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Análise técnica com dados: 596 testes na B3 · Aula 2 de 8

Gaps: continuação ou devolução?

O gap de alta, vendido como sinal de força, devolve no dia seguinte. O gap de baixa foi o único sinal de 596 que passou na prova cega, e mesmo ele está sumindo.

por Vinícius Rosa6 min de leituraatualizada em
Gaps: continuação ou devolução?

A ideia

A ação fechou a R$ 20 ontem e hoje abre a R$ 20,60, sem negociar nenhum preço no meio. Isso é um gap de alta: um buraco entre o fechamento de um dia e a abertura do outro. A leitura clássica diz que é força, que tem gente com pressa de comprar, e que o movimento continua. O contrário também tem seu ditado: "todo gap se fecha", ou seja, o preço volta para cobrir o buraco.

As duas frases são ditas com a mesma certeza. Não podem estar certas ao mesmo tempo.

O que testamos

Nas mesmas 437 ações líquidas desde 2006 (as que negociavam bastante dinheiro por dia), com as que saíram da bolsa:

  • Gap de alta de mais de 2% e de mais de 5%, e o gap que abre acima da máxima do dia anterior.
  • Gap de baixa de mais de 2% e de mais de 5%.
  • Gap fill ("fechar o gap"): comprar no gap de baixa e vender quando o preço volta ao fechamento anterior.

A compra é na abertura do próprio dia do gap, o primeiro preço possível. A venda, na abertura 1, 5 ou 10 pregões depois. Comparamos com um pregão qualquer das mesmas ações (que rendeu +0,05% de uma abertura para a seguinte). Custo de 0,1% por ordem nos testes de carteira.

Houve também uma prova cega. Tudo foi decidido com os dados de 2006 a 2016. Só o que passou ali foi medido em 2017–2026, sem mexer em nada. É o teste mais duro que existe para uma regra: ele mostra se ela funcionava ou se só se encaixava no passado.

O resultado

Gaps contra um pregão qualquer

Leitura: retorno da abertura do gap até a abertura seguinte, menos o de um dia qualquer. O que olhar: os gaps de alta ficam abaixo de zero; só os de baixa ficam acima.

O gap de alta não continua. Devolve. O gap de alta de mais de 2% rendeu 0,55 ponto percentual a menos que um dia qualquer no pregão seguinte, em 28.839 casos. O intervalo de confiança (a faixa onde o resultado verdadeiro provavelmente está) ficou inteiro abaixo de zero. Aplicado papel a papel, virou +4,9% ao ano, batendo o CDI em só 47 das 437 ações. O gap acima da máxima anterior, 78 mil casos, também ficou abaixo do acaso.

O gap de baixa repica. Comprar na abertura de um gap de baixa de mais de 2% e vender na abertura seguinte rendeu +0,93 ponto acima de um dia qualquer, em 22.813 casos. Tirando os casos extremos, +0,63 ponto. Papel a papel, +11,4% ao ano, com pior queda média de só −20% (pior queda é o maior tombo do topo até o fundo). A regra bateu o CDI em 253 das 437 ações.

Esse foi o único sinal, de 596 testados, confirmado na prova cega. Parece a descoberta da pesquisa. Não é.

O que quase ninguém sabe. O ganho do gap de baixa está desaparecendo. Numa carteira de 10 vagas que compra todo gap desses, o resultado foi enorme em 2006–2012. Desde 2021, fica abaixo do CDI, com cinco anos no negativo. E ele só existe comprando exatamente na abertura: se a compra for no fechamento do dia do gap, a regra cai para +8,5% ao ano, abaixo do CDI. Na abertura de ações menos negociadas, um único negócio pequeno pode fazer o preço. Parte da vantagem antiga era isso, e não algo que se captura com dinheiro de verdade.

O gap de baixa ano a ano

Leitura: barra acima do ponto azul = ano acima do CDI. Depois de 2020, nenhum. Repare: as barras altas estão todas no começo do período.

E o "todo gap se fecha"? O gap fill passou na parte usada para criar a regra e falhou na prova cega: em 2017–2026 rendeu 1,3 ponto a menos que um dia qualquer.

Um caso: o preço de R$ 0,01

Na primeira versão da pesquisa, o gap de baixa de mais de 5% também parecia aprovado. A explicação estava num único pregão: GOLL54 abriu a R$ 0,01 em 12 de junho de 2025, o primeiro dia do código novo da GOL, e fechou a R$ 0,20. No papel, uma operação de +6.699%. Ninguém compraria ali. Tirado esse preço, a aprovação sumiu.

É uma lição que vale para qualquer backtest (simulação no passado) de gap: um preço de abertura esquisito pode sustentar uma estratégia inteira.

Onde o teste pode enganar

  • Abertura é um preço frágil. Em ações pouco negociadas, pode ser um negócio de poucas ações. O teste só conta ações líquidas, mas o problema diminui, não some.
  • Dia de dividendo. A série é ajustada só por desdobramentos (quando uma ação vira várias e o preço se divide). Então o dia ex-dividendo, o primeiro em que quem compra já não leva o dividendo, pode aparecer como gap de baixa.
  • Gaps em índice e intradiário (dentro do mesmo pregão) não foram testados aqui.

A versão prática

  1. Não compre um gap de alta por ser "força". No dia seguinte, ele devolve mais do que um dia comum.
  2. Não trate o gap de baixa como oportunidade garantida. A vantagem era de um pregão, dependia da abertura exata e está sumindo.
  3. Desconfie de backtest de gap com poucas ações ou sem limpeza de preço. Um erro de cotação vira fortuna no papel.
  4. Se o gap rompeu o seu stop, respeite o stop. Stop é a ordem de saída se o preço cair até certo ponto. O gap de baixa repica em média, mas a média esconde as ações que não voltam.

No Quantor

Na tela Analisar papel, o gráfico diário mostra os gaps. O bloco Fluxo diário indica a referência de saída calculada pela volatilidade do papel (o ATR é o tamanho médio do sobe-e-desce diário da ação), que já leva em conta dias de buraco. O O que mudou lista quem trocou de estado desde o pregão anterior, útil para ver o dia seguinte a um gap sem agir no impulso. Os números desta aula saíram da pesquisa do Quantor.

Teste você mesmo

Na próxima vez que uma ação que você acompanha abrir com gap de alta de mais de 2%, não faça nada. Anote a abertura e o fechamento do dia seguinte. Faça isso com cinco gaps. Quantos continuaram subindo? A conta de cinco casos não prova nada, mas treina o olho para desconfiar da força que aparece num buraco.

O que fica

  • Gap de alta não é força: no dia seguinte, devolve mais que um dia qualquer.
  • O melhor sinal de 596 é pequeno, depende da abertura e está sumindo.
  • Um único preço errado pode fabricar uma estratégia vencedora.

Para pensar: a última vez que uma ação sua abriu em gap, você agiu na abertura por impulso? O que você faria diferente com estes números na mão?

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.