O repórter que entrou na sala dos operadores
Como um analista de futuros de Nova York conseguiu que os grandes operadores dos anos 1980 falassem, e por que as respostas deles não combinam entre si.
Em 1989 ninguém de fora sabia como um grande operador realmente pensava. Havia manuais de análise técnica, economistas com previsões e o folclore dos pregões, mas faltava o registro em primeira pessoa de alguém que tivesse multiplicado dinheiro de verdade explicando o que fazia quando a posição virava contra. Jack Schwager preencheu esse vazio com um instrumento modesto — o gravador — e com uma vantagem que nenhum jornalista tinha: ele já era do ramo, e por isso sabia fazer a segunda pergunta.
Quem era o entrevistador
Schwager não chegou às mesas de operação como repórter curioso. Economista de formação, passou boa parte dos anos 1970 e 1980 em corretoras de Nova York dirigindo pesquisa de futuros — a função de quem escreve os relatórios sobre soja, cobre, juros e moedas que o cliente lê antes de montar posição. Antes de virar entrevistador, já havia produzido material técnico extenso sobre mercados futuros, o tipo de texto que exige entender margem, rolagem de contrato, base e spread entre vencimentos.
Isso muda tudo numa entrevista. Quando um operador descreve uma posição comprada em uma moeda contra outra, com a curva de juros fazendo determinada coisa, o jornalista generalista anota e segue em frente. Schwager interrompia. Perguntava qual era o tamanho daquilo dentro do fundo, onde estava o ponto de saída, o que teria que acontecer para o entrevistado admitir que a tese estava errada. A diferença entre um livro de entrevistas esquecível e este está inteira aí: a pergunta seguinte. É ela que arranca a mecânica da decisão em vez da narrativa limpa que todo vencedor conta sobre si mesmo depois do fato.
Há um segundo efeito, mais sutil. Operadores de alto nível costumam desconfiar da imprensa porque sabem que serão transformados em caricatura — o gênio, o apostador, o sortudo. Falar com alguém que conhece o vocabulário reduz esse risco. O entrevistado percebe em dez minutos se o interlocutor entende, e se entende ele relaxa e fala do que interessa: dos erros. Boa parte do valor do livro são confissões de prejuízo que nenhum desses homens faria num programa de televisão.
Registre também o que Schwager não era: não era um gestor de sucesso escrevendo sobre a própria genialidade. Essa distância importa. Ele não tinha tese pessoal a defender sobre como se opera, e por isso aceitou publicar entrevistas que se contradizem frontalmente. Um autor com método próprio a vender teria editado as contradições. Ele as deixou na página.
O mercado que ele encontrou
Os anos 1980 foram o período mais instrutivo do mercado americano desde a Depressão, e os entrevistados são filhos dessa instabilidade. O fim do sistema de Bretton Woods, no início da década anterior, soltou as moedas para flutuar e criou em poucos anos um mercado enorme onde antes havia paridade administrada. Os futuros financeiros — índices, juros, câmbio — nasceram e se espalharam nesse intervalo. Um operador de 1985 podia tomar risco em moeda, em título do Tesouro americano e em índice de ações com alavancagem alta e custos que hoje pareceriam proibitivos, mas que na época eram a única porta de entrada para esse tipo de exposição.
A inflação americana dos anos 1970 e o aperto monetário conduzido por Paul Volcker no Federal Reserve levaram os juros a patamares que uma geração inteira nunca tinha visto, e depois os trouxeram para baixo ao longo de anos. Quem operava commodities nos anos 1970 ganhou dinheiro em tendências inflacionárias longas; quem operava juros nos anos 1980 ganhou na desinflação. São regimes opostos, e vários entrevistados atravessaram os dois. Isso explica por que tantos deles falam de tendência: viveram num período em que os preços andavam em linhas longas, com fundamentos macro empurrando por trás.
E havia outubro de 1987. Na segunda-feira 19 de outubro, o Dow Jones perdeu 22,6% num único pregão, e o episódio estava fresco na memória de todos os entrevistados — várias conversas passam pelo que cada um fez naqueles dias. Não por dramaticidade: aquele dia funcionou como exame simultâneo para todo mundo que tinha risco em pé. Quem tinha política de perda definida antes saiu de pé; quem tinha convicção sem limite, não. O livro é, em boa medida, a coleção de depoimentos de quem passou nesse exame.
