O repórter que entrevistou a sorte
Como um analista de futuros transformou uma segunda rodada de entrevistas em um raio-X do comportamento sob perda
Jack Schwager não escreveu um livro sobre como ganhar dinheiro. Escreveu um livro sobre o que acontece com pessoas muito diferentes quando elas perdem dinheiro — e descobriu que ali, e só ali, elas se parecem. The New Market Wizards, de 1992, é a segunda rodada dessa investigação, e a leitura que este guia defende é que ela interessa mais do que a primeira justamente porque o assunto migrou do acerto para o risco.
Quem pergunta e de onde ele pergunta
Schwager não é um mago. É pesquisador de mercados futuros: dirigiu áreas de pesquisa de futuros em corretoras americanas, entre elas a Prudential-Bache, e em 1984 publicou A Complete Guide to the Futures Markets, um calhamaço técnico sobre análise de preços, spreads e mecânica de contratos. Esse detalhe de biografia explica o tom do livro inteiro: ele entra na entrevista sabendo o que é base, margem e rolagem de contrato, e por isso não aceita resposta vaga. Quando o entrevistado diz que "sente" o mercado, Schwager quer saber o que exatamente ele está vendo na tela e quanto arriscou naquela posição.
O primeiro Market Wizards, de 1989, nasceu de uma curiosidade quase jornalística e virou fenômeno de mesa de operação. O segundo volume não é uma correção de rota: é uma continuação com outro elenco e, perceptivelmente, com mais insistência em três perguntas — quanto se arrisca por posição, o que se faz depois de uma sequência ruim e como se sai de uma posição errada. Não é que o primeiro livro ignorasse isso. É que no segundo esse eixo organiza quase toda conversa.
E o elenco importa porque o livro tem uma ambição escondida. Schwager não quer provar que trading funciona. Quer isolar a variável comum entre pessoas que fazem coisas tecnicamente incompatíveis entre si e, mesmo assim, ganham dinheiro por uma década ou mais. É um problema de estatística disfarçado de reportagem.
1992: o trading sai do pit e entra no servidor
O momento do mercado explica o livro. O crash de outubro de 1987 ainda estava fresco na cabeça de quem operava — o Dow Jones caiu 22,6% num único pregão, algo que os modelos de risco da época tratavam como praticamente impossível. Quem atravessou aquilo passou a fazer uma pergunta diferente: não "quanto posso ganhar", mas "o que me mata".
Ao mesmo tempo, os futuros financeiros se multiplicavam. Contratos sobre juros, índices de ações, moedas e títulos de governos estrangeiros ficaram líquidos e baratos o bastante para que um operador em Chicago tomasse posição em bund alemão, iene japonês ou petróleo sem sair da cadeira. Cresce a indústria dos CTAs — gestores de futuros administrando dinheiro de terceiros com estratégia declarada e histórico auditado. Isso muda a natureza da conversa: o trader deixa de ser um sujeito com conta própria e vira gestor com cotistas, queda máxima medida e investidor ligando quando o mês fecha no vermelho. Quem tem cotista não pode se dar ao luxo de uma recuperação heroica em três anos.
E a informatização chega de verdade. Testar uma regra sobre vinte anos de preços deixa de ser projeto de meses e vira uma tarde de trabalho. O efeito é duplo, e o livro capta bem a contradição: de um lado, as vantagens óbvias começam a sumir, porque todo mundo passa a testar as mesmas coisas; de outro, surge uma espécie de operador que troca a pergunta "o que vai acontecer" por "essa regra tem evidência suficiente para eu arriscar capital nela". O livro é escrito exatamente na dobra em que o trading deixa de ser artesanato de pregão e começa a virar indústria de sistemas.
O método: perguntar em vez de teorizar
Schwager não propõe nada. Coleta depoimentos, confronta contradições, pede exemplos de operações específicas — inclusive as ruins — e deixa o padrão aparecer por acumulação. Não existe um capítulo final com o sistema do autor. Existe um capítulo final com observações sobre o que se repetiu.
A lógica dessa escolha é sólida: quem teoriza antes encaixa o entrevistado na tese; quem só pergunta deixa a tese emergir do material. A fraqueza do livro não está aí, e sim num defeito de fabricação que nenhuma pergunta corrige — todos os entrevistados ganharam. É uma amostra de sobreviventes. Schwager discute o problema abertamente no texto e não finge que a seleção é neutra; o que ele não tem é remédio para ela, porque quem seguiu princípios parecidos e quebrou não tem histórico para apresentar nem editor interessado.
O leitor precisa carregar essa ressalva do começo ao fim. Se cinquenta pessoas apostam na mesma regra agressiva e quarenta e sete quebram, as três que sobraram darão entrevistas coerentes, convictas e cheias de lições — e essas lições serão indistinguíveis das que um método de verdade produziria. É o problema central de aprender com vencedores, e ele volta no capítulo 5 com números da bolsa brasileira.
O que mudou da primeira para a segunda geração
Há mais continuidade do que a lenda sugere. O primeiro volume já trazia macro global, gestores de ações e sistemáticos, não só heróis de pregão de commodities. O que a segunda rodada faz é deslocar o peso: menos reverência à tacada histórica, mais espaço para quem roda regras programadas e discute queda máxima como engenheiro discute carga.
Há também mais opções. Ganhar com estrutura e volatilidade em vez de direção — montar uma posição que lucra se o ativo se mover menos do que o preço embute — é um trade que nem existe no vocabulário do operador clássico de tendência. E há mais mundo: Bill Lipschutz opera câmbio num mercado que nunca fecha, onde o fuso horário vira variável de risco, e vários entrevistados tomam posição em juros e índices fora dos Estados Unidos.
A novidade mais visível é o grupo quantitativo. A Prediction Company, fundada por físicos, aparece como laboratório que trata preço como problema de dados e só arrisca capital depois que a hipótese resiste ao teste. Eles convivem no mesmo volume com discricionários puros, que decidem olhando a tela, lendo notícia e conversando com gente. Schwager não arbitra a disputa — e é por isso que o livro funciona como retrato de época, e não como manifesto de escola.
Para quem esse livro serve
Não é manual. Quem abrir procurando regra de entrada sai frustrado, porque as regras se contradizem dentro do próprio volume: Linda Bradford Raschke vive de operações de curtíssimo prazo repetidas à exaustão, enquanto Richard Driehaus carrega ações de crescimento por meses e compra exatamente o que já subiu; Monroe Trout mede vantagem estatística antes de arriscar, enquanto Mark Ritchie chegou ao mercado por fora do circuito financeiro. O valor está em outro lugar — é antropologia de desempenho, o retrato de como profissionais se comportam sob pressão de perda, que é a única pressão que importa.
E é por isso que serve ao investidor de longo prazo que nunca vai tocar num contrato futuro. O que estraga uma carteira de ações quase nunca é a escolha errada de papel; é a reação errada ao terceiro mês de queda, a decisão de dobrar a aposta para "recuperar", o abandono do método no pior ponto possível. O livro descreve esse momento com franqueza rara, porque descreve gente que já quebrou antes de dar certo e lembra bem da sensação.
Fica a pergunta que o livro de fato responde: se pessoas que fazem coisas opostas ganham dinheiro de forma consistente, o que exatamente elas têm em comum — e essa parte comum pode ser ensinada a quem não tem o talento delas? A resposta de Schwager não está no estilo de nenhum deles. Está no que todos fazem antes de a posição existir.
Os entrevistados de Schwager discordam sobre tudo que se vê e concordam sobre tudo que não aparece no gráfico.
Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.
Leia o livro inteiro com uma contaGuia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.