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More Money Than GodSebastian Mallaby · 2010
A leitura do Quantor · Crises, bolhas e história

More Money Than God

Sebastian Mallaby, 2010

Os hedge funds não ganharam dinheiro por serem mais inteligentes, e sim por serem estruturalmente livres — podiam vender a descoberto, alavancar e concentrar — e a história que Mallaby conta é a de um privilégio que foi sendo copiado, regulado e corroído até virar apenas mais uma indústria cara: para o investidor brasileiro, o que resta de aproveitável não é o gênio dos nomes célebres, é a mecânica fria por trás deles, e a B3 mostra que seguir o que os gestores compram não funciona, enquanto seguir a tendência funciona.

6 capítulos · cerca de 45 min de leitura · texto próprio do Quantor, com os números da B3
Este não é o livro. É a leitura do Quantor sobre ele: as ideias de Sebastian Mallaby explicadas com texto próprio, as histórias que o livro conta, o que envelheceu, e o que ele ensina testado com 20 anos de dados da B3. Para a obra completa, leia o original.

Sumário

  1. 1O jornalista que entrou no cofrePor que a melhor história dos hedge funds foi escrita por quem nunca geriu um — e o que ela realmente tenta provar7 min · aberto
  2. 2Liberdade é o ativoAs cinco engrenagens que explicam por que um arranjo jurídico, e não um talento, criou a indústria mais lucrativa de Wall Street.Explica as cinco engrenagens que Mallaby descreve — o hedge como licença para alavancar, o incentivo que molda o risco, a informação apurada no lugar da previsão, a assimetria das apostas macro e a ineficiência explorável — cada uma com o mecanismo por trás e o caso que a ancora. Mostra por que o mesmo arranjo que corrige preços errados também amplifica a instabilidade quando o crédito aperta.
  3. 3O livro testado na B3Copiar a carteira dos melhores gestores não passou no teste; seguir a tendência com saída para o CDI passou.A estratégia "O consenso dos gestores" — as 10 ações mais presentes nas carteiras das 40 maiores gestoras, revista todo mês — rendeu +9,7% ao ano de jan/2006 a set/2026 com pior queda de −49%, abaixo do CDI de +10,2% do mesmo teste, e foi reprovada. A regra de dual momentum (12 meses de Ibovespa contra CDI, com fuga para o caixa) fez +14,9% ao ano com pior queda de −20% no mesmo período e passou; venda a descoberto e arbitragem long-short, as ferramentas centrais do livro, não têm teste possível aqui.
  4. 4Os homens que apostaram contra bancos centraisDe Alfred Jones em 1949 à libra de 1992 e ao crash de 1987: cinco casos em que o retorno veio da estrutura e do tamanho da posição, não do palpite.Reconta os episódios que formaram a indústria — a sociedade de Alfred Jones e seu proto-beta, os blocos negociados por Steinhardt, a libra de 1992, outubro de 1987 com o seguro de carteira se alimentando da própria queda e o fim da Tiger em março de 2000 — extraindo de cada um o mecanismo: estrutura, liquidez, assimetria, sobrevivência e prazo. Liga isso à B3, onde desde 2000 houve 21 pregões de queda acima de quatro desvios-padrão e os dez melhores dias do Ibovespa caíram dentro das duas piores crises.
  5. 5O alfa que virou taxaOnde Mallaby é generoso demais com a indústria, e por que o privilégio que rendia em 1949 virou produto de prateleira caro.Mostra os quatro limites do livro: a amostra feita só de sobreviventes, a tese política abalada pelo resgate coordenado do LTCM em 1998, a erosão do retorno quando a estrutura virou commodity e o fato de que alavancagem, venda a descoberto e capital travado não transferem para o varejo brasileiro. Ancora cada limite em números dos testes do Quantor — as ações que saíram da B3 rendendo −1,3% ao ano contra o CDI de +10,5%, o consenso dos gestores caindo de +11,6% em 2013–19 para +6,4% em 2020–26 — e conclui que o livro é história, não método.
  6. 6O que dá para levar para casaDe um livro sobre bilionários alavancados sobram cinco disciplinas chatas, e são elas que aguentam o teste na B3.Traduz o livro em cinco disciplinas aplicáveis sem prime broker nem alavancagem: separar direção de tamanho, escrever a regra de saída antes da crise, tratar o CDI como posição, medir custo antes de admirar retorno e desconfiar do consenso. Ancora cada uma nos testes do Quantor — dual momentum com +14,9% ao ano e pior queda de −20% contra a 60/40 com +9,8% e −31% no mesmo teste, o consenso dos gestores reprovado, a régua EMA-5 cortando a pior queda em 407 de 437 ações.
Leitura Quantor · capítulo 1 de 6

