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The Complete TurtleTraderMichael Covel · 2007
A leitura do Quantor · Operadores e as histórias dos trades

The Complete TurtleTrader

Michael Covel, 2007

As Tartarugas provam que uma regra mecânica de rompimento pode ser ensinada a qualquer um em duas semanas — e provam também, pelo destino desigual dos próprios alunos, que o que separa o vencedor do desistente não é a regra, e sim a capacidade de sustentar perda atrás de perda; na B3, o setup original bate o CDI em menos de 40% das ações e só ganha sentido como corte de risco, não como máquina de retorno.

6 capítulos · cerca de 44 min de leitura · texto próprio do Quantor, com os números da B3
Este não é o livro. É a leitura do Quantor sobre ele: as ideias de Michael Covel explicadas com texto próprio, as histórias que o livro conta, o que envelheceu, e o que ele ensina testado com 20 anos de dados da B3. Para a obra completa, leia o original.

Sumário

  1. 1A aposta de ChicagoComo uma discussão entre dois sócios sobre talento virou o experimento mais documentado do trading sistemático.7 min · aberto
  2. 2O manual cabia em duas semanasAs quatro ideias que Dennis e Eckhardt conseguiram escrever num papel — e a única que nenhum papel transmite.Explica as quatro ideias que sustentam o sistema das Tartarugas: entrar por rompimento sem tentar prever, dimensionar a posição pela oscilação típica do mercado, cortar a perda rápido e deixar o ganho correr, e por que a regra continuou funcionando depois de virar pública. Mostra o mecanismo de cada uma e expõe a tensão central do livro: o mesmo manual, em mãos diferentes, produziu destinos opostos.
  3. 3Rompimento testado em 437 açõesO gatilho das Tartarugas rodado em toda a B3 desde 2006: o que ele entrega de verdade não é retorno, é o tamanho do tombo.Mostra o resultado das regras 20/10 e 55/20 aplicadas papel a papel nas 437 ações líquidas da B3 desde 2006: média de +9,4% e +11,1% ao ano contra CDI de +10,5%, com o CDI batido em apenas 34% e 39% das ações, e corte da pior queda em mais de 425 delas. Mostra também que as carteiras de rompimento (Novos topos e Perto do topo) não passaram no critério dos testes do Quantor por ficarem abaixo do CDI em 2020–26, enquanto o dual momentum passou nos três subperíodos — contra um benchmark mais fácil.
  4. 4O que aconteceu com cada umO mesmo manual, o mesmo dinheiro, o mesmo professor — e carreiras que terminaram em lugares opostos.Conta o que se sabe com segurança sobre o destino dos alunos de Richard Dennis: Jerry Parker e a Chesapeake Capital, Liz Cheval e a EMC, as gestoras de Rabar e Shanks, os que foram cortados no meio do programa e os que voltaram à vida comum. Mostra o mecanismo da divergência — ganhos concentrados em poucas operações, séries longas de prejuízo pequeno e tamanho de posição — e termina na disputa pelo nome "Turtle", com Covel como parte interessada.
  5. 5O mundo que comia rompimentoParte do que fez as Tartarugas funcionarem era a década, não o método — e os números da B3 mostram onde a regra cede.Explica por que as tendências longas dos anos 1980 em juros, dólar e commodities davam ao rompimento um terreno que hoje é disputado por milhares de máquinas, e por que a narrativa de Covel é construída sobre quem sobrou. Mostra, com os testes na B3, que o rompimento em carteira rendeu +5,8% e +6,8% ao ano em 2020–2026 contra CDI de dois dígitos, enquanto o dual momentum fez +18,0% no mesmo recorte e a trava do Ibovespa derrubou a pior queda de −46% para −28%.
  6. 6A regra é fácil, a mão é difícilCinco disciplinas das Tartarugas reescritas pelos números da B3 — onde o rompimento serve, onde ele custa caro e o que fazer com o tempo parado.Converte o sistema das Tartarugas em cinco disciplinas aplicáveis no Brasil: escrever a saída antes da entrada, tratar o CDI do tempo fora como parte do resultado, contar o custo antes do retorno, preferir o sinal simples que passou no teste e julgar a série inteira. Mostra que o ganho confiável do rompimento na B3 foi corte de risco — 430 de 437 ações no 55/20, 407 de 437 na régua EMA-5, com a pior queda típica caindo de −78% para −42%.
Leitura Quantor · capítulo 1 de 6

A aposta de Chicago

Como uma discussão entre dois sócios sobre talento virou o experimento mais documentado do trading sistemático.

