Um jornalista escocês contra o século
Como um homem de redação, que nunca operou uma mesa, escreveu o manual involuntário das bolhas financeiras.
Charles Mackay não era investidor, não era economista e nunca administrou dinheiro de ninguém. Era jornalista — e foi justamente por isso que escreveu o livro que gente de mercado passou quase dois séculos recomendando: ele não tentou explicar o preço, tentou explicar quem paga o preço.
O homem e a redação
Mackay nasceu em Perth, na Escócia, em 1814, e morreu em Londres em dezembro de 1889. Passou a vida dentro do mesmo ofício: escrever para jornal. Foi redator e editor, autor de letras de canções populares e de versos patrióticos que a Inglaterra vitoriana cantava e esquecia na década seguinte. Quando publicou o livro, em 1841, trabalhava na imprensa londrina, no Morning Chronicle. A carreira de editor-chefe veio depois, no Glasgow Argus, e guarde esse detalhe: ele volta algumas linhas adiante, e volta constrangedor.
O ofício importa mais do que parece. Um homem de jornal do século XIX trabalhava de um jeito específico: juntava recortes, lia panfletos velhos, compilava, citava, costurava. Não fazia o que hoje se chamaria de pesquisa de fonte primária. Não foi aos arquivos de Haarlem conferir contratos de bulbo nem examinou a escrituração da Companhia dos Mares do Sul. Leu quem já tinha escrito sobre aquilo, em geral com um século de atraso e com intenção moral explícita.
Um detalhe que o leitor exigente cobra: o título de 1841 era Memoirs of Extraordinary Popular Delusions. A expressão que hoje batiza o livro — and the Madness of Crowds — só entra na segunda edição, de 1852. O próprio título mudou para onde a reputação do livro já estava indo: não os delírios em si, mas a multidão que os produz. A edição de 1852 é também a que traz o prefácio com a frase mais citada da obra.
O resultado é estranhamente moderno. Mackay escreve com ritmo de reportagem: abre com cena, acumula detalhe pitoresco, arremata com juízo. Ele quer que você veja a multidão na rua, não que entenda a estrutura de capital da companhia. Ao descrever a Paris de 1719, o que fica é o barulho: carruagens emperradas, gente dormindo na calçada, criados que viraram ricos. Ao descrever a Holanda de 1636, o que fica é o absurdo da lista de mercadorias trocadas por um bulbo. É jornalismo de costumes aplicado ao dinheiro, e por isso o texto envelheceu melhor do que quase toda a economia escrita no mesmo século.
O preço dessa escolha aparece no capítulo 5 deste mini-livro. Jornalista que compila panfleto não checa panfleto. Mas o ganho explica a longevidade: Mackay foi dos primeiros a tratar bolha financeira como fenômeno de comportamento coletivo, e não como erro técnico de política monetária nem como castigo divino sobre a ganância. Ele pôs a tulipa, a caça às bruxas, a alquimia, as cruzadas, as profecias do fim do mundo e até as modas de cabelo e barba no mesmo volume, sob o mesmo diagnóstico. A tese implícita é brutal: o mecanismo é o mesmo, muda o objeto.
1841: escrever sobre a mania e depois entrar nela
Olhe o ano de publicação. 1841, Inglaterra. O país carregava o trauma de 1720 na memória nacional — a Bolha dos Mares do Sul havia estourado cento e vinte anos antes. Dela ficou a Bubble Act, aprovada em junho de 1720, ou seja, antes do colapso, e não como punição depois dele. Historiadores argumentam com força que a lei serviu aos interesses da própria Companhia dos Mares do Sul, sufocando a nuvem de companhias-cópia que disputava com ela o dinheiro do público. A lei que a posteridade leu como remédio contra bolhas nasceu, muito provavelmente, como arma de uma bolha contra suas imitadoras. Só foi revogada na década de 1820. Mackay escrevia para um público convencido de que aquilo era coisa de um passado tolo, de gente de peruca.
O que veio depois dá o sabor da história. Na primeira metade dos anos 1840, a Inglaterra entrou numa das maiores euforias financeiras que já viveu: a mania das ferrovias. Companhias ferroviárias se multiplicaram, o Parlamento aprovou centenas de projetos de linha, poupadores de classe média que nunca tinham comprado uma ação subscreveram papéis com entrada pequena e o compromisso de integralizar o resto depois. Os preços subiram até meados da década e então desabaram. Muita linha nunca foi construída. Muita gente ficou devendo a parcela de um ativo que não valia mais nada.
