A aposta de Chicago
Como uma discussão entre dois sócios sobre talento virou o experimento mais documentado do trading sistemático.
No começo dos anos 1980, um operador de Chicago resolveu uma discussão com o sócio gastando dinheiro de verdade para provar um ponto. A questão era a natureza do talento: trader se faz ou se nasce? O livro de Michael Covel é o relatório tardio desse experimento — e a descoberta mais incômoda dele não é que o método funcionou, é que o mesmo manual, nas mãos de pessoas diferentes, produziu carreiras de décadas e desistências em poucos meses.
Quem escreve e de onde fala
Michael Covel não operou no pregão de Chicago, não geriu bilhões e não é professor de finanças. É um pesquisador obsessivo de um nicho: o trend following, a família de estratégias que compra o que sobe e vende o que cai sem nenhuma opinião sobre o motivo. Em 2004 ele já havia publicado Trend Following, um levantamento da categoria como um todo — gestores, cartas a cotistas, séries de retorno de gente que o mercado tradicional tratava com desdém. Mantinha também um site e uma comunidade em torno do tema, o que lhe deu uma coisa rara: acesso.
Isso importa para entender o método do livro, publicado em 2007. Covel não recebeu a história pronta — reconstruiu de fora, atrás de ex-alunos, documentos, registros públicos e gente que esteve perto. O programa das Tartarugas foi montado sob acordo de confidencialidade: os participantes se comprometeram a não revelar as regras enquanto aquilo valesse dinheiro para quem pagou. Com os anos, a cláusula perdeu força prática, versões do material começaram a circular, alguns ex-alunos passaram a falar e outros a vender o método. Covel chegou nesse momento — tarde demais para ser testemunha, cedo o bastante para ouvir quase todo mundo.
O resultado é jornalismo de reconstituição, com as virtudes e os vícios do gênero. A virtude: detalhes que ninguém mais tinha, versões contraditórias postas lado a lado, um retrato do que se passou dentro de uma sala onde pessoas sem currículo financeiro receberam capital alheio para arriscar. O vício: Covel é parte interessada. Ele acredita no trend following, defende a tese e escreve com a energia de quem quer convencer. O leitor atento aproveita o repórter e desconta o militante. Vale também um aviso que atravessa esta edição inteira: quase todos os números de desempenho do grupo vêm de relato de participantes e de material de divulgação, não de auditoria pública.
Chicago, anos 1980
Para entender o experimento é preciso entender o chão em que ele aconteceu. Chicago era o centro mundial dos mercados futuros, e o pregão de viva-voz era um lugar físico, barulhento e brutal: gente gritando ordens de milho, soja, boi, juros e moedas, fechando negócio por gesto de mão. Ali a vantagem vinha de estar perto do fluxo, ter voz forte e ler o humor da sala. Era um mundo de mística — contava-se que certos operadores "sentiam" o mercado.
Richard Dennis foi criado nesse ambiente e o contrariou por dentro. Entrou ainda adolescente, por volta dos dezessete anos, como office boy e depois operador de contratos pequenos no MidAmerica Commodity Exchange, o pregão menor de Chicago, onde se negociavam lotes reduzidos de grãos, ovos e manteiga. O capital inicial veio da família e era da ordem de poucos milhares de dólares, segundo os relatos correntes. Na década seguinte ele passou a operar volumes grandes por conta própria e virou um nome conhecido da praça. O ponto que interessa aqui não é o tamanho da fortuna, número que varia conforme quem conta: é que Dennis não operava por intuição mística. Ele seguia tendências de preço com critérios escritos, e desconfiava que aquilo era ensinável a qualquer um.
Do outro lado estava William Eckhardt, sócio e amigo, vindo da pós-graduação em lógica matemática — alguém treinado profissionalmente para procurar o buraco num argumento. Eckhardt olhava para o desempenho de Dennis e via algo que não cabia num manual: tolerância ao risco, temperamento, uma relação específica com a dor de perder. E aqui está o detalhe que o resumo fácil da história costuma perder: foi justamente o descrente quem teve papel central na formalização das regras que seriam ensinadas. O homem que duvidava que se pudesse escrever o método ajudou a escrevê-lo.
