Candles: martelo, engolfo e companhia preveem algo?
Contamos 92 mil sinais de nove candles de alta em 437 ações da B3, de 2006 a 2026. Nenhum rendeu mais que um pregão qualquer. O martelo rendeu menos.

A ideia
A ação caiu uma semana inteira. No gráfico diário aparece um candle com corpo pequeno lá no alto e uma sombra comprida para baixo. O curso chama de martelo e diz: os vendedores tentaram derrubar, os compradores devolveram, o fundo chegou. Na apostila, a seta aponta o lugar certo e a ação dispara logo depois.
O que a apostila não mostra são as outras dez mil vezes em que o mesmo desenho apareceu. Foi isso que fomos contar.
O candle em um minuto
Cada candle resume um pregão em quatro preços: abertura, máxima, mínima e fechamento. O retângulo (o corpo) vai da abertura ao fechamento. As linhas finas (as sombras ou pavios) mostram até onde o preço foi. Os padrões de alta mais ensinados:
- Martelo: sombra de baixo com pelo menos o dobro do corpo e quase nenhuma sombra em cima, depois de uma queda.
- Engolfo de alta: um dia de alta cujo corpo cobre inteiro o corpo do dia de baixa anterior.
- Harami, estrela da manhã, piercing: variações de "a queda perdeu força e o comprador apareceu".
- Doji: abertura e fechamento quase iguais, sinal de indecisão.
- Pin bar: sombra de baixo ocupando dois terços do candle, num fundo de 10 dias.
- Três soldados brancos: três altas seguidas, cada uma fechando perto da máxima.
O que testamos
Usamos a base histórica da B3 sem viés de sobrevivência (ou seja, incluindo as empresas que quebraram ou saíram da bolsa): 437 ações que estiveram entre as líquidas em algum mês desde 2006, inclusive as 179 que já saíram da bolsa. "Líquida" é a ação que negocia bastante dinheiro por dia, fácil de comprar e vender sem mexer no preço. Para cada padrão:
- Toda vez que o candle apareceu, compramos na abertura do pregão seguinte, como faria alguém que viu o sinal no fechamento.
- Medimos o retorno nos 5 pregões seguintes (e também em 10, e com stop na mínima do candle). Stop é uma ordem de saída se o preço cair até certo ponto.
- Comparamos com um pregão qualquer: o retorno médio de 5 pregões das mesmas ações, em qualquer dia. Em 5 pregões, esse "acaso" rendeu +0,20%.
- Só contou sinal com a ação líquida. O intervalo de confiança (a faixa onde o resultado verdadeiro provavelmente está) saiu de um sorteio de meses: refizemos a conta muitas vezes com meses escolhidos ao acaso.
A pergunta é simples: comprar depois do candle rende mais que comprar num dia qualquer?
O resultado

Leitura: cada barra é o retorno depois do candle MENOS o de um dia qualquer. Barra vermelha: pior que o acaso. O que olhar: quase todas as barras ficam abaixo de zero.
Foram cerca de 92 mil sinais. Sete dos nove padrões ficaram abaixo de um pregão qualquer. Os dois acima (três soldados e piercing) ganharam por 0,05 ou 0,06 ponto percentual, dentro do ruído, isto é, uma diferença tão pequena que pode ser só acaso.
O martelo foi o pior: em 10.766 sinais, rendeu −0,22% em 5 pregões, contra +0,20% de um dia qualquer. São 0,42 ponto a menos, e o intervalo de confiança inteiro fica abaixo de zero. Em linguagem simples: não é azar da amostra (o conjunto de casos que medimos). Comprar o martelo foi pior que comprar ao acaso. O acerto foi de 46%.
Os candles de baixa também falham como alarme. Depois de um engolfo de baixa, a ação rendeu +0,23% em 5 pregões, praticamente o mesmo que num dia qualquer. Quem vendia a cada engolfo de baixa e voltava depois de 5 ou 10 pregões fez de +1% a +3% ao ano, contra +0,7% de segurar sempre. A pequena melhora vinha dos dias parados no CDI, não do aviso.
Aplicados papel a papel, com o dinheiro no CDI fora da operação, os candles de alta renderam +9,1% ao ano na média. Ficaram abaixo do CDI, que rendeu +10,5% ao ano, e bateram a renda fixa em só 118 das 437 ações.
O que quase ninguém sabe. Nas 10 ações mais negociadas do período, o martelo deu +1,8% em 5 pregões na PETR3 e +0,9% na PETR4. São dois tipos de ação da mesma empresa. Na VALE3, +1,0%; na VALE5, −0,2%. Na BHIA3, −8,1%. Cada ação teve só de 20 a 52 martelos em 20 anos. Com tão poucos casos, qualquer número desses sai do acaso. É assim que nasce o "setup que funciona na PETR": um papel, algumas dezenas de sinais e a memória das vezes que deu certo.

