O homem que pergunta
Como um autor que se diz melhor entrevistador do que operador montou, logo depois de 2008, um retrato honesto de como gestores sobrevivem a crises
Publicado em 2012, com entrevistas feitas em boa parte no ano anterior, este livro nasce da pergunta que a enxurrada de obras sobre a crise tinha deixado em aberto: não por que 2008 aconteceu, mas como um punhado de gestores atravessou aquilo ganhando dinheiro. A resposta é desconfortável para quem procura gênio. Alguns dos entrevistados até tinham a leitura macro correta; o que os separa dos demais não é ter previsto, é não ter dependido da previsão — porque muito antes da crise chegar já tinham decidido de que forma estavam dispostos a perder.
Quem é o homem que pergunta
Schwager não é a estrela dos próprios livros, e esse é o ponto. Trabalhou como diretor de pesquisa de futuros em corretoras de Wall Street e escreveu obras de referência sobre análise de futuros — a série "Schwager on Futures", que trata de análise técnica, de análise fundamentalista e de sistemas, é material de estante de mesa, não de banca de aeroporto. Nos anos 80 teve a ideia que o tornaria conhecido: em vez de teorizar sobre o que funciona, procurar operadores que comprovadamente ganhavam dinheiro e perguntar como. O primeiro volume saiu em 1989 e, quando esta edição chegou, a série já tinha três livros de entrevistas atrás de si.
O detalhe que dá autoridade ao livro é o que normalmente envergonharia um autor. Schwager admite, sem rodeios, que é melhor entrevistador do que operador — que seu próprio histórico de mesa nunca foi notável. Em vez de esconder, usa. Quem já colocou dinheiro próprio e viu a conta encolher faz perguntas diferentes do jornalista que nunca arriscou nada. Ele sabe onde dói: pergunta pela posição que deu errado, pelo mês em que o fundo caiu, pelo momento em que o gestor duvidou do próprio método — e insiste quando a resposta vem evasiva.
O efeito é um livro de tom investigativo, não de vitrine. Há vaidade nos entrevistados, mas há também contradição exposta. Tom Claugus, por exemplo, descreve um processo disciplinado e, ao mesmo tempo, conta a experiência de carregar posição contra o mercado em 2008, com a conta caindo mês após mês. Schwager não maquia a inconsistência entre o método declarado e a dor vivida; deixa as duas coisas na mesma página. É daí que sai o valor analítico — o leitor vê o processo real, cheio de nós, e não a versão de palestra.
O clima em que o livro foi escrito
Para entender as escolhas do livro, é preciso lembrar onde o mundo estava. Os juros americanos tinham ido a quase zero e lá permaneceriam por anos. A renda fixa segura, que durante décadas foi a alternativa confortável, pagava perto de nada — o que empurrou capital institucional para qualquer coisa que prometesse retorno. A indústria de hedge funds havia inchado: de um nicho pequeno nos anos 80 para um setor com trilhões de dólares sob gestão, carregando uma estrutura de taxas herdada de quando havia poucos competidores.
E a reputação estava arranhada. Em 2008, muitos fundos que vendiam a palavra "hedge" caíram junto com a bolsa. Vários suspenderam resgates, prendendo o dinheiro do cliente exatamente quando ele mais precisava. No fim daquele ano veio o colapso do esquema de Madoff, que não era um hedge fund de verdade mas carimbou a indústria inteira no imaginário público. A pergunta que pairava era simples e devastadora: por que pagar taxa cara por um produto que, quando o mercado caiu de verdade, caiu junto?
É contra esse pano de fundo que Schwager escolhe quem entrevistar. O critério não é tamanho. Há o maior hedge fund do mundo na lista — a Bridgewater, de Ray Dalio — e há, no extremo oposto, gente tocando estruturas minúsculas, como Jamie Mai na Cornwall Capital, que começou com capital próprio e poucos sócios, ou Kevin Daly, cujo fundo de ações era pequeno demais para aparecer em qualquer ranking. A mistura é proposital: se o gigante e o fundo de uma sala chegam ao mesmo tipo de disciplina de risco, o que importa não é escala nem acesso. O critério de seleção já é um argumento — o que conta não é quanto você ganha no bom ano, é o que acontece com você no péssimo.
O que muda em relação aos volumes anteriores
Os primeiros livros da série eram povoados por figuras do pregão e dos futuros: o sujeito que começou com pouco dinheiro, operou por conta própria, multiplicou capital e respondia apenas a si mesmo. Esta edição troca de personagem. Aqui o entrevistado tem cotistas, mandato, relatório mensal, cláusula de resgate e alguém medindo seu risco todo dia.
