | 65,0 mil | baixa | 12,25% | 14,45% | R$ 1,62 |
| set/08 | 49,5 mil | baixa | 13,75% | 14,43% | R$ 1,80 |
| out/08 | 37,3 mil | baixa | 13,75% | 15,34% | R$ 2,17 |
| dez/08 | 37,5 mil | baixa | 13,75% | 12,17% | R$ 2,39 |
| mar/09 | 40,9 mil | alta | 11,25% | 9,79% | R$ 2,31 |
| dez/09 | 68,6 mil | alta | 8,75% | 10,46% | R$ 1,75 |
Três leituras saem da tabela.
O Banco Central subiu o juro no meio da crise. A Selic foi de 11,75% para 13,75% entre abril e setembro de 2008, em quatro altas, a última em 11/09, quatro dias antes do Lehman. A inflação de 12 meses estava subindo, de 5,04% em abril para 6,25% em setembro. Quem esperava o Copom "salvar a bolsa" esperou até 22/01/2009, quando veio o primeiro corte, para 12,75%.
O mercado virou antes do Copom. Em outubro, no pânico, o juro de 1 ano chegou a 15,34%. Em dezembro já estava em 12,17%, mais de 1,5 ponto abaixo da Selic, que continuava em 13,75%. A curva cobrou os cortes um mês antes do primeiro deles. É a mesma lógica que o módulo 1 mostra na curva DI de 2026: a decisão do Copom chega depois do preço.
O dólar continuou subindo depois do fundo da bolsa. A média de dezembro (R$ 2,39) foi mais alta que a de outubro, mês do fundo. O seguro mais caro foi comprado depois do pior dia.
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