A aposta
Convém ser honesto sobre o que foi essa aposta. Pelo que se conta, houve entre os dois uma aposta simbólica, de valor irrisório — o tipo de coisa que amigos combinam no fim de uma discussão. O que estava realmente em jogo era outra coisa: Dennis se dispôs a bancar o teste com capital de verdade, recrutando estranhos, treinando-os e entregando a cada um uma conta para operar. O critério de julgamento era o resultado dos alunos ao longo dos anos seguintes, medido pelo próprio Dennis, que pagava a conta e via os números todos os dias. Não houve árbitro externo nem regra de desempate publicada — o que explica por que, décadas depois, ainda se discute quem ganhou.
O recrutamento virou folclore merecido. Dennis publicou anúncios em jornais em 1983 — o Wall Street Journal entre eles — pedindo candidatos a trader, sem exigir passagem por Wall Street. Os relatos falam em mais de mil inscritos para algo em torno de dez a treze selecionados na primeira turma, com uma segunda turma formada em 1984. A seleção foi deliberadamente heterodoxa: entraram jogadores sérios de jogos de estratégia e de cartas, gente de xadrez e de backgammon, pessoas vindas de ocupações sem nenhuma relação com finanças.
Havia lógica nisso, e é um mecanismo que vale carregar o livro inteiro. Quem joga pôquer ou backgammon a sério já internalizou duas coisas que o investidor comum rejeita. Primeiro, que uma decisão correta pode dar errado e uma decisão errada pode dar certo — o resultado de uma mão não julga a estratégia. Segundo, que o tamanho da aposta importa tanto quanto a escolha da aposta. São, não por acaso, os dois pilares do que seria ensinado.
O treinamento foi curto, da ordem de duas semanas, seguido de um período operando valores pequenos e depois de contas bancadas por Dennis — contas que, nos relatos dos participantes, partiam da casa do milhão de dólares em capital nocional para operar futuros. Imagine o choque: alguém que meses antes entregava pizza ou jogava cartas profissionalmente, agora com ordens desse tamanho na mesa. O grupo ficou conhecido como Turtles, as Tartarugas, apelido ligado a uma frase do próprio Dennis depois de visitar fazendas de criação de tartarugas em Singapura: ele criaria traders do mesmo jeito, em escala e depressa. O nome pegou porque soava como piada e acabou virando marca registrada de uma escola inteira.
Por que o livro marcou
O experimento é a prova pública de uma coisa que o mercado daquele tempo negava: uma vantagem pode ser escrita. Não um conselho vago sobre disciplina, mas um conjunto de instruções operacionais — quando entrar, quanto comprar, quando aumentar, quando sair — executável por um estranho recém-treinado. É a certidão de nascimento cultural do trading sistemático como ofício ensinável, anos antes de "quantitativo" virar palavra comum.
E aqui está a parte menos repetida, a que faz o livro valer mais do que a lenda. Dennis provou sua tese de que o método se transfere e, no mesmo movimento, provou a de Eckhardt: a execução não se transfere inteira. Alguns alunos construíram gestoras que atravessaram décadas. Outros foram desligados do programa, ou simplesmente não aguentaram a sequência de prejuízos pequenos que antecede o ganho grande. O livro é manifesto a favor de regras e, ao mesmo tempo, evidência de que regras não bastam.
Serve, portanto, a dois tipos de leitor. O primeiro desconfia de talento inato e quer saber exatamente o que dá para codificar numa decisão de investimento. O segundo já tem método escrito e não consegue segui-lo: é o investidor que, no sexto mês de perdas, olha para a tela e vê a carteira 18% abaixo do topo enquanto o CDI rendeu tranquilamente no período, abre a planilha de regras, encontra lá o comando para zerar a posição e não executa — porque dessa vez parece diferente. Os dois saem com a mesma pergunta na mão, e é a pergunta que o resto desta edição tenta responder, inclusive com os números da B3: se o método pode ser ensinado em duas semanas, por que tão poucos conseguem executá-lo até o fim?
A resposta não está no que foi ensinado. Está no que o aluno precisava suportar depois.
As quatro ideias que Dennis e Eckhardt conseguiram escrever num papel — e a única que nenhum papel transmite.
Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.
Leia o livro inteiro com uma contaGuia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.