O historiador que entrou no pregão
Edward Chancellor publicou em 1999 uma história de quatro séculos de febres financeiras — e o mercado passou os dois anos seguintes dando razão ao método dele.
Em 1999, quando o Nasdaq subia como se tivesse descoberto uma lei física nova, um historiador inglês publicou um livro dizendo que aquilo já tinha acontecido na Holanda do século XVII, em Londres em 1720, nas ferrovias britânicas dos anos 1840, em Nova York em 1929 e em Tóquio nos anos 80. Não era previsão. Era arquivo.
Um livro escrito contra o próprio momento
Edward Chancellor lançou Devil Take the Hindmost no momento mais hostil possível para a sua tese. A bolsa americana vivia anos seguidos de alta forte, empresas sem lucro abriam capital e disparavam no primeiro pregão, e a frase que circulava nas mesas e nos jornais era a mais cara da história financeira: desta vez é diferente. Havia argumento sofisticado por trás, não só ganância. A internet era real, a produtividade americana tinha acelerado, a inflação estava domada, o Fed parecia ter aprendido a suavizar os ciclos. Gente respeitável explicava por que os múltiplos antigos não serviam mais para medir empresas novas.
O livro chegou às livrarias dizendo que esse conjunto de argumentos é o sintoma, não a refutação. Chancellor não tentou provar que a internet não valia nada — tentou mostrar que toda mania anterior também veio com uma tecnologia verdadeira, uma elite convencida e uma teoria respeitável de por que o passado não se aplicava. Em março de 2000 o Nasdaq fez o topo e começou a queda que levaria o índice a perder a maior parte do seu valor até 2002. O livro, que no lançamento soava como resmungo de historiador, virou leitura obrigatória.
Vale separar duas coisas que costumam se confundir. Chancellor não acertou um timing. Ele não escreveu "venda em março de 2000", e as páginas finais, dedicadas à euforia que ele via acontecer em tempo real, são diagnóstico de padrão, não sinal operacional. O que a década seguinte validou foi o método: ler o presente financeiro como quem lê documento antigo, procurando a estrutura por baixo da manchete.
O historiador que foi trabalhar num banco
A biografia explica o ângulo. Chancellor estudou História em Cambridge e depois em Oxford — formação em arquivo, fonte primária, narrativa de século — e só então foi para o mercado, no banco de investimento Lazard, nos anos 90. De lá saiu para o jornalismo financeiro e para a análise de investimentos, escrevendo para publicações de referência e trabalhando com gestão de recursos. Mais tarde ficaria conhecido também por escrever sobre o preço do dinheiro e sobre os efeitos de juros mantidos artificialmente baixos, tema que é a continuação lógica deste livro.
Essa trajetória define o que ele enxerga. Um analista treinado em finanças olha uma ação cara e pergunta qual premissa de crescimento justifica o preço. Um historiador olha a mesma ação cara e pergunta quem está comprando, com dinheiro de quem, contando qual história para si mesmo e para quem pretende revender. São perguntas diferentes e produzem respostas diferentes — e só a segunda explica por que o preço continua subindo depois que a premissa de crescimento já ficou absurda.
O material do livro vem desse treino: panfletos, sátiras, poemas, atas de companhias, cartas de investidores arruinados, crônica de jornal. A especulação aparece como fenômeno cultural documentado, com vocabulário próprio e elenco recorrente — o promotor carismático, o político sócio do negócio, o jornalista financiado, o pequeno investidor que chega no último trimestre. Quem lê percebe rápido que está diante de um comportamento humano estável, não de uma falha técnica que a regulação de cada época resolveria de vez.
O que o livro é — e o que ele não é
Não é manual. Não há regra de compra, critério de valuation, carteira sugerida nem método para lucrar com bolhas. Quem procura isso termina o livro frustrado. Devil Take the Hindmost é uma história da especulação financeira do século XVII até o fim do século XX, organizada para que a repetição fique visível: a tulipa holandesa, a Companhia dos Mares do Sul e o sistema de John Law em 1720, a mania ferroviária britânica, a febre americana dos anos 1920 com o crash de 1929, a bolha japonesa dos anos 80 e, no encerramento, a euforia tecnológica que ainda estava em curso enquanto o autor escrevia.
O título vem de um ditado inglês antigo: devil take the hindmost, o diabo que leve o último. É o que se grita numa corrida em que ninguém quer ficar para trás. Como descrição de bolha, é exata. A lógica da mania não é "todo mundo acha que isso vale esse preço". A lógica é "quase todo mundo desconfia que não vale, e cada um calcula que consegue repassar o papel antes do fim". A multidão não está hipnotizada. Está apostando que a porta de saída é larga para ela e estreita para os outros.
Daí nasce a observação mais desconfortável do livro. A bolha não exige ingenuidade: ela se alimenta de gente esperta. O cínico que entra sabendo que é mania sustenta o preço tanto quanto o crente, e às vezes por mais tempo, porque usa mais dinheiro emprestado. O desastre não vem da burrice coletiva, vem de um problema de coordenação sem solução: todos querem sair no penúltimo dia.
De onde ele fala
Chancellor escreve dentro de uma tradição anglo-saxã que trata a finança como assunto de história e de literatura. É a linhagem de Charles Mackay no século XIX, com suas ilusões populares, de John Kenneth Galbraith narrando 1929 com ironia, de Charles Kindleberger organizando as crises em fases de mania, pânico e colapso. Nessa tradição, o número é ilustração; o documento, a sátira e o comportamento são a prova.
O contraste com o ambiente intelectual dos anos 90 não poderia ser maior. A economia financeira acadêmica dominante partia de mercados eficientes: o preço reflete a informação disponível, bolha é difícil de identificar antes do fato, e quem diz que o mercado está errado costuma ser quem está errado. Chancellor responde com quatro séculos de preços que não refletiam nada além do desejo de revender. Nenhum dos dois lados está inteiramente certo, e é bom guardar isso desde já: o livro ganha em descrição e perde em teste. Ele mostra que a febre existe e se repete. Não mostra como separar, em tempo real, a febre que vai estourar da alta que vai se confirmar.
Para quem este livro serve
Serve para quem já entende o básico de análise — preço, lucro, múltiplo, risco — e percebeu que isso não explica por que as pessoas compram o que compram na hora em que compram. Serve para quem desconfia, com razão, de que cada geração reinventa a mesma febre com uma palavra nova: companhia de navegação, ferrovia, rádio, conglomerado, pontocom, cripto, inteligência artificial. E serve de um jeito particular para o investidor brasileiro, que carrega uma vantagem estranha nessa história: aqui existe um concorrente sem risco pagando juro real alto, e isso muda o cálculo de entrar numa dança sabendo que a música vai parar.
Não serve para quem quer sinal de compra. Não há nenhum, e o autor não finge que há.
Sobra então a pergunta que organiza o livro inteiro e que só uma história de quatro séculos consegue formular com a força devida: se toda bolha termina igual, se a sequência está documentada desde 1637 e qualquer pessoa pode lê-la, por que ela acontece de novo, com gente inteligente, em todos os séculos? A resposta começa no roteiro — e o roteiro tem ingredientes fixos.
Crédito farto, um mercado sem régua de preço, uma teoria da nova era e a aposta de que o último é sempre o outro.
Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.
Leia o livro inteiro com uma contaGuia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.