Leitura: a diferença entre PETR3 e PETR4, ou entre VALE3 e VALE5, mostra o tamanho do ruído. Repare: a mesma empresa dá resultados opostos.
Um caso: BHIA3
A BHIA3 teve 20 martelos na base. Em 16 deles, a ação estava mais baixa 5 pregões depois (acerto de 20%). Não porque o padrão "funcione ao contrário". É que a ação passou boa parte do período em tendência de queda. Numa ação que cai, todo martelo parece fundo. O desenho não sabe em que tendência está.
Onde o teste pode enganar
- Só o gráfico diário. Candles de 5 ou 15 minutos não entraram.
- O padrão sozinho. Quem usa candle costuma olhar suporte, volume e contexto. Testamos dois filtros de contexto. Um é a régua mensal da ação (uma linha que acompanha o preço usando os fechamentos dos últimos 5 meses; acima dela, a ação está "em alta"). O outro é a trava do Ibovespa (uma regra que deixa o dinheiro no CDI enquanto o Ibovespa fecha o mês abaixo da própria régua). Com os dois, a família sobe para +10,2% ao ano, ainda no nível do CDI. O filtro ajuda porque tira você do mercado nas quedas, não porque o candle passa a acertar.
- Definições. Cada escola desenha o martelo de um jeito. Usamos as definições clássicas, fixadas antes de rodar.
- Dia de dividendo. A série usa preço ajustado só por desdobramentos (quando uma ação vira várias, e o preço se divide). Então o dia ex-dividendo, o primeiro dia em que quem compra já não leva o dividendo, pode criar um "gap" artificial: um buraco entre o fechamento de um dia e a abertura do outro.
A versão prática
- Não compre porque apareceu um candle. Nos dados, ele não prevê a direção.
- Use a mínima do candle como referência de erro, não como promessa de alta. Se o preço perder a mínima, você sabe onde admitiu que estava errado.
- Peça o denominador. Diante de um exemplo bonito, pergunte: em quantas ações, quantos sinais, contra o quê?
- Olhe a tendência antes do desenho. O mesmo padrão numa ação em queda é só uma pausa.
No Quantor
Na Técnica da tela Analisar papel, o gráfico mostra os candles, e o bloco A régua mostra a régua mensal do papel, o filtro de tendência que fez mais diferença que qualquer candle. O bloco Fluxo diário traz uma referência de saída calculada pela volatilidade. O ATR é o tamanho médio do sobe-e-desce diário da ação, assunto da aula 7. Os testes desta aula vêm da pesquisa do Quantor, que roda cada regra em todas as ações da base.
Teste você mesmo
Escolha uma ação que você acompanha e ache os últimos 10 martelos no gráfico diário. Anote o fechamento 5 pregões depois de cada um. Quantos subiram? Agora sorteie 10 dias quaisquer do mesmo ano e faça a mesma conta. A diferença costuma ser menor do que a gente imagina.
O que fica
- Em 92 mil sinais, nenhum candle de alta rendeu mais que um dia qualquer. O martelo rendeu menos.
- Poucos casos numa ação só produzem histórias, não evidência.
- O candle é útil para dizer onde você erra, não para onde o preço vai.
Para pensar: qual foi a última vez que você entrou numa ação por causa de um desenho no gráfico? E você anotou o que aconteceu nas outras vezes em que ele apareceu?
Voltar à trilha Análise técnica com dados: 596 testes na B3Todas as trilhas
Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.