O desenho do livro
A estrutura é simples ao ponto de parecer preguiçosa: entrevistas longas, em primeira pessoa, uma por capítulo, cada uma precedida de uma apresentação curta e seguida de comentários do autor. Sem taxonomia, sem capítulo teórico de abertura explicando como tudo se encaixa. O leitor é jogado dentro da conversa.
Os entrevistados vêm de mundos diferentes de propósito. Há operadores de futuros e moedas com horizonte de dias e semanas, como Bruce Kovner e Michael Marcus. Há Ed Seykota, que construiu sistemas de tendência computadorizados desde os anos 1970, quando isso significava trabalhar com cartões perfurados e computadores de grande porte. Há Richard Dennis, que começou pequeno nos pregões de Chicago e ficou famoso por treinar um grupo de iniciantes para operar com regras — o experimento das Tartarugas. Há Paul Tudor Jones, gestor macro. Há Marty Schwartz, operador de curtíssimo prazo movido a gráficos. Há Jim Rogers, que despreza gráficos e pensa em anos. Há Michael Steinhardt, gestor de ações conhecido por ganhar dinheiro ficando do lado oposto do consenso. Há Tom Baldwin, operador de piso em contratos de Tesouro. Há William O'Neil, vindo do mundo das ações, com um método de critérios explícitos de lucro e força de preço.
Ponha essas pessoas na mesma sala e elas brigam. O operador de tendência compra o que subiu; o contrário compra o que ninguém quer. O gráfico é a verdade para um e ruído para o outro. O horizonte vai de minutos a anos. Schwager não resolve a briga, e essa é a decisão editorial mais importante do livro. Ao não eleger um vencedor entre os métodos, ele obriga o leitor a procurar o que sobra quando os métodos se anulam. O que sobra, como o próximo capítulo vai detalhar, é um punhado de convicções sobre perda e tamanho de posição.
Por que o livro marcou
Três coisas aconteceram com a publicação. A primeira é que nasceu um gênero. A entrevista de investimento como literatura — longa, técnica, sem maquiagem de assessoria de imprensa — virou formato, e quase todo livro posterior de conversas com gestores, em qualquer país, deve alguma coisa a esse molde. O próprio Schwager seguiu a trilha com outros volumes, ouvindo operadores de ações, gestores de fundos e, mais tarde, nomes de gerações seguintes.
A segunda é que o operador saiu do anonimato. Até ali, quem administrava dinheiro em futuros era, para o público, uma figura sem rosto. Depois do livro, nomes como Kovner, Tudor Jones e Seykota viraram referência citada por gente que nunca operou um contrato na vida. Isso teve custo — criou culto de personalidade e um mercado de imitação —, mas teve um ganho grande: tornou discutível em público uma prática que antes se transmitia por aprendizado fechado dentro de corretoras e pregões.
A terceira é a mais incômoda e a mais valiosa. O livro demonstrou, por acumulação de casos, que não existe um método vencedor único. Isso era heresia comercial. A indústria que cercava o investidor nos anos 1980 — cursos, boletins, "sistemas" vendidos por correspondência com promessa de acerto — dependia exatamente da crença contrária. Se um punhado de pessoas ganha muito dinheiro com abordagens incompatíveis entre si, o produto "sistema vencedor" perde o sentido. O que resta como denominador comum não é vendável em caixa fechada: é controle de perda, disciplina e autoconhecimento, três coisas que ninguém entrega pronto a outra pessoa.
Há ainda um efeito de prazo mais longo, que só ficou visível depois. O livro ajudou a popularizar a ideia de que o resultado de um operador é melhor descrito pela distribuição dos seus prejuízos do que pela qualidade das suas previsões. Hoje isso virou lugar-comum em gestão de risco. Em 1989, dito na primeira pessoa por quem tinha feito a conta crescer, era novidade.
Para quem serve, e para quem não serve
Quem abre este livro procurando um setup sai frustrado, e com razão. Não há uma regra reproduzível e completa em lugar nenhum dele. Os entrevistados descrevem princípios, não instruções: quando o mercado sobe com notícia ruim, há força; quando a posição anda contra, reduza; nunca coloque numa ideia mais do que você aguenta perder sem mudar de comportamento. Nada disso é operacionalizável sem que o leitor preencha os parâmetros por conta própria.