O jornalista que entrou no cofre

Por que a melhor história dos hedge funds foi escrita por quem nunca geriu um — e o que ela realmente tenta provar

Sebastian Mallaby não escreveu um manual de investimento. Escreveu a biografia de uma estrutura financeira — um arranjo jurídico e de incentivos montado em 1949 que, por décadas, deu a um punhado de gestores liberdades que o resto do mercado não tinha. É por isso que o livro sobrevive enquanto quase toda a literatura de "como ganhar na bolsa" apodrece: estruturas duram mais do que táticas.

Quem escreve e de onde fala

Mallaby é jornalista britânico, com carreira longa em dois lugares que exigem argumento antes de adjetivo: a revista The Economist, onde passou anos, e o Washington Post, onde foi colunista. Quando publicou More Money Than God, em 2010, era pesquisador do Council on Foreign Relations, centro de estudos de política internacional em Nova York. Isso importa para ler o livro. Ele não chega pela porta do investidor, chega pela porta da política econômica — a pergunta que o move não é "como esse sujeito ficou rico", é "o que esse tipo de instituição faz com o sistema financeiro".

A consequência prática é o método. Mallaby obteve acesso a papéis de fundos e a gestores que raramente falam em público, e o resultado é um livro de repórter. O exemplo mais claro está na reconstituição da aposta contra a libra esterlina em 1992: o livro não se contenta com o resultado famoso, reconstrói a conversa interna entre George Soros e Stanley Druckenmiller sobre o tamanho da posição — quem queria quanto, e por quê. Esse tipo de material não sai de relatório público. Sai de entrevista com quem estava na sala. Não há fórmula em lugar nenhum. Há reconstituição.

Vale entender o atrito embutido nessa posição. Um jornalista que recebe acesso privilegiado a fontes poderosas corre o risco de ser capturado por elas, e parte da crítica ao livro foi exatamente essa. Mas o acesso também é o que permite descrever o que acontecia nas mesas em vez de teorizar de fora. O leitor atento segura as duas coisas ao mesmo tempo: é a melhor reportagem disponível sobre a indústria, feita por alguém que precisou da boa vontade dos retratados.

Onde Mallaby localiza o risco sistêmico

O livro sai no rescaldo da crise de 2008. O debate público daquele momento era simples e raivoso: alguém derrubou o sistema financeiro mundial, e quem foi. A resposta fácil apontava para a especulação, e dentro da especulação o alvo mais vistoso era o hedge fund — fundo opaco, alavancado, que ganha dinheiro com a queda dos outros.

Mallaby entra pelo contrapé. A tese política do livro é que a conta de 2008 nasceu em instituições reguladas, grandes e com garantia implícita do Estado: bancos comerciais, bancos de investimento, seguradoras, as agências hipotecárias americanas. Elas quebraram e foram socorridas com dinheiro público porque eram grandes demais e conectadas demais para cair. Hedge funds também perderam muito no período, e vários fecharam, mas fecharam sem fatura para o pagador de impostos. Com uma ressalva que o próprio livro não esconde: a essa altura o dinheiro dos fundos já não era só de indivíduos abastados — vinha também de fundos de pensão, dotações de universidades e fundos de fundos, ou seja, de beneficiários que nunca se viram como especuladores.

O mecanismo por trás do argumento é mais interessante que o slogan. Instituição com rede de proteção tem incentivo deformado: o ganho é privado, a perda tem socorro. Fundo sem rede tem o incentivo disciplinado pela ameaça de morte — se alavancar demais e errar, acaba, e o gestor costuma perder o próprio patrimônio junto, porque está investido ali dentro. Mallaby sustenta que esse arranjo produz mais cuidado com o risco de ruína do que o de um banco que se sabe resgatável.

Isso irritou gente dos dois lados, e com razão. De um lado, soou como defesa de bilionários num momento de desemprego em massa. Dentro do próprio setor, incomodou pela parte que o livro não esconde: há fundos que exigiram socorro coordenado e fundos que amplificaram crises, e Mallaby conta esses episódios. A tese não é "eles são inofensivos". É "o perigo se concentrou onde a regulação e a garantia pública criaram incentivo para alavancar".