A mudança não é cosmética. Um operador sozinho pode aguentar uma queda de 40% se acreditar na tese; um gestor institucional que cai 40% costuma não aguentar, porque os cotistas saem no pior momento e convertem a perda temporária em definitiva. O risco deixa de ser questão de estômago e vira restrição contratual. Boa parte da sabedoria do livro nasce dessa pressão: quando perder demais significa deixar de existir, você é obrigado a desenhar a perda com antecedência.
A variedade de abordagens também cresce, e cada escolha serve ao recorte de risco. Colm O'Shea faz macro global discricionário e discute como a tese certa paga ou não paga dependendo do instrumento. Michael Platt, da BlueCrest, representa a gestão de risco como arquitetura da firma, com limite de perda por operador. Jamie Mai caça eventos que o mercado precifica como impossíveis — modelo que ficou famoso pela posição em proteção de crédito durante a bolha imobiliária americana. Joel Greenblatt entra por um motivo específico: ele descreve a passagem do valor concentrado e discricionário, que o consagrou, para carteiras amplas montadas por critério sistemático. E Jaffray Woodriff é o quantitativo puro, no outro extremo do espectro.
Um nome é exceção declarada: Edward Thorp, que não estava gerindo fundo aberto na época e entra pela via retrospectiva — a contagem de cartas no blackjack, o trabalho pioneiro em precificação de warrants e conversíveis, a Princeton/Newport. Ele é memória viva de como a arbitragem sistemática nasceu, e sua leitura de risco vai voltar no capítulo 4. Steve Clark, Martin Taylor, Larry Benedict, Scott Ramsey, Kevin Daly e Tom Claugus completam o índice, e aparecem adiante neste guia. No fim, Schwager assina um capítulo próprio tentando extrair o que há de comum entre gente que discorda de quase tudo.
Para quem o livro serve — e para quem não serve
Quem abre o livro procurando o setup sai frustrado. Não há regra de entrada pronta, não há parâmetro, não há carteira para copiar. Os entrevistados descrevem processos amarrados a estruturas que o leitor não tem: mesas, corretoras de atacado, derivativos sob medida, capital para carregar posição por anos. Tentar imitar a tática é o erro mais comum e o mais caro.
O que é transferível é outra coisa: a arquitetura da decisão. Quanto você arrisca por posição, o que te faz reduzir, o que te faz sair, como você distingue estar errado de estar cedo, o que você faz quando a execução está ruim mesmo sem perda grande. Isso atravessa instrumento, país e época.
Há ainda um público para quem o livro é quase um espelho: o investidor que já tem patrimônio e descobriu que seu problema não é achar boas ideias, é não destruir as que tem nas semanas ruins. Esse leitor reconhece nos entrevistados a mesma tensão que vive em escala menor — a tese certa, o tamanho errado, o tempo que não fecha.
O filtro brasileiro e a pergunta que fica
Para quem investe daqui existe um filtro adicional, que este guia vai aplicar sem piedade a partir do capítulo 3. No Brasil, o concorrente de qualquer estratégia não é o índice de ações: é o CDI. Uma regra que no exterior ganharia respeito por render alguns pontos acima do caixa, aqui pode simplesmente perder para o caixa — e perder com volatilidade, o que é pior. Juro real alto não é detalhe de conjuntura; é a trave que reescreve o veredito de boa parte do que soa como sabedoria universal.
Isso muda até a leitura do que é defender-se. Lá fora, sair do mercado em 2008 significava ir para um caixa que rendia quase zero; aqui, sair significa ir para um ativo que remunera de verdade. O custo de oportunidade da prudência é menor no Brasil — e, por isso mesmo, a disciplina de saída que os entrevistados descrevem tende a valer mais aqui do que na praça onde o livro foi escrito. É uma afirmação testável, e nós a testamos.
Fica de pé, então, a pergunta que organiza o livro inteiro e este guia: o que os gestores que ganharam dinheiro em 2008 tinham em comum que os outros não tinham — e por que esse algo quase nunca é a previsão correta? A resposta não está no que eles pensavam sobre o mundo, mas em como tratavam o próprio dinheiro quando o mundo discordava deles.
As entrevistas discordam sobre como ganhar dinheiro e concordam sobre como não quebrar.
Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.
Leia o livro inteiro com uma contaGuia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.