Tentar demais vira sorte
A casa já rodou mais de 1.300 testes. Com tanta tentativa, algum sempre parece vencedor por acaso, e um único preço errado de R$ 0,01 chegou a aprovar três carteiras.

A ideia
Jogue uma moeda dez vezes. Tirar dez caras seguidas é raríssimo: uma chance em mil. Agora coloque mil pessoas jogando moedas ao mesmo tempo. É quase certo que alguém tire dez caras. Essa pessoa não tem um talento especial para moedas. Ela é só a mais sortuda de uma multidão.
Com estratégias acontece o mesmo. Teste cem variações de uma regra: médias de 9 e 21, de 10 e 20, de 12 e 26, com filtro, sem filtro. A melhor delas vai parecer excelente no passado. Parte do resultado é a regra. Parte é ter sido a mais sortuda de cem. Quanto mais você tenta, mais o vencedor é sorte.
Como medir a sorte, sem fórmula
Primeiro, uma medida de qualidade: o Sharpe, uma medida de retorno por risco. Ele divide o quanto a estratégia rendeu acima do CDI (a renda fixa mais simples) pelo quanto ela oscilou. Um Sharpe de 0,5 quer dizer meio ponto de ganho extra para cada ponto de oscilação.
Agora a pergunta certa: se eu tivesse testado a mesma quantidade de regras inventadas ao acaso, qual seria o Sharpe da melhor delas? Esse é o número que o acaso entrega sozinho. E ele sobe conforme você testa mais coisas.
A ideia de "tentar demais vira sorte" é esta: quem testa muito precisa exigir um resultado mais forte. Os pesquisadores Bailey e López de Prado criaram uma conta para isso, o Deflated Sharpe (Sharpe "desinflado"). Ela compara o seu resultado com essa barra do acaso. E responde com uma probabilidade: a chance de o seu vencedor não ser só o mais sortudo da multidão. A convenção é exigir 0,95 ou mais.
Na pesquisa do Quantor, com 72 testes numa pesquisa, a barra ficou num Sharpe anual de cerca de 0,63. Com 192 testes, 0,94. Contando os 1.066 testes feitos na B3, o melhor resultado esperado só por sorte teria Sharpe de 0,92.
O que testamos: o contador da casa
Para fazer essa conta honestamente, é preciso contar todas as tentativas, não só as da pesquisa atual. O Quantor mantém esse contador.

Olhe o total: cada teste rodado entra na conta da sorte. São os testes de cada pesquisa até set/2026. Na B3, a conta usada no desconto é 1.066.
São 1.306 testes: 1.066 na B3 (setups, candles, mestres, fatores, momentum, carteiras populares), 120 no S&P 500 (o índice das 500 maiores empresas dos EUA) e 120 em carteiras de FII. Nenhum venceu a própria referência (o CDI, o índice ou o IQ) depois do desconto da sorte.
Um caso: o CAN SLIM
O CAN SLIM é o método do americano William O'Neil. Ele compra empresas com lucro crescendo forte, perto da máxima e entre as mais fortes do mercado. E só compra quando o mercado está em alta (o "M" da sigla). Adaptado à B3, foi a única de 32 estratégias populares que passou no critério da pesquisa do Quantor. Rendeu +18,9% ao ano de 2011 a 2026, com pior queda de −20% (o maior tombo do topo até o fundo). Ficou acima do CDI e do sorteio (carteiras montadas ao acaso) nos três blocos. Confirmou também na prova cega.
Parece o fim da história. Não é.

Olhe como a confiança encolhe quando entram todas as tentativas anteriores. A figura mostra a confiança de que o resultado não é só sorte, contando só a pesquisa ou todas as tentativas da casa.
O Sharpe do CAN SLIM foi 0,57. Contando só os 64 testes daquela pesquisa, a confiança já era baixa: 0,35, longe dos 0,95 exigidos. Contando os 1.066 testes da casa, cai para 0,08. A pesquisa do Quantor registrou o CAN SLIM como "candidato a acompanhar", não como descoberta. E o próprio índice da casa (o IQ, uma nota para ações que sobem com constância, sem sustos) passa pelo mesmo desconto: 0,67 contando 72 tentativas, 0,40 contando 192.
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