Entrar
Análise técnica com dados: 596 testes na B3 · Aula 3 de 8

Comprar na queda e a "faca caindo"

Comprar a ação que despencou é o conselho mais repetido da bolsa. Nos dados de 437 ações, quem cai forte continua caindo, e R$ 1.000 em 2006 comprando o que mais caiu viraram cerca de R$ 40.

por Vinícius Rosa6 min de leituraatualizada em trecho aberto
Comprar na queda e a "faca caindo"

A ideia

Uma ação boa cai 10% num dia. O grupo de mensagens se anima: "promoção", "o mercado exagerou", "quem compra na baixa ganha". Outro ditado responde: "não tente pegar uma faca caindo". Os dois convivem na mesma roda de conversa.

Esta aula mede quem tem razão, com as 437 ações que estiveram entre as líquidas da B3 desde 2006 (as que negociavam bastante dinheiro por dia). Entram inclusive as que quebraram e saíram da bolsa, que são justamente as que a memória esquece.

O que é "comprar na queda"

Há dois jeitos de comprar a queda, e testamos os dois:

  • No curto prazo (evento): a ação cai forte num dia ou numa semana; você compra na abertura seguinte e vende dias depois, esperando o repique.
  • Na seleção (carteira): todo mês você compra as 10 ações que mais caíram, ou as que estão mais abaixo da média de 200 dias (a média dos fechamentos dos últimos 200 pregões), apostando que estão "baratas".

A faca caindo, no teste, é uma queda de 5% ou mais num dia com volume de pelo menos o dobro da média dos últimos 20 pregões. Volume alto numa queda costuma significar notícia, ou gente grande saindo.

O que testamos

No curto prazo, 59 variações: queda de 5%, 10%, 15% e 20% num dia; queda de 5% a 20% em 5 dias; 3, 5 e 7 quedas seguidas; e, do outro lado, altas fortes. Cada uma comparada com um pregão qualquer das mesmas ações no mesmo prazo. Na seleção, carteiras de 10 ações refeitas todo mês, com custo. As empresas que quebraram entram pelo valor que o acionista recebeu (às vezes, zero).

O resultado

Comprar depois da queda contra um dia qualquer

Leitura: barras vermelhas rendem menos que um dia qualquer. "Firme": o intervalo de confiança (a faixa onde o resultado verdadeiro provavelmente está) inteiro fica abaixo de zero. O que olhar: as quedas fortes, sobretudo com volume alto, ficam abaixo de zero; quem cai forte continua caindo.

Quem cai forte continua caindo. Depois de uma queda de 5% com volume alto, a ação rendeu 0,83 ponto percentual a menos que um dia qualquer nos 5 pregões seguintes, em 3.805 casos, e o resultado é firme. Depois de cair 10% num dia, 2,69 pontos a menos em 10 pregões. A queda de 5% com volume normal ficou quase neutra (−0,30): o que pesa é o volume.

As sequências de quedas também não dão repique confiável. Três quedas seguidas: neutro. Cinco quedas seguidas pareciam boas em 2006–2016 e sumiram em 2017–2026. E o outro lado confirma o padrão: depois de subir 10% num dia, a ação rende 1,29 ponto a menos. O salto de um dia só, para cima ou para baixo, tende a ser exagero. E o exagero da queda vem com notícia ruim.

Na seleção, o estrago é maior:

R$ 1.000 em 2006 comprando o que mais caiu

Leitura: escala logarítmica; cada linha horizontal é dez vezes a anterior. Nessa escala, a mesma porcentagem de alta ou queda tem sempre o mesmo tamanho no gráfico. Repare: as três carteiras terminam muito abaixo do valor inicial, enquanto o CDI sobe o tempo todo.

Comprar todo mês as 10 que mais caíram no mês rendeu −14,7% ao ano. As que mais caíram em 12 meses, −13,3%. As mais abaixo da média de 200 dias, −13,2%. Todas com pior queda (o maior tombo do topo até o fundo) de 98%. R$ 1.000 em 2006 viraram cerca de R$ 40. Os meses de maior estrago foram as crises: mar/2020, set–out/2008, jun/2022. Nelas, o que mais caiu continuou caindo, e a lista incluía empresas que quebraram.

O que quase ninguém sabe. Na parte usada para criar as regras (2006–2016), 55 dos 596 testes pareceram aprovados. Quase todos eram variações de "comprar depois de queda": 5 ou 7 quedas seguidas, queda de 10% a 20% em 5 dias, o gap que se fecha (o gap é um buraco entre o fechamento de um dia e a abertura do outro). Na prova cega de 2017–2026 (anos guardados para conferir as regras depois de criadas), todos, menos um, pararam de funcionar, vários com o intervalo inteiro abaixo de zero. O repique existia, mas era do mercado de antes. Quem aprendeu a regra olhando 2006–2016 aprendeu uma lembrança.

Voltar à trilha Análise técnica com dados: 596 testes na B3Todas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.