Serve, portanto, a três perfis. Ao operador ativo, como espelho — ele vai se reconhecer nos erros descritos com precisão desconfortável. Ao gestor profissional, como catálogo de políticas de risco testadas com dinheiro real em regimes muito diferentes. E, menos obviamente, ao investidor de longo prazo que nunca vai operar futuros na vida.
O terceiro caso merece explicação, porque é o que justifica um mini-livro brasileiro sobre o tema. O assunto de verdade do livro não é operar. É dimensionar e sobreviver. A pergunta "quanto do meu patrimônio vai numa única ideia" e a pergunta "em que condição eu admito que errei" valem igualzinho para quem compra uma ação pensando em segurar dez anos. A diferença entre o investidor que atravessa uma queda de 50% numa posição concentrada e o que vende no pior momento raramente é analítica; é de tamanho definido antes. O livro é um tratado disfarçado sobre o tamanho da aposta, e o disfarce de histórias de pregão fez muita gente ler como aventura o que era manual de sobrevivência.
Para quem não serve: para quem quer previsão. Nenhum dos entrevistados vende certeza sobre onde o mercado vai. Vários dizem com todas as letras que erram em boa parte das operações e que isso não os incomoda, porque a conta fecha pelo tamanho dos acertos contra o tamanho dos erros, não pela contagem de acertos. Quem procura o próximo movimento do dólar está no livro errado.
O defeito que já nasce na primeira página
Há um problema de método na origem do projeto, e é melhor nomeá-lo logo: todos os entrevistados foram escolhidos porque já tinham vencido. A seleção acontece depois do resultado.
O efeito é conhecido e traiçoeiro. Se muita gente opera com a mesma filosofia de risco e alguns poucos ficam ricos, entrevistar esses poucos produz a conclusão de que a filosofia funciona — mesmo que os demais tenham desaparecido fazendo exatamente a mesma coisa. Nenhuma frase dita por um vencedor prova que a prática descrita causou a vitória; pode ser que a prática seja neutra e o que tenha separado os destinos foi sorte, capital inicial, acesso ou o regime de mercado em que cada um começou. O livro não tem como responder a isso, porque não há no volume um único operador que tenha quebrado contando o que fazia.
Isso não invalida o que está escrito. Invalida uma leitura ingênua do que está escrito. E dá o roteiro do que precisa vir depois: pegar as poucas ideias que aparecem repetidas nas entrevistas, transformá-las em regras explícitas e submetê-las a dados — inclusive os dados dos períodos e das empresas que não deram certo. É o que faremos no capítulo 3, com ações brasileiras desde 2006, contando também as companhias que saíram da bolsa, que são o equivalente, no mundo das empresas, dos operadores que o livro não entrevistou.
Guarde essa assimetria. É o fio que amarra o mini-livro inteiro: o original é uma amostra de sobreviventes contando o que fizeram; o nosso trabalho é olhar a amostra completa e ver quanto da história se sustenta.
A pergunta que o livro responde
Reduzido ao osso, o livro de Schwager propõe um enigma e o resolve de um jeito que decepciona quem queria atalho. O enigma: se um ganha comprando o que subiu e o outro ganha comprando o que caiu, se um vive de gráfico e o outro de balanço, se um opera em minutos e o outro em anos, e todos ganham dinheiro por muitos anos, então o método não pode ser a causa. O que é?
A resposta, construída entrevista por entrevista sem nunca ser anunciada como fórmula, é que o que separa quem ganha de quem quebra não está na entrada. Está na relação de cada um com a perda — quanto se perde por ideia, com que velocidade se admite o erro, quanto de patrimônio está em jogo quando a tese desaba. Métodos incompatíveis convivem porque o método é apenas a fonte da vantagem, e vantagem, sozinha, não sobrevive a um dimensionamento ruim.
Essas convicções compartilhadas são cinco, e aparecem com regularidade incômoda na boca de gente que discorda de todo o resto.
Os entrevistados de Schwager brigam sobre gráficos, prazos e mercados, mas concordam em cinco pontos — e todos são sobre perda e tamanho, nenhum sobre acerto.
Leia o livro inteiro com uma conta: os 6 capítulos no leitor do app, continuando de onde você parou.
Leia o livro inteiro com uma contaGuia de estudo com texto próprio do Quantor sobre o livro; não substitui a leitura do original. A capa é uma criação nossa, não a da editora.