Americanas: o passivo que não estava no passivo
Em janeiro de 2023 uma das varejistas mais conhecidas do país anunciou um rombo de R$ 20 bilhões e a ação perdeu 77% num pregão. O Ibovespa subiu 0,1% naquele dia e 22% no ano. Contra o risco de uma empresa só, a defesa não é a análise nem a régua: é o tamanho da posição.

Em 1 minuto
- Em janeiro de 2023 o problema foi de uma empresa só: a Americanas revelou cerca de R$ 20 bilhões de inconsistências e a ação perdeu 77,3% num pregão.
- O mercado seguiu a vida: o Ibovespa subiu 0,1% no dia e 22% no ano, e nenhum medidor de risco piscou, porque o mercado não estava com problema.
- Contra o buraco de uma empresa, a régua e a análise não protegem; o que decide se a queda vira susto ou anos de recuperação é o peso do papel na carteira.
Ao fim desta aula você vai saber
- Explicar o risco sacado e por que ele pode esconder dívida
- Calcular quanto um buraco de 77% custa à carteira em cada tamanho de posição
- Definir um teto por empresa antes de gostar dela
A tese: contra o buraco de uma empresa só, o que protege é o tamanho
Até aqui, todas as crises do módulo foram do mercado: o índice caiu, quase tudo caiu junto, e as ferramentas do curso (a régua, o juro, o dólar, o medo) tinham alguma coisa a dizer.
Esta é diferente. Em janeiro de 2023, o problema era de uma empresa só. O mercado inteiro seguiu a vida. Quem tinha aquela ação, não.
A ideia: Contra o buraco de uma empresa só, a análise não protege e a régua não protege. O que protege é o tamanho da posição.
Esta é a única aula do módulo em que a régua não salva ninguém. O lado do crédito, o de quem emprestou para a empresa, está no curso Renda Fixa com Dados, módulo 4. Aqui fica o lado da ação.
O que aconteceu
Em 11 de janeiro de 2023, depois do fechamento, a Americanas comunicou ao mercado "inconsistências contábeis" de cerca de R$ 20 bilhões. Em 19 de janeiro, pediu recuperação judicial, o processo na Justiça em que uma empresa que não consegue pagar as dívidas negocia com os credores sob proteção.
Antes de continuar: A ação fechou a R$ 12,00 em 11/01/2023, o dia do comunicado. A que preço fechou em 19/01, o dia do pedido de recuperação judicial?
a) Uns R$ 9: o mercado já esperava algo · b) Uns R$ 6, metade do preço · c) Uns R$ 3 · d) R$ 1,00
Resposta: R$ 1,00. R$ 1,00: −92% em seis pregões. Só o primeiro, 12/01, levou o papel de R$ 12,00 para R$ 2,72, uma queda de 77,3%.
Agora olhe o que o mercado fez.

Faixas verdes e vermelhas: a régua mensal do índice. O escândalo aparece como um ponto qualquer no gráfico.
No dia 12 de janeiro, o Ibovespa fechou em +0,1%, de 111,8 mil para 111,9 mil. O VIX Brasil, o medo medido nas opções do BOVA11, ficou em 22,9, zona normal. O termômetro de risco do Quantor estava em 32, também normal. Em 2023, o índice subiu 22%, de 110,0 mil para 134,2 mil.
Nenhum medidor de mercado piscou, porque o mercado não estava com problema. Uma empresa estava.
O que a régua, o juro e o dólar diziam no mês
| Mês | Ibovespa no fechamento | Régua | Selic meta | Focus: Selic no fim do ano | Dólar médio do mês |
|---|---|---|---|---|---|
| dez/22 | 110,0 mil | baixa | 13,75% | 12,25% (fim de 2023) | R$ 5,24 |
| jan/23 | 113,5 mil | alta | 13,75% | 12,50% (fim de 2023) | R$ 5,20 |
| fev/23 | 104,9 mil | baixa | 13,75% | 12,75% (fim de 2023) | R$ 5,17 |
| jun/23 | 118,1 mil | alta | 13,75% | 12,00% (fim de 2023) | R$ 4,85 |
| dez/23 | 134,2 mil | alta | 11,75% | 11,75% (fim de 2023) | R$ 4,90 |
Selic meta no fim do mês (SGS 432); Focus: mediana do último boletim do mês (BCB, Expectativas de Mercado); dólar médio do mês (SGS 3698).
A tabela é quase entediante, e esse é o ponto. No mês do escândalo, a régua do índice virou para alta. O juro não mexeu: a Selic ficou em 13,75% até agosto, e o Focus quase não saiu do lugar. O dólar ficou parado. Todas as ferramentas de cenário deste curso olham o mercado; nenhuma delas enxerga dentro de uma empresa. Quando o problema é de um papel, o quadro do mês não diz nada, e é preciso outra defesa.
O mecanismo: três forças que fazem uma dívida sumir e voltar
1. O risco sacado transforma empréstimo em "fornecedor". O nome técnico do que estava no centro do caso é risco sacado. A varejista compra mercadoria e combina pagar em, digamos, 120 dias. O fornecedor não quer esperar, e um banco paga a ele à vista, com desconto. Daqui a 120 dias (ou mais), a varejista paga o banco, com juros. Na prática, é um empréstimo bancário. Mas, se no balanço a dívida aparece como "fornecedores" em vez de "empréstimos e financiamentos", a dívida financeira parece menor e os indicadores de endividamento parecem melhores. O passivo existe; só está na gaveta errada.
2. A informação publicada é a única que o investidor tem. Balanço auditado, conselho com nomes conhecidos, empresa tradicional. O investidor comum não tinha como enxergar isso. Quando a informação publicada está errada, olhar melhor não resolve.
3. O buraco não deixa preço no meio. O comunicado saiu depois do fechamento de um dia, e o pregão seguinte já abriu muito abaixo. Uma ordem automática de venda, o stop, executa no primeiro preço disponível. Se a ação fecha num dia e abre 70% abaixo no seguinte, não existe preço no meio para executar. O stop protege de tendência, não de evento.
A conta que importa
Uma ação que cai 77,3% num dia, numa carteira de R$ 200 mil:
| Peso do papel | Perda na carteira | Quanto o resto precisa subir para voltar |
|---|---|---|
| 1% | R$ 1.547 | +0,8% |
| 5% | R$ 7.733 | +4,0% |
| 15% | R$ 23.200 | +13,1% |
| 20% | R$ 30.933 | +18,3% |
A empresa é a mesma, o erro é o mesmo, a análise é a mesma. O que muda é se aquilo vira um dia ruim ou anos de recuperação.
−77,3% a ação em 12/01/2023 · +0,1% o Ibovespa no mesmo pregão · +22% o Ibovespa em 2023
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