E Mackay? Entre 1844 e 1847, no auge exato da febre, ele era o editor do Glasgow Argus. A literatura sobre o episódio documenta, a partir dos editoriais do próprio jornal, que a linha editorial sob seu comando foi entusiasmada com as ferrovias enquanto a mania corria. O autor do catálogo das loucuras coletivas estava no comando de um jornal que ajudava a alimentar uma delas, três anos depois de publicar o catálogo.
Não conte isso como piada. Conte como evidência. O conhecimento histórico da bolha não imuniza ninguém contra a bolha, porque o que falta no momento da decisão não é informação, é critério escrito. Saber tudo sobre 1720 não dá régua nenhuma para julgar 1845. A diferença entre os dois casos é que o primeiro já havia terminado e o segundo tinha narrativa plausível por trás: a ferrovia era real, mudava a economia, encurtava distâncias. Bolha com fundamento verdadeiro por trás é a mais difícil de todas, porque quem alerta parece burro, e quem alerta cedo parece burro por anos.
Guarde a cena: o especialista em delírio coletivo, com cadeira de editor dentro de um delírio coletivo. É o melhor argumento a favor de ler este livro e contra a ilusão de que lê-lo basta.
Por que o mercado adotou um livro que não é sobre mercado
Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds não foi escrito para investidores. Dos três volumes originais, apenas a primeira parte trata de dinheiro; o resto são bruxas, relíquias, alquimistas, duelos, envenenadores, casas mal-assombradas, cruzadas. Mackay queria um painel da credulidade humana, não um estudo de finanças.
A adoção pelo mercado veio por tabela e veio devagar. Ao longo do século XX o livro foi sendo passado de operador para operador, de gestor para gestor, até virar aquele título que aparece em toda lista de leituras obrigatórias montada por profissional de investimento. O empurrão mais conhecido veio de Bernard Baruch, especulador americano que fez fortuna em Wall Street: ele assinou o prefácio da edição de 1932 — publicada, portanto, no fundo da Depressão — e usou o livro como leitura operacional, não histórica. Em suas memórias, Baruch atribuiu à leitura de Mackay parte da desconfiança que o fez reduzir risco antes do crash de 1929. O que ele extraiu do texto não foi erudição: foi a noção de que a multidão vira sinal, e que sinal de multidão é sinal de saída.
Depois disso, o padrão se fixou. O livro reaparece nas livrarias a cada ciclo de euforia: na ponto-com de 1999–2000, na crise de 2008, na corrida de ativos digitais de 2021. É o tipo de obra que ninguém precisa relançar — basta esperar o mercado relançar o enredo.
Por que um livro de 1841, com erros de fato, sobrevive a toda a literatura técnica que surgiu depois? Porque responde à pergunta que a planilha não responde. O investidor que perde dinheiro numa bolha raramente perde por não saber calcular. Perde por ter mudado de opinião sobre o que é razoável, junto com todo mundo, sem registrar o momento da mudança. Mackay descreve exatamente esse deslocamento: o padrão do que é aceitável se move coletivamente, até o absurdo virar conversa normal de jantar.
E há a frase. No prefácio da edição de 1852, Mackay escreveu a sentença que virou a coisa mais citada do livro:
"Bem se disse que os homens pensam em rebanho; e em rebanho enlouquecem, enquanto só recuperam o juízo devagar, um a um."
É uma frase de jornalista: simétrica, memorável, exagerada no ponto certo. Carrega uma assimetria que vale todo o resto. A entrada na loucura é coletiva e rápida; a saída é individual e lenta. A consequência prática é direta: na subida você tem companhia, na descida fica sozinho com a decisão de vender, e a multidão que lhe deu coragem para comprar não aparece para lhe dar coragem de sair.
A arquitetura do original e o recorte desta versão
O livro original é um bazar. Mackay abre com três capítulos financeiros — o esquema do Mississippi na França, a Bolha dos Mares do Sul na Inglaterra e a tulipomania holandesa — e depois parte para território completamente diverso: alquimistas atrás da pedra filosofal, profecias do juízo final, adivinhação, magnetismo animal, caçadores de bruxas, envenenamento lento como moda aristocrática, peregrinações, relíquias, a popularidade de assassinos, os ditados idiotas que tomam uma cidade e somem em seis meses.
Esta versão fica com os três primeiros. Não por desprezo ao resto, mas porque é lendo os três juntos que a anatomia aparece. Separados, cada um vira curiosidade histórica: o francês que acreditou em papel, o inglês que acreditou em comércio colonial, o holandês que acreditou em flor. Lado a lado, a semelhança é constrangedora.