Por que o livro marcou

Antes dele, a bibliografia sobre hedge funds era feita de biografias isoladas e de estudos técnicos de retorno. Faltava a linha contínua. Mallaby a constrói: começa em Alfred Winslow Jones, o homem que em 1949 monta uma sociedade de investimento combinando compras, vendas a descoberto e alavancagem, e segue até a geração movida a modelo estatístico, passando por Michael Steinhardt, George Soros, Julian Robertson e Paul Tudor Jones.

Em cada etapa, o livro faz a mesma pergunta: de onde vinha, concretamente, o retorno. Às vezes a resposta é informação — alguém soube antes, porque tinha relação com corretoras ou porque visitou a empresa. Às vezes é liquidez — alguém se dispôs a ser a contraparte de quem precisava vender rápido, e cobrou por isso. Às vezes é assimetria macro — alguém percebeu que um banco central defendia um preço em que ele mesmo não acreditava. E, em alguns casos, a resposta honesta é que o retorno veio de alavancagem aplicada a uma vantagem pequena, até o dia em que o mercado se moveu na direção errada.

Essa taxonomia é o que separa o livro de uma coletânea de perfis. Fortuna grande é consequência; o objeto de estudo é a fonte do ganho. Já o título trabalha noutro registro: ele é uma expressão de exagero, do tamanho de uma fortuna que escapa de qualquer medida, e carrega o tom com que a indústria passou a ser tratada — metade reverência, metade sarcasmo.

Para quem este livro serve

Não serve a quem procura receita. Não há regra de entrada, critério de seleção de ações nem carteira modelo. Quem abrir à procura disso vai fechar frustrado.

Serve a quem quer entender mecanismo de incentivo. O leitor sai sabendo por que uma taxa cobrada sobre o lucro atrai gente agressiva, por que capital travado por anos permite carregar posição impopular, por que a liberdade de vender a descoberto muda a natureza da aposta e por que nada disso é mágica — é arquitetura. E sai com uma suspeita que vai ser cobrada adiante: vantagem copiada deixa de ser vantagem, e o que era raro em 1949 já era comum em 2010.

Serve, também, a quem desconfia da ideia de que o preço está sempre certo. O argumento implícito é que esses fundos só existiram porque os preços erram de forma sistemática, e que corrigir esses erros é um serviço pelo qual alguém cobra. O que isso tem de problemático — o mesmo agente que acerta o preço pode desgovernar o mercado quando está alavancado e acompanhado — é assunto do próximo capítulo.

Para o leitor brasileiro há uma camada extra, e ela não é pequena: quase nada do que esses gestores faziam está disponível aqui na mesma escala. O que dessa mecânica atravessa o Atlântico, e o que fica em Manhattan, é o problema do capítulo 3. Ler o livro daqui exige essa triagem.

A pergunta que o livro responde

Reduzida ao osso, a questão é uma só: aquele dinheiro veio de talento, de estrutura ou de sorte? Se veio de talento, deveríamos conseguir identificar os talentosos antes, e não depois. Se veio de estrutura, a vantagem some quando a estrutura se populariza — e foi mais ou menos o que aconteceu. Se veio de sorte, estamos olhando para os sobreviventes de um torneio enorme e chamando de gênio o que é seleção.

Mallaby distribui o crédito entre os três, mas o peso do livro cai na estrutura: é a liberdade de operar que aparece em cada personagem, em cada década, enquanto os nomes se revezam. Nossa leitura vai um passo além da dele. A sorte pesa mais do que o livro admite, porque quem desapareceu não deu entrevista — e essa conta é o capítulo 5. O que nos interessa é a pergunta seguinte, que Mallaby não responde porque não era o trabalho dele: o que disso é transferível para quem investe fora de Nova York, com capital próprio, sem alavancagem barata e sem mesa de operações.

Antes de testar qualquer coisa na B3, é preciso entender exatamente qual era a vantagem — e ela começa numa palavra: liberdade.

Continua no capítulo 2
Liberdade é o ativo

As cinco engrenagens que explicam por que um arranjo jurídico, e não um talento, criou a indústria mais lucrativa de Wall Street.

Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.

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Guia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.