No começo dos anos 1980, um operador de Chicago resolveu uma discussão com o sócio gastando dinheiro de verdade para provar um ponto. A questão era a natureza do talento: trader se faz ou se nasce? O livro de Michael Covel é o relatório tardio desse experimento — e a descoberta mais incômoda dele não é que o método funcionou, é que o mesmo manual, nas mãos de pessoas diferentes, produziu carreiras de décadas e desistências em poucos meses.

Quem escreve e de onde fala

Michael Covel não operou no pregão de Chicago, não geriu bilhões e não é professor de finanças. É um pesquisador obsessivo de um nicho: o trend following, a família de estratégias que compra o que sobe e vende o que cai sem nenhuma opinião sobre o motivo. Em 2004 ele já havia publicado Trend Following, um levantamento da categoria como um todo — gestores, cartas a cotistas, séries de retorno de gente que o mercado tradicional tratava com desdém. Mantinha também um site e uma comunidade em torno do tema, o que lhe deu uma coisa rara: acesso.

Isso importa para entender o método do livro, publicado em 2007. Covel não recebeu a história pronta — reconstruiu de fora, atrás de ex-alunos, documentos, registros públicos e gente que esteve perto. O programa das Tartarugas foi montado sob acordo de confidencialidade: os participantes se comprometeram a não revelar as regras enquanto aquilo valesse dinheiro para quem pagou. Com os anos, a cláusula perdeu força prática, versões do material começaram a circular, alguns ex-alunos passaram a falar e outros a vender o método. Covel chegou nesse momento — tarde demais para ser testemunha, cedo o bastante para ouvir quase todo mundo.

O resultado é jornalismo de reconstituição, com as virtudes e os vícios do gênero. A virtude: detalhes que ninguém mais tinha, versões contraditórias postas lado a lado, um retrato do que se passou dentro de uma sala onde pessoas sem currículo financeiro receberam capital alheio para arriscar. O vício: Covel é parte interessada. Ele acredita no trend following, defende a tese e escreve com a energia de quem quer convencer. O leitor atento aproveita o repórter e desconta o militante. Vale também um aviso que atravessa esta edição inteira: quase todos os números de desempenho do grupo vêm de relato de participantes e de material de divulgação, não de auditoria pública.

Chicago, anos 1980

Para entender o experimento é preciso entender o chão em que ele aconteceu. Chicago era o centro mundial dos mercados futuros, e o pregão de viva-voz era um lugar físico, barulhento e brutal: gente gritando ordens de milho, soja, boi, juros e moedas, fechando negócio por gesto de mão. Ali a vantagem vinha de estar perto do fluxo, ter voz forte e ler o humor da sala. Era um mundo de mística — contava-se que certos operadores "sentiam" o mercado.

Richard Dennis foi criado nesse ambiente e o contrariou por dentro. Entrou ainda adolescente, por volta dos dezessete anos, como office boy e depois operador de contratos pequenos no MidAmerica Commodity Exchange, o pregão menor de Chicago, onde se negociavam lotes reduzidos de grãos, ovos e manteiga. O capital inicial veio da família e era da ordem de poucos milhares de dólares, segundo os relatos correntes. Na década seguinte ele passou a operar volumes grandes por conta própria e virou um nome conhecido da praça. O ponto que interessa aqui não é o tamanho da fortuna, número que varia conforme quem conta: é que Dennis não operava por intuição mística. Ele seguia tendências de preço com critérios escritos, e desconfiava que aquilo era ensinável a qualquer um.

Do outro lado estava William Eckhardt, sócio e amigo, vindo da pós-graduação em lógica matemática — alguém treinado profissionalmente para procurar o buraco num argumento. Eckhardt olhava para o desempenho de Dennis e via algo que não cabia num manual: tolerância ao risco, temperamento, uma relação específica com a dor de perder. E aqui está o detalhe que o resumo fácil da história costuma perder: foi justamente o descrente quem teve papel central na formalização das regras que seriam ensinadas. O homem que duvidava que se pudesse escrever o método ajudou a escrevê-lo.