Os três acontecem num intervalo de cerca de oitenta anos, em três países diferentes, com três ativos sem relação entre si. Os três esbarram em dívida pública: a França de Law tentava resolver o passivo deixado pelas guerras de Luís XIV, a Companhia dos Mares do Sul existia para converter dívida do governo inglês em ações, e a Holanda vivia o auge de um comércio financiado por crédito. Nos três há um instrumento novo que o público ainda não sabia precificar: papel-moeda de banco, ação de companhia privilegiada, contrato a termo de bulbo. E nos três o ativo final não tinha fluxo de caixa verificável por quem comprava. Ninguém em Paris sabia o que havia de fato na Luisiana. Quase ninguém em Londres tinha visto o comércio dos Mares do Sul acontecer — e em boa medida ele não acontecia. Um bulbo de tulipa não paga nada a ninguém: ele floresce.
Mackay organizou os episódios do maior estrago financeiro para o maior ridículo aparente. Seguimos essa ordem no capítulo 4, por uma razão pedagógica: começar pelo caso em que um Estado inteiro endossou a loucura é a melhor vacina contra a ideia confortável de que bolha é coisa de amador.
Para quem este livro serve e para quem não serve
Este não é um livro que ensina a operar. Não tem indicador, não tem regra de entrada, não tem critério de saída. Mackay nunca diz quando vender. Ele nem acha a pergunta interessante: para ele, o certo seria não ter comprado.
O livro serve a quem quer entender a mecânica social do preço. É um estudo de comportamento com datas, nomes e cifras, com o detalhe de rua que nenhum manual tem. Serve especialmente a três tipos de leitor.
Serve a quem está vivendo uma alta forte e quer um espelho histórico para a própria sensação, porque o argumento de que "desta vez é diferente" é universal e reaparece sempre com a mesma roupa. Serve a quem precisa explicar a outra pessoa por que uma história bonita não é um ativo. E serve, com ironia, a quem acha que não cairia nessa: os personagens de Mackay não são ignorantes. São banqueiros, duques, membros do Parlamento, comerciantes ricos de Amsterdã — gente que fazia conta melhor que a média da população. O autor do livro, aliás, também não caiu por burrice: caiu por estar numa redação, lendo as mesmas notícias que todo mundo.
Não serve a quem procura confirmação para ficar fora do mercado. Esse é o uso errado mais comum do livro, e voltaremos a ele. Quem lê Mackay e conclui que tudo que sobe é bolha passa décadas vendo preço subir e chamando de loucura o que era só preço subindo.
O aviso de leitura
Mackay trata vários episódios como peça moral, com vítimas inocentes e vilões óbvios, quando a realidade tinha incentivos legítimos, problemas fiscais reais e decisões defensáveis executadas com fraude. E a cifra que ele repassa nem sempre resiste à conferência: o preço estratosférico de um único bulbo de tulipa, listado em bois, trigo, queijo e carruagem, vem de panfleto do século XVII escrito para condenar a especulação, não de registro de negócio — e a pesquisa moderna mostra que negócios assim, quando existiram, eram exceção num mercado estreito. O capítulo 5 abre essa conta inteira, caso a caso. Por ora, basta o aviso: os episódios que você vai ler no capítulo 4 são verdadeiros no desenho e inflados no detalhe.
Isso não invalida a obra. Muda o modo de usá-la. Leia Mackay como diagnóstico de comportamento, não como história econômica verificada. Ele comprou a fonte sem desconfiar dela — exatamente o pecado que o livro inteiro denuncia — e ainda assim acertou o padrão.
Esta versão faz uma coisa que Mackay não podia fazer: testa. O capítulo 3 pega a intuição central do livro, a de que preço subindo atrai comprador e preço desabando o afugenta, e mede o que cada um dos dois lados teria rendido em duas décadas de bolsa brasileira — com custo de corretagem, com as ações que saíram da bolsa incluídas e com o CDI sentado do outro lado da mesa cobrando pedágio. O resultado não é o que a leitura moral do livro faz esperar, nem para um lado nem para o outro.
Fica a pergunta que Mackay perseguiu por centenas de páginas e nunca fechou: o que faz pessoas sensatas, informadas e bem-sucedidas pagarem qualquer preço ao mesmo tempo — e o que, exatamente, se repete em cada vez?
As cinco engrenagens que fazem uma mania se repetir, de Haarlem a Londres, sempre na mesma sequência interna
Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.
Leia o livro inteiro com uma contaGuia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.