Entrar
Ideias testadas nos dadospor Vinícius Rosa · 6 min de leitura

Seguir dica de guru é operar no escuro com a lanterna dos outros

Testei as regras de Graham, Bazin, Barsi, Buffett, Lynch e Greenblatt em 15 anos de B3. Algumas funcionaram. O ponto é outro.

Seguir dica de guru é operar no escuro com a lanterna dos outros.

Enquanto ele está do seu lado, você enxerga alguma coisa. No dia em que ele vai embora, ou muda de ideia sem avisar, você fica parado no meio do corredor. Sem luz e sem saber como chegou ali.

A cena é conhecida. Você assiste a um vídeo com o nome do papel no título. A pessoa fala com segurança, mostra dois gráficos, cita um investidor famoso. Você compra.

Três meses depois, a ação caiu 25%.

E aí vem a pergunta que ninguém respondeu no vídeo: e agora? Sai? Compra mais? Espera?

Você não sabe. Porque você nunca soube por que entrou.

Por que a cabeça gosta tanto de um guru

Decidir cansa. E decidir com dinheiro em jogo dá medo.

O guru resolve as duas coisas de uma vez. Ele entrega a decisão pronta e, junto com ela, um alívio: se der errado, a culpa não é sua.

Isso tem nome: terceirizar a responsabilidade. É confortável. É o mesmo motivo pelo qual a gente pergunta ao garçom "o que você recomenda?" quando não quer ler o cardápio inteiro.

Só que o garçom não vai pagar a sua conta. E o guru também não.

Tem um segundo mecanismo, mais sutil: a autoridade emprestada. Quando alguém cita Buffett, Graham ou Barsi, a gente transfere para a dica a confiança que tem no nome. Mas a dica não é do Buffett. É de quem está falando, usando o nome dele.

E tem o terceiro: a gente lembra dos acertos do guru e esquece os erros. Ninguém faz vídeo sobre a dica que deu errado há dois anos. Isso é viés de confirmação com a ajuda do algoritmo.

Até o melhor mestre perdeu cinco anos do CDI

Aqui eu quis ser justo. Em vez de dizer que todo mestre é furada, transformei em regra escrita o que dá para medir de cada um e testei na base do Quantor: ações da B3 com mais de R$ 5 milhões negociados por dia, sem deixar de fora as que quebraram, de maio de 2011 a setembro de 2026.

Para comparar: no mesmo período, o Ibovespa rendeu +6,9% ao ano e o CDI +9,8%.

Regra inspirada em Ao ano Pior queda
Graham (defensivo) +15,5% −32%
Bazin +12,9% −31%
Barsi +12,8% −26%
Greenblatt (fórmula mágica) +8,4% −50%
Lynch +7,4% −21%
Buffett (só a parte com números) +4,8% −45%

Algumas funcionaram. Graham, Bazin e Barsi passaram o CDI e o Ibovespa no período inteiro, e ficaram bem acima de carteiras sorteadas com o mesmo número de ações (que renderam entre +6,7% e +8,9% ao ano).

Outras não. A versão quantitativa do Buffett rendeu menos que o Ibovespa e caiu 45%. A do Greenblatt chegou a perder metade do dinheiro e só foi bem entre 2016 e 2020. A do Lynch quase nunca achava ação que passasse nos critérios, e por isso ficou 71% do tempo no CDI.

Agora o detalhe que muda a leitura: nenhuma delas bateu o CDI com folga entre 2011 e 2015. Nesse bloco, o Graham rendeu +2,1% ao ano, enquanto o CDI pagava +10,2%. Quem seguiu a melhor regra da tabela passou cinco anos perdendo da renda fixa.

Imagine estar dentro disso por cinco anos, seguindo o guru e não a regra. Você aguentaria?

O Buffett que vira fórmula não é Buffett

Preciso ser honesto sobre o que o teste é e o que não é.

Ele mede a parte com números de cada método. O Buffett de verdade olha vantagem competitiva, gestão, o negócio por dentro. Isso não vira fórmula. Então o "Buffett quantitativo" que perdeu do Ibovespa não é o Buffett. É o que sobra dele quando você tenta copiar só os múltiplos. O Barsi, por exemplo, nem tem regra escrita: o teste usou uma leitura das entrevistas dele.

E isso, curiosamente, reforça o ponto. Quando você copia um mestre pela metade, copia o que é fácil de copiar. O difícil, o julgamento, a experiência, a paciência de 2011 a 2015, não vem junto.

Também é verdade que 15 anos é uma janela. Em outra janela, a ordem da tabela poderia ser outra. Nenhum resultado passado garante o próximo.

O ponto não é a pessoa. É a regra

Repara no que fez a diferença na tabela.

Não foi o nome. Foi existir uma regra clara, escrita, que dava para testar. O que comprar, quando trocar, o que fazer quando cair. Graham funcionou aqui porque a regra dele, aplicada com disciplina, funcionou nesta bolsa, neste período. Buffett não funcionou aqui porque a parte que dá para transformar em regra não foi suficiente.

A dica do vídeo não tem nada disso. Ela tem um papel e uma opinião. Não tem critério de saída. Não tem o que fazer se cair 30%. Não tem teste.

E quem deu a dica não vai estar lá no dia em que ela virar.

Seguir uma regra testada é diferente de seguir uma pessoa. A regra não muda de humor. Não tem posição montada no papel que está indicando. Não precisa de audiência. E, o mais importante, você sabe exatamente o que ela faria em cada situação, inclusive nas ruins.

Ideia alheia é ponto de partida, nunca plano

  • Eu não compro nada que eu não saiba explicar em uma frase por que comprei.
  • Antes de entrar, eu já sei o que me tira do papel. Se a dica não diz, eu não tenho plano.
  • Quando alguém cita um mestre, eu pergunto: qual é a regra, e ela foi testada aqui, na B3?
  • Eu lembro que até as regras que funcionaram passaram cinco anos perdendo do CDI. Disciplina é aguentar isso.
  • Ideia de outra pessoa pode ser ponto de partida. Nunca é o plano.

Ninguém vai cuidar do seu dinheiro melhor que você. Quem compra por dica, vende por desespero.

Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

WhatsAppE-mailLinkedInX
Veja com os dados de hoje
A régua, o fluxo e os fundamentos de cada papel, atualizados todo dia

Crie uma conta grátis no Quantor para ver, em qualquer ação, a tendência do mês e o que aconteceu com quem seguiu a régua.

Criar conta grátisJá tenho conta
Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Mais artigos

Todos os artigosIdeias do Quantor

Conteúdo educacional. Os números vêm da base própria do Quantor e descrevem o que aconteceu, não prometem o que vai acontecer.

O conteúdo do Quantor tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação de compra ou venda. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.