A aposta

Convém ser honesto sobre o que foi essa aposta. Pelo que se conta, houve entre os dois uma aposta simbólica, de valor irrisório — o tipo de coisa que amigos combinam no fim de uma discussão. O que estava realmente em jogo era outra coisa: Dennis se dispôs a bancar o teste com capital de verdade, recrutando estranhos, treinando-os e entregando a cada um uma conta para operar. O critério de julgamento era o resultado dos alunos ao longo dos anos seguintes, medido pelo próprio Dennis, que pagava a conta e via os números todos os dias. Não houve árbitro externo nem regra de desempate publicada — o que explica por que, décadas depois, ainda se discute quem ganhou.

O recrutamento virou folclore merecido. Dennis publicou anúncios em jornais em 1983 — o Wall Street Journal entre eles — pedindo candidatos a trader, sem exigir passagem por Wall Street. Os relatos falam em mais de mil inscritos para algo em torno de dez a treze selecionados na primeira turma, com uma segunda turma formada em 1984. A seleção foi deliberadamente heterodoxa: entraram jogadores sérios de jogos de estratégia e de cartas, gente de xadrez e de backgammon, pessoas vindas de ocupações sem nenhuma relação com finanças.

Havia lógica nisso, e é um mecanismo que vale carregar o livro inteiro. Quem joga pôquer ou backgammon a sério já internalizou duas coisas que o investidor comum rejeita. Primeiro, que uma decisão correta pode dar errado e uma decisão errada pode dar certo — o resultado de uma mão não julga a estratégia. Segundo, que o tamanho da aposta importa tanto quanto a escolha da aposta. São, não por acaso, os dois pilares do que seria ensinado.

O treinamento foi curto, da ordem de duas semanas, seguido de um período operando valores pequenos e depois de contas bancadas por Dennis — contas que, nos relatos dos participantes, partiam da casa do milhão de dólares em capital nocional para operar futuros. Imagine o choque: alguém que meses antes entregava pizza ou jogava cartas profissionalmente, agora com ordens desse tamanho na mesa. O grupo ficou conhecido como Turtles, as Tartarugas, apelido ligado a uma frase do próprio Dennis depois de visitar fazendas de criação de tartarugas em Singapura: ele criaria traders do mesmo jeito, em escala e depressa. O nome pegou porque soava como piada e acabou virando marca registrada de uma escola inteira.

Por que o livro marcou

O experimento é a prova pública de uma coisa que o mercado daquele tempo negava: uma vantagem pode ser escrita. Não um conselho vago sobre disciplina, mas um conjunto de instruções operacionais — quando entrar, quanto comprar, quando aumentar, quando sair — executável por um estranho recém-treinado. É a certidão de nascimento cultural do trading sistemático como ofício ensinável, anos antes de "quantitativo" virar palavra comum.

E aqui está a parte menos repetida, a que faz o livro valer mais do que a lenda. Dennis provou sua tese de que o método se transfere e, no mesmo movimento, provou a de Eckhardt: a execução não se transfere inteira. Alguns alunos construíram gestoras que atravessaram décadas. Outros foram desligados do programa, ou simplesmente não aguentaram a sequência de prejuízos pequenos que antecede o ganho grande. O livro é manifesto a favor de regras e, ao mesmo tempo, evidência de que regras não bastam.

Serve, portanto, a dois tipos de leitor. O primeiro desconfia de talento inato e quer saber exatamente o que dá para codificar numa decisão de investimento. O segundo já tem método escrito e não consegue segui-lo: é o investidor que, no sexto mês de perdas, olha para a tela e vê a carteira 18% abaixo do topo enquanto o CDI rendeu tranquilamente no período, abre a planilha de regras, encontra lá o comando para zerar a posição e não executa — porque dessa vez parece diferente. Os dois saem com a mesma pergunta na mão, e é a pergunta que o resto desta edição tenta responder, inclusive com os números da B3: se o método pode ser ensinado em duas semanas, por que tão poucos conseguem executá-lo até o fim?

A resposta não está no que foi ensinado. Está no que o aluno precisava suportar depois.

Continua no capítulo 2
O manual cabia em duas semanas

As quatro ideias que Dennis e Eckhardt conseguiram escrever num papel — e a única que nenhum papel transmite.